Tuesday, December 01, 2009

Mark -1

Ninguém pode dizer que foi por falta de aviso: Anthony "Tony" Edward Stark finalmente sentiu o peso de ser o intelectual, mais influente e, por que não, poderoso de todo o globo terrestre. Se considerarmos o diabinho naquela garrafa em 1979, temos agora a segunda e mais catastrófica queda do Homem de Ferro.

Não foi por falta de aviso, desde os primórdios da Guerra Civil, ele chamou a responsabilidade para si, como futurista que julgava ser (e é), assumiu demandas utópicas, embora aparentemente pragmáticas, traiu a confiança de alguns e foi muito, muito longe com outros. Fato é que o incidente do “código aberto” protagonizado por Ezekiel Zeke Stane (filho de Obadiah), com gadgets mais acessíveis e tão funcionais quanto os do Vingador, resultou no suicídio tecnológico da Stark Enterprises.

O último prego no caixão veio logo em seguida com a invasão Skrull, eliminando de imediato o já vulnerável poder de resposta da SHIELD, cujos sistemas de informação haviam sido substituídos pelo próprio diretor. Era o início do “Reinado Sombrio” com Norman Osborn assumindo as rédeas como o salvador da pátria, confiscando para fins pessoais o que restava da Starktech e reformulando todo um braço da segurança nacional com a fundação da HAMMER.

Insatisfeito, o ex-duende queria o que deveria ser seu de direito, a posse da lista confidencial do ato de registro super-humano. Algo, portanto natural numa transição entre administrações não fosse o passado (ou presente) daquele homem, o que de pronto é uma possibilidade afastada por Tony que copia toda a base de dados para o córtex aprimorado com o Extremis.

Fazendo isso, Stark colocou a cabeça a prêmio, literalmente. Além da lista, sua valiosa massa encefálica trazia consigo de brinde todos os segredos e projetos inacabados do inventor, arquivos pessoais de cada agente da SHIELD, desde os primórdios da agência.

O que ele faria? Fugir? Sim, claro, mas seria questão de tempo até ser capturado, mesmo se recorresse à fragilizada comunidade super-heróica. Voltando, o que ele faria? Simples, a alternativa era “formatar” o cérebro, zerando as células cerebrais de forma que cada item sigiloso ou plano desejado por Norman seria eliminado no processo. O problema é que a memória, os traços de personalidade e todos os reflexos mais elementares seriam também apagados ao ponto da morte cerebral.

Contudo, isso não aconteceria num piscar de olhos nem tão pouco do dia para a noite. Seria lento, gradual e deveras degradante. Além do quê, implicaria um gasto exorbitante de energia, não a elétrica comum, mas uma muito específica, a repulsora criada por Tony e encontrada apenas nas suas “garagens” espalhadas pelo globo. Como cada sessão sobrecarrega os geradores e a cada minuto que passa os agentes de Norman se aproximam do pote de mel, ele tem que cruzar o planisfério numa corrida contra o tempo repleta de curvas inversas de aprendizado.

Mesmo nesse estado de coisas, por mais surreal que possa parecer, qualquer miolo intacto pode ser útil, o que justifica se evadir desesperadamente recorrendo a truques velhos e a pilotagem de armaduras obsoletas, conforme o raciocínio diminui**. E é a partir daí que a trama emperra de vez na 5ª marcha e assume um ritmo insano passível de comparações entre as melhores caçadas humanas da cultura ficcional.

* Para alguém que tinha controle pleno de cerca de 70% das funções do cérebro, lidar com limitações de Q.I deve ser, se não excruciante, uma revelação.

** Em dado momento, a coisa alcança contornos tão dramáticos que Tony é ajudado na Rússia por Dmitri Bukharin (o Dínamo Escarlate). Pode imaginar o retrocesso?

O que por si só não justifica inteiramente o Eisner 2009* na estante do Matt Fraction, mas influencia e muito a decisão dos jurados da premiação. Cada uma das vinte edições de ‘The Invencible Iron Man’ até aqui são impecáveis, em termos de estrutura diálogo/ação, não há série heróica em publicação corrente que a supere. Sem falar que são verdadeiras aulas geeks de como conceber o impossível a partir do possível, e um possível graças à arte de Sal Larroca, que, diga-se de passagem, é uma surpresa à parte. Antes um ilustrador de quadros estáticos, mas de estilística dentro do razoável, nesse título ele ganha finalmente sua maioridade na arte seqüencial, cercando o universo do Homem de Ferro de dinâmicas modernas** com parafernálias high tech, esquemáticos, imagens de radar, satélite e, acima de tudo, a intensidade e toda a pressão que os enredos exercem sobre os personagens.

* Na categoria melhor série nova.

** Como as interfaces gráficas dos usuários dentro de suas armaduras. Um recurso que certamente fora surrupiado do filme.

Só que nem tudo é sobre Stark e seus problemas de memória, na retaguarda como coadjuvantes temos Virginia Pepper Potts e Maria Hill desempenhando papéis cruciais no desenrolar da história. Uma assumindo o legado do patrão com a armadura “Rescue”, portando o último gerador repulsor do mundo e a outra numa missão para entregar o “plano B” de Tony ao Capitão Bucky América. Em algum ponto, elas “mandam ver” e seus “destinos se convergem”.

Atravessado o Rubicão, precisamente na edição #19, Norman trava a localização de Tony em Dubai e chega com tudo com seu “Patriota de Ferro” no Homem de Ferro, Marco Zero. Quando o massacre termina – sim, massacre, aquilo definitivamente não foi uma briga –, é justo dizer que Stark praticamente não sabia o que o havia atingido e só não foi esquartejado por conta da imprensa e a transmissão ao vivo do acontecido.

Um traumatismo craniano, nariz quebrado, mandíbula partida, concussões, ferimento à bala perto do pescoço, seis costelas fraturadas, queimaduras, cortes, escoriações e um estado vegetativo persistente depois, Tony é uma tabula rasa, mas é a partir daqui que ganhamos conhecimento de sua agenda secreta, leia-se “plano B”.

Como o atendimento se deu no aeroporta-aviões da HAMMER e este é essencialmente uma embaixada voadora, segundo o regimento interno a lei dos Estados Unidos é reconhecida a bordo, portanto Stark possui o direito de ter seu poder de decisão transferido para o clínico particular. Legalmente, é uma medida de eutanásia que apenas aquele médico poderia fazer e foi o que impediu Osborn de desligar os aparelhos de suporte vital. Donald Blake, hã? Deus (do Trovão) é pai.

Na edição #20, Tony está mais pra lá do que pra cá, mas protagoniza via gravação o melhor e mais cínico momento do ano nos quadrinhos da Marvel, a reviravolta que dará início ao “Cerco” e o que trará a trindade da casa de volta aos holofotes. Sem desculpas e melodrama, seis páginas de um monólogo inesquecível em que o Homem de Ferro se posiciona como o “Homem”, entre o “Mito” do Capitão e a “Deidade” do Thor. Para posteridade e, quem sabe, remir o fiasco coletivo que foi aquela maldita invasão.

A Fraction of Love

Qualquer um que acompanha nossas linhas já há algum tempo deve ter percebido que quando cismo com alguma coisa, me torno um verdadeiro disco arranhado orgânico e não obstante, vire e mexe, volto ao assunto para mais uma rodada de agulhadas. Fazer o quê? Tenho sérios problemas para controlar a raiva.

Bem, nesse sentido, um dos temas recorrentes e recordista em queixumes ainda é o “dia a mais” do Joe Quesada*. Sem entrar no (de)mérito das repercussões ou na virada de mesa na vida do amigão da vizinhança, o que nunca revelei é que meu asco por esta decisão editorial partiu daquela excepcional e hoje mitológica ‘The Sensational Spider-Man Annual #1’ dos mesmos Matt Fraction & Sal Larroca de ainda pouco.

O contexto da história era o da vida ordinária que Peter vinha levando desde que relegou o ato de registro, sobrevivendo às margens da sociedade com Mary Jane a tiracolo e May Parker em coma após ser alvejada por um franco-atirador contratado por Wilson Fisk. No one-shot em tela, MJ e Pete estão em dois lugares diferentes, ambos refletindo sobre suas vidas conjuntas. Ela numa cafeteria, sendo pressionada por um ex-segurança a serviço da SHIELD a entregar o marido – e receber passe livre na acusação de cumplicidade – e ele, desesperado, numa lanchonete do outro lado da cidade, tentando convencer um amigo da polícia a entregá-lo as autoridades.

Enredo simples, tocante para os fãs da velha guarda e com um desfecho memorável que te faz refletir sobre o quão longe poderia se chegar com aquela temática. Pena que não foi dado ao Matt à chance de fazê-lo, porque se com um conto redondinho desses, que lhe valeu inclusive uma indicação na categoria melhor edição individual nos Eisner 2008, seria justo dizer que teríamos pela frente uma fase e tanto.

Por essas e por outras que ‘Ter e Manter’ foi a minha última leitura aracnídea.

Amém.

* Straczynski foi mero bode expiatório nessa palhaçada toda.

Escrito por LUWIG
 
Monday, November 09, 2009

Terapia de Regressão em Pisa-Brite

O problema das unanimidades é que sempre que surge uma opinião na contramão (vejam os comentários), de pronto ela tende a ser rechaçada indecorosamente. Nem parece que a uma geração de distância, precisamente no período ditatorial militar, passamos por poucas e boas com idéias e livre-arbítrio sofrendo as mais severas mitigações.

Deveríamos nas nossas discussões concordar em discordar e não afugentar simplesmente os opositores por meio de manifestos depreciativos. Defender um ponto de vista é lutar um bom combate, com honra e respeito ao inimigo, às vezes sem declinar de suas convicções e às vezes declinando com o ingrediente básico de um bom julgamento de caráter: a humildade.

Dizem por aí que vivemos em democracia, pode até ser em ano eleitoral, nos demais não há qualquer consenso ou dissenso. Pode ser que esteja generalizando, mas brasileiro não sabe debater, ou impõe ou se omite. Onde quero chegar? No nosso calejado e ininteligível mercado editorial de quadrinhos.

Na boa? Cansei de tentar entendê-lo e esperar por transparência dos “grandões”. Como? Simples, divulgando números ou mantendo canais abertos com o consumidor. Os fóruns de discussão estão aí, mas seus gestores, não. Celebram-se contratos vultosos para se publicar periodicamente e só, não há qualquer estudo prévio sobre formato, mercado ou público alvo.

Se não vende conforme o que se almeja, coitados de nós. Coleções ficam pelo caminho e tornamo-nos eternos apostadores em pára-quedistas. Aparentemente ninguém vê potencial na publicidade em algo que é hoje um dos principais insumos da indústria do entretenimento. Ok, talvez até não dê para lucrar com a prática de pronto, mas ninguém leva em conta que os custos de produção podem ser se não empatados, ao menos amenizados?

Um profissional do meio poderia ler isso e dizer “falar é fácil” ou “não funciona assim”, poder eles sempre podem e é o que fazem, apenas não discutem. Tenho razão? Claro que tenho ou não seria verdade que o freguês é sempre dono dela?

Tento relevar de tudo, mas meu filtro deixa escapar bastante porcaria, como por exemplo, aquela indisposição infrutífera de alguns dias atrás. Somando-se a nossa pequena listagem de “pendências”, cito agora ‘O Terceiro Testamento’, quadrinho franco-belga de Xavier Dorison & Alex Alice, dividido em quatro tomos e que teve publicado apenas seus dois primeiros pela Multi Editores e desde então nada dos dois últimos.

Em março desse ano até rolou uma espécie de retratação pelo atraso, garantindo os fascículos subseqüentes até o final do primeiro semestre. Mas em que mês estamos mesmo? A picaretagem é tamanha que nem o site da empresa merece confiança. Uma pena, os dois que chegaram a sair são de altíssima qualidade tanto no enredo e no apuro gráfico quanto no capricho da edição, em capa dura, formato 24 x 32 cm e papel couché, sem falar do preço de R$ 19,80, acessível para estes padrões.

E o cancelamento de ‘Marvel Action’? Sobrou foi pro Johnny Blaze de Jason Aaron que atravessava uma ótima fase e não merecia arcar com os problemas dos outros. Lembrei logo do impagável Capitão Genis-Vell Marvel de Peter David que era publicado em ‘Quarteto Fantástico & Capitão Marvel’ e ficou pelo caminho com a abreviação do título, faltando apenas as edições #19-25 para a conclusão da série. Com o Motoqueiro Fantasma rolou até piada inoportuna por parte do editor Paulo França, “esse vai para os quintos do inferno mesmo”, seguido de um cínico “brincadeiras à parte, ainda estamos estudando uma forma de dar continuação à série do Espírito da Vingança”. Demorou muito, mas descobriram que fomos, somos e sempre seremos uma maldita piada.

É perda de tempo escrever para as seções de cartas que, repito, todas e em todas as revistas têm se um nível baixíssimo de discussão e só servem para os sabichões piolhentos, bajuladores e fanboys das antigas relatarem que estão de volta na área.

Se desse ouvidos a mim mesmo, não teria enviado esta mensagem à revista Superman: “Olá! Indo direto ao ponto, estava checando no meu e-mail o boletim semanal 'Direto da Redação (#106)' e entre os destaques da semana vi o anúncio de Superman #84. Até aí tudo bem, mas fiquei surpreso com a composição do título fazendo menção a 'Adventure Comics Special - The Guardian #1' e não a edição que a antecede imediatamente, no caso, 'Jimmy Olsen Special #1' de James Robinson & Jesus Merino. Aliás, diante do checklist de Novo Krypton, essa aí deveria ter sido publicada antes mesmo de 'New Krypton Special #1' na edição #83. Bernardo (o editor), o que queria e acredito, a esmagadora maioria dos leitores do ex-último filho de Krypton, é que obedeçam rigorosamente a ordem das coisas e não dêem saltos arbitrários. Grato pelo atenção”.


Muito barulho por nada? Não sou disso. A ausência dessa revista é para se lamentar mesmo, visto que é um momento raro na vida do eterno “estagiário”, e é partir daqui que ele passa a trilhar seu próprio caminho como jornalista, metendo-se numa conspiração que vai dos primórdios do Cadmus, passando pelo vigilantismo interiorano até as contramedidas secretas do Governo frente ao(s) kryptoniano(s). Sua omissão inviabiliza igualmente a importantíssima 'Jimmy Olsen Special #2', conseqüência natural da primeira, por motivos óbvios.


Retificação: estou agora com minha Superman #84 em mãos e felizmente errei, publicaram o 'Jimmy Olsen Special #1', mas que eles erraram também, erraram, no Direto da Redação (#106) com a menção a 'Adventure Comics Special - The Guardian #1'.

Pois bem, percebe que é muita energia negativa para um homem só e de algum jeito ele tem que descarregá-la. Como? Não sei você, mas consigo isso retalhando minhas próprias revistas, transformando o que é digno de minha atenção em compilados com capa dura e os indignos em matéria-prima para reciclagens. A terapia alternativa funciona mais ou menos assim:

1º passotudo depende de suas ferramentas e as minhas são essas

(A) Uso chave de fenda para soltar os grampos. Se não prezas por tuas unhas, podes fazê-lo sem, mas vou logo avisando, ao final o efeito é tão devastador quanto o de 24hs intermitentes as roendo.

(B) O estilete seria meu “bisturi”. É essencial e custa em média R$ 1,50. Se optar por seguir a presente receita, tem que comprar um. Não adianta dobrar a página, lambê-la no meio e puxar com tudo. Das duas, uma: ou tu ficas com a língua cortada/dolorida com a repetição ou tu és um filho da mãe pão duro e seboso. Dica: quando for cortar, corte com um papelão embaixo (dã!).

(C) Recomendo um esquadro grande e espesso para facilitar a separação das páginas com o estilete. Uma régua comum pode quebrar um galho e num descuido também deixá-lo cotó.

(D) Lembra que toda revista, antes ou depois das histórias, estão lá impressas as artes de capa que não foram aproveitadas na principal? Claro que lembra. Pois bem, às vezes no início do capítulo ou no final, coincide de uma mesma página dividir a primeira ou a última de outro título, ou até a seção de cartas. O que faço com a face inútil? Com bastante cuidado, passo a cola em bastão nela de forma a deixá-la como um adesivo e colo uma sobre a outra.

Eu disse “cola em bastão”. Nada de usar cola lavável. Se optar por usá-la, saiba que mesmo distribuindo-a igualmente na página, ela ficará com marquinhas pontilhadas horríveis.

(E) A tesoura fica de sobreaviso, mas não a uso tanto quanto parece, apenas para igualar as folhas coladas acima.

(F) A transparência na primeira página não tem um fim apenas estético, pelo contrário. No meu caso, coloco nas páginas iniciais as capas sobressalentes coladas umas sobre as outras, deixando-as mais encorpadas. Você me pergunta: para quê? Quando tu encomendas a encadernação na gráfica de sua preferência, o usual é que o funcionário use a “guilhotina” e aplaine as páginas para deixar com o aspecto “quadrado”.

Normal? Normal, apenas não confie nesse ou em qualquer funcionário, muito menos na guilhotina. O primeiro impacto dela na pisa-brite pode ou não ser destruidor, deixando as primeiras (ou as últimas) páginas quebradiças. Para evitar esse tipo de coisa, deixe-as consistentes com a transparência e as artes de capa (no início e no final).

2º passonão pense que a gráfica pensará por você

(A) Não é paranóia cobrir todos os flancos. Quando se dirigir a gráfica leve as páginas dentro de um saco transparente, se possível um apropriado para revistas. No momento em que estiver sendo atendido, seja enfático com relação à disposição/ordem das páginas. Avise que o papel é delicado e que o corte deve ser feito com cautela redobrada.

Se o resultado for de seu agrado, sempre repita as mesmas exigências na próxima visita. Você vai parecer um idiota, mas dormirá mais tranqüilo por ser.

(B) As letras douradas na capa e nas laterais encarecem bastante a encadernação. Sem as mesmas, pago geralmente R$ 10,00. Se usá-las, o valor quase sempre duplica.

(C) Particularmente, prefiro providenciar minhas próprias capas e etiquetas. No caso das capas, é uma jogada um tanto arriscada. Pego a que quero e faço marcações de seu comprimento e largura com caneta. Usando o esquadro, corto a capa emborrachada com o estilete e depois com muito cuidado a puxo. Em seguida, passo a cola em bastão na folha para fixá-la no espaço vazio.

Atenção: lambuze bem a superfície da cobertura, caso contrário, com o tempo, algumas bolhas de ar indesejadas podem aparecer. Dica: feito isso, coloque uma tonelada de livros/revistas em cima do encadernado e deixe sob repouso por um tempo.

(D) Para as etiquetas laterais, a criatividade (e a tinta) é o limite. Costumo usar o Corel e o Paint para fazê-las. Meço e uso plástico adesivo para fixá-las.

3º passo“Cut and Destroy”

Falando assim, até parece que apanhei um bocado até chegar ao nível pretendido. E apanhei, mas confesso que para tanto usei como cobaias títulos menores, com um efeito placebo na minha coleção. E para você, que é marinheiro de primeira viagem, sugiro que faça o mesmo antes de sair por aí estripando algo de sua profunda estima.

Portanto, pondere um bocado o que deve ou não ir para a navalha. Se for um título mensal que julgue ter um mix com 100% de aproveitamento (ainda não fomos apresentados), desista enquanto é tempo. No caso do ‘O Bravo e o Ousado’ em tela, retirei de Superman/Batman #39-45 e 50-51 as dezesseis edições de ‘The Brave and the Bold’ roteirizadas por Mark Waid e ilustradas por George Pérez, Jerry Ordway e Scott Kolins. Alguém duvida que não farei o mesmo com a Legião dos Três Mundos?

Em especial, algumas dessas “compilações caseiras” são os orgulhos do papai como, por exemplo, o meu primeiro compêndio do Justiceiro Max de Garth Ennis com as trinta edições iniciais (ou cinco arcos) e a coletânea “Jessica Jones” de Brian M. Bendis distribuída em três livros, sendo dois com a coleção completa de “Alias” e um com “The Pulse”.

O interessante é que o hobby tem uma utilidade prática imensa, resumindo meu acervo ao que de fato me importo. Assim, o “menos que é mais” acaba facilitando não só o manuseio de certas obras, como também economiza uma Terra Santa em espaço e, de quebra, te deixa vacinado contra certos pensamentos.

No final das contas, a terapia surte o efeito esperado e o lixo vira de fato lixo*.

* Antes que tenha pensamentos heréticos, saiba que o que está vendo ali é o Lanterna Verde descartável de Judd Winick. Auto-Nota: francamente, existe algo de sua autoria que não seja?

Faz Parte do Meu Comic Show





Há algum tempo participei de um vídeocast da Comic House, a única loja especializada em quadrinhos da Paraíba (em João Pessoa). E o tema do programa, à época, era sobre o dia dos namorados. Pra quem não conhece, fique sabendo que se trata de um dos melhores e mais bem humorados veículos virtuais sobre cultura pop. O programa acima é o meu favorito: a entrevista comAlan Moore”.

Os realizadores, Manassés Filho (o proprietário do hospício), Audaci Jr., Renato Félix, Daslei Ribeiro (diretor, câmera e oDedo de Deus”) e Samuel Góis, são gente como a gente, que enxerga nas entrelinhas do escapismo a excelência e também o que deve ser imortalizado nos anais do ridículo. A química entre eles parece inata e se não fosse à distância de 120 km que separa nossas cidades, certeza que seria parte dessa alcatéia de lunáticos.

Visitem. Assistam. Comentem.

Escrito por LUWIG
 
Monday, October 26, 2009

As Mulheres dos Outros

Do que as mulheres gostam? Mel Gibson talvez saiba, mas a esmagadora maioria dos outros proprietários de cromossomos “y”, por não terem tal resposta, sofre os dissabores e os ímpetos de fúria do sexo oposto. Naqueles dias, um “nada” que habitualmente já é um universo em constante expansão, transforma-se instantaneamente em um multiverso de possibilidades, graças à maldita “sangria*”.

Na 9ª arte, por anos a fio, a mulher, com raríssimas exceções, foi invariavelmente o mesmo personagem, uma acéfala démodé esculpida as margens das leis da física como objeto de fetiche da molecada aficionada pela justiça praticada com as próprias mãos. Repetido a exaustão, o arquétipo ganhou status de clichê e vem, por uma ironia do destino, perdendo a passos largos sua força para as potrancas de verdade, ferradas da cabeça, espirituosas e perigosamente cativantes.

* Que o velho bastardo perdoe o trocadilho e também aqueles bufões do Twitter.

Não estou defendendo a “celulite” como um catalisador de idéias, na verdade nem cheguei a cogitar tamanho despautério, afinal de contas, uma figura curvilínea sempre será um colírio para os olhos, o que quero dizer é que uma mesma Emma Frost pode conciliar entre suas particularidades tanto a volúpia quanto um intelecto mais avantajado.

Aproveitando a deixa, merece uma profunda digressão o último alicerce intacto da Era Morrison, o breve triângulo amoroso formado por Scott, Jean e a referida Rainha Branca. Aí vai uma verdade inconveniente, a loira fatal eclipsou por completo o efeito fênix de Jean Grey, tanto que não há hoje qualquer clamor por seu ressurgimento das cinzas. Mais que isso, a influência da aristocrata revolucionou o líder mutante, privando-o de fantasmas, inibições, e as restrições advindas da perfeição da esposa que inconscientemente repercutiam em campo, ou mesmo nos bastidores da ação.

Um amor juvenil, idealizado demais para ser real, deu lugar a variante do amor que pode funcionar entre adultos, moldado na aceitação* dos defeitos mútuos e no poder de se surpreender dia após dia. Com Jean, verdade seja dita, tudo passou a ser miseravelmente previsível, dadas as grandes expectativas que poderia se esperar de sua parte, com a cumplicidade de Emma, Scott pegou no tranco e fez a maior de todas as descobertas: conheceu a si próprio.

Enfim, Jean está para “Vada Sultenfuss”, assim como Emma está para “Mrs. Robinson”.

* Alimentada num contexto de insinuações de toda sorte e reiterados segredos de ambas as partes, é que se deu em ‘Dark X-Men: The Confession’ a tão aguardada conversa entre Scott & Emma. Impecável, contudo repleta deles.

A máxima de que “por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher” instila todo tipo de discussão na vida real, e nos quadrinhos não pode ser diferente. Inclusive, por diversas vezes meus ouvidos foram bombardeados pelas elucubrações de um velho amigo, doutorando em História pela UFCG, o Yuri Saladino, a respeito da analogia entre o dito em tela e o matrimônio de Clark Kent & Lois Lane.

A controvérsia nasce do fato de que a ilustre jornalista geralmente se torna um obste ao crescimento do kryptoniano, ancorando o personagem numa realidade insípida, mundana e dificilmente inovadora, tanto que pode se contar nos dedos as ocasiões em que o casal alcançou algum nível de interação benéfica aos enredos. Biologicamente falando, é uma relação tão fatalista quanto o eterno dilema do clã dos MacLeod, trocando em miúdos, ou ela morreria em decorrência de um* ou dois danos colaterais, ou se a vida fosse generosa, ficaria toda enrugada e sujeita aos desígnios da mortalidade.

* Isto é, se um dia admitirmos a coexistência científica (e pacífica) entre a fisiologia humana e a kryptoniana.

De um jeito ou de outro, entraria a Princesa Diana de Themyscira, na nossa ótica, a única apta a suportar calibres pesados e, claro, chegar a um denominador comum no que atine a questão fértil da coisa. Como? É mágica*, não temos que explicar isso, hã?

Tal eventualidade foi revisitada recentemente nas páginas finais da antológica ‘Justice Society of America #22’, acrescendo, quem sabe, o epílogo definitivo de Reino do Amanhã (Terra-22), um emocionante vislumbre do que seria a vida conjunta do Super-Homem & Mulher-Maravilha nos mil anos seguintes. Mesmo os simpatizantes da causa de Lois, devem ter sentido baforadas criogênicas® com o poder de tamanha conjectura. Algo a se pensar em futuras reedições da obra.

Pena que na Terra-1, o ato não deverá se consumar nem em mil anos...

* Nem sei se isso chega a ser uma hipótese, todavia como Diana foi esculpida do barro a partir da magia e a magia anula/embaralha os dons de Clark, sabe-se lá como, deve sair algo daí. No mesmo raciocínio, e dada à vulnerabilidade em exame, suponho que o mínimo contato com ela deve ser uma experiência extra-sensorial e tanto para ele.

”Não Cobiçarás a Mulher do Teu Próximo”

Dada a abrangência e complexidade do tema, seria impossível esgotá-lo nessas ou em quaisquer outras linhas. Qual seria então minha proposta? Simples, trazer à tona apenas cinco enfoques de cinco criadores diferentes e passar o bastão para cinco outros amantes latinos.

O critério poderia ser o mesmo utilizado nessa birosca, mas nada impede que os incautos migrem para formatos similares, como cinema, desenhos animados, literatura ou seriados. É o espírito público do “MEME” dando as caras novamente por aqui.

Os “intimados” são: (1) o Alan Alcofa Farias do Alcofa Millenium; (2) Doggma do Black Zombie; (3) Marlo do Catapop; (4) Renato Félix do Boulevard do Crepúsculo; e (5) o Sandro Cavallote do All-Star Velho.

Podemos começar?

As Mulheres de Greg Rucka

O trato com o sexo oposto é um traço deveras marcante no modus operandi de Rucka. Seja nos seus romances, seja nos quadrinhos, o perfeito timing com as idiossincrasias femininas conferem ao autor o dom de materializá-las não só tridimensionalmente, mas em caráter de exclusividade, o que pode parecer fácil e não o é, sendo os anseios, defeitos e trejeitos de uma muito diferente das outras.

Na arte seqüencial, suas maiores intérpretes são Sasha Bordeaux (Check-Mate), Kate Kane (Detective Comics), Carrie Stetko (Whiteout), Tara Chace (Queen & Country/ Jogos de Poder) e Renee Montoya (Gotham Central). Nos três últimos casos, a atuação delas se converteu em três premiações no Eisner Awards de 2000, 2002 e 2004, respectivamente como melhor minissérie (Whiteout: Ponto de Fusão), série nova (Queen & Country/ Jogos de Poder – Operação Terreno Partido) e pelo arcoMeia Vida’ em Gotham Central #6-10 (DC Especial #8).

Particularmente, simpatizei bastante com o tour de force desempenhado por Sasha em ritmo de via crúcis, durante o período pré e pós ‘Bruce Wayne: Assassino/Fugitivo’. No final, ela sobreviveu relativamente ilesa a desastrosa incursão ao coração do morcego e, de quebra, saiu de cena cheia de moral rumo ao Xeque-Mate.

As Mulheres de Brian K. Vaughan

Fato. Ninguém foi tão afundo no universo feminino quanto Vaughan em ‘Y: The Last Man’. O que poderia ter se tornado apenas um thriller pós-apocalíptico genérico, tornou-se um compêndio pop do que seria do mundo sem nossa tão difamada testosterona.

Tem mulher para todos os gostos, desde espiãs/assassinas profissionais, geneticistas lésbicas, lunáticas auto-intituladas amazonas, antropólogas e astronautas perdidas, ex-modelos e atuais lixeiras, irmãs e aeromoças traumatizadas, freiras desesperadas, governantes por tabela e oficiais do exército por exclusão, ninjas traiçoeiras e doses cavalares de muita, muita tensão pré-menstrual.

As Mulheres de Brian M. Bendis

Acredito que Jessica Jones é a voz dessa geração. Convenhamos, o que faz dela tão especial? Pesaria na relação custo/benefício aquele vocabulário tão diversificado quanto pútrido? Seria a insegurança crônica, adquirida durante os oito meses em que perdeu o livre arbítrio sob a possessão de Zebediah Killgrave (Homem-Púrpura), parte de seu charme? Ou, vá lá, porque seria um imã compassivo para perdedores devido ao desleixo com a aparência, a melancolia e os episódios de autodestruição?

Certamente a autenticidade é um ponto a favor, mas só quando não é associada à sinceridade intrínseca, se o for, aí já viu, ferrou. O que não se discute é que Jessica Campbell Jones Cage é de longe a personagem mais intrigante e paradoxal de toda a Marvel. Talvez não tenha se dado conta disso, mas é possível senti-la se mexendo, comendo, respirando, insultando, fumando ou fazendo amor através da celulose. Basta abrir o coração.

As Mulheres de Brian Wood

As fêmeas de Wood são do tipo que deixam uma marca indelével onde quer que estejam ou com quem estejam. Na maioria das vezes são coadjuvantes que roubam a cena ou funcionam como gatilhos de transição para os protagonistas. Detalhe, todas fogem ao controle criativo do autor, prova disso são os testemunhos do próprio após cada capítulo de ‘Local’ sobre a metamorfose ambulante chamada Megan McKenna. Um trabalho tocante que merece um “local” de destaque no meu (ou no seu) ranking pessoal.

Cabe aqui um adendo especial para a estudante de medicina de 'DMZ' (ou ZDM), Zee Hernandez e a escocesa selvagem de 'Northlanders' (Nórdicos), Enna. Duas sobreviventes de mãos cheias, que vivem em meio a hostis e que por uma confluência de circunstâncias passam a inspirar os machos alfas da publicação, nesses casos, respectivamente, Matty Roth e Sven.

As Mulheres de Garth Ennis

Se os brutos também amam, é de se esperar que um patife de hábitos tão perigosos quanto os de Garth Ennis também possa. E quem diria, estamos lidando com um romântico enrustido, com sensibilidade suficiente para fugir aos estereótipos que o consagraram e ousar no infrutífero ramo das almas gêmeas.

Ao contrário do que se poderia imaginar, seu empreendimento foi dos mais rentáveis e alcançou a façanha de conceber não apenas uma, mas duas primas donnas. Estou falando de Kit Ryan, a única pessoa no globo terrestre que fez o que entidade sobrenatural alguma fora capaz, obliterar a alma de John Constantine. Como? Dando-lhe o senhor de todos os foras. O resultado pôde ser conferido no arco Tainted Love/Amor Espúrio (Hellblazer #68-71), ou seja, o fundo do poço para o mago de Liverpool. E claro, Tulip O’Hare, a diva que fez Jesse Custer ir até o fim do mundo em Preacher.

Kathryn O’Brien também não é de se jogar fora, ainda mais se levarmos em conta o inesperado armistício de quinze segundos forçado pelo fruto de suas rapidinhas com o Frank (em Punisher Max). Acredite, se em três décadas de matança alguém titubeia assim, com uma contagem de mais de quatro dígitos de corpos nas costas, vai por mim, a coisa foi bastante séria.

A Minha Mulher

Seria a 6ª? Não meus caros, esta é a 1ª de todas, é a minha senhora, minha Kaline. O que temos, parafraseando (um pouco) o Sven de 'Northlanders', é algo mais forte do que o amor. Uma ligação devido às experiências e adversidades compartilhadas, forjada em tempos ruins e climas tensos. Duas pessoas encarando a vida e seus socos*, lado a lado. Não é um amor romântico, daqueles cantados pelos poetas, mas é o que temos. O que temos agora. O que mais posso dizer? Que no linguajar “Lost” ela seria minha “constante”? Ou que diante do “Fato Flash”, nossos laços seriam o que me faria regressar da Força de Aceleração?

É meus amigos, fazer o quê, os nerds também amam.

* Que segundo Rocky Balboa, não há quem bata mais forte que ela.

Escrito por LUWIG