Dia desses, num dos vários bate-papos que costumo ter durante a semana com o proprietário do Catapop, discutíamos o quanto vem sendo desanimador comprar boa parte das revistas mensais da Panini. Se antes da “revolução”, considerava-me lesado por adquirir títulos com reles 50% de aproveitamento, hoje com o aumento de alguns (148) e a diminuição (75) de páginas de outros, sinto que o incômodo enrubescer que vinha afligindo o meu nariz há algum tempo ganhou sentido. Parece bobagem, contudo fico aqui divagando, só houve duas ocasiões em que cogitei realmente fazer cortes severos na cesta básica da banca. Uma foi no período da hiperinflação, onde era impraticável um mortal manter qualquer coleção regularizada, e o outro se deu na virada do século, com o surto da Editora Abril com a linha Premium*. É justo dizer que neste momento estou lidando com ponderações de tal monta.
Não que seja leitor dos mais críticos em relação ao modus operandi dos homens da Mythos e seus ventríloquos italianos. Sei que bem ou mal deve haver uma cadeia de comando e imagino o quanto seja desgastante lidar com fregueses tão sedentos quanto nós, ainda mais quando levamos em consideração um mercado que dificilmente oferta segundas chances. Enfim, é dureza publicar quadrinhos e é tarefa das mais hercúleas apostar suas economias neles.
Provavelmente, parcela desta insatisfação à qual venho atravessando pode ser a sua também, que particularmente diz respeito ao meu próprio amadurecimento como leitor de quadrinhos. Bem, uma hora isso teria que ocorrer, entre agosto de 1986 e março de 2011. O fato é que de maneira alguma tem compensado ser conivente com esta seqüência ininterrupta de sandices derivadas de um péssimo feeling cominado com um timing desastroso. Explico.
* Foi uma jogada tão malfadada que conheço várias pessoas que cessaram em definitivo com o hábito de ler quadrinhos.
#1 - Universo DC
Após nove edições ainda é um título sem identidade alguma. Deve ter rendido alguns trocados por conta dos spin-offs de Noite Mais Densa e só, mas esperar algo além de um reduto onde ainda se investe em Superman/Batman? Que leva consigo algo tão excruciante quanto a Mulher-Maravilha de Gail Simone? E o que dizer da ininteligível presença de Supergirl no mix? Não que Kara venha atravessando um péssimo momento, nada disso, a vibe de Sterling Gates até que é decente, o problema é que são histórias que pertencem a Novo Krypton e deveriam estar sendo publicadas em ‘Superman’. Aliás, reside nessa incongruência aí a maior polêmica da revista, visto que de um lado são capítulos desprezados pela esmagadora maioria dos leitores e, por outro, são alvos de constantes apelos por parte dos seguidores de Kal-El.
Meu ponto é: não tenho visto com bons olhos nada que vem sendo publicado aqui, só que o problema é que gosto de Novo Krypton e tenho (ou pelo menos tinha) planos de encadernar a saga futuramente o que me obriga a comprá-la apenas por Supergirl. Ridículo, não é? Também acho.
Universo DC seria um belo lugar para vislumbrarmos: (a) túneis do tempo como a promissora Superman: The Last Family of Krypton; (b) minisséries ou séries sem chance de vida independente como Shazam: The Monster Society of Evil de Jeff Smith, o Sgt. Rock: The Lost Battalion de Billy Tucci, o The Question: Pipeline de Greg Rucka ou a stand-up comedy de Zatanna: The Mistress of Magic por Paul Dini; e (c) séries consagradas, mas que foram esquecidas como o Hitman de Garth Ennis, o H-E-R-O de Will Pfeifer, o prosseguimento da Mulher-Gato de Ed Brubaker e o desfecho do Xeque-Mate de Greg Rucka. Enfim, uma revista nos moldes de 'Vertigo' sem tanto apego com continuidade e cronologia.
O maior erro da Panini na sua vertente mainstream, especialmente com a DC Comics, é crer que seu público tenha um perfil tão heterogêneo ao ponto de existir entre os leitores uma risca demarcatória no chão definindo quem compra e como compra. Os “DCnautas” e os “Marvetes” no Brasil não são uma torcida organizada que vive às turras em dia de clássico, pelo contrário uma anda livremente onde a outra está sem qualquer atrito.
Existe sim uma aporrinhação ideológica de preferências, mas nada que o impeça de ler o que a outra está produzindo, obras autorais ou especiais publicados exclusivamente em livrarias, a meu ver, quem cria empecilhos é a própria editora quando pratica preços proibitivos e afeta a confiança do cliente nas ocasiões em que deliberadamente abandona a publicação de determinado livro (XIII? Liga de Morrion? Starman?) ou série (Xeque-Mate? Capitão Marvel?). Na prática, e até que se prove o contrário, o consumidor tupiniquim de quadrinhos não se adéqua a nenhum rótulo, mas sim a uma rara e salutar diversidade.
#2 - A Sombra de Batman
Tem um bom custo-benefício e alguns “confidenciais” até agradam como os da edição #1-2 (The Wrath) e o divertidíssimo da #4-5 (The Cat and The Bat), só não consigo processar o fato de ter entre suas páginas internas a premiada ‘Batwoman: Elegy’ de Greg Rucka & J. H. Williams III e não dedicar nenhuma arte de capa a revista, muito menos um alerta de vencedor do Eisner Awards. Meu ponto é: fiquei também decepcionado com o anúncio da publicação de Batman Annual #27 e Detective Comics Annual #11 antes de lançarem a excelente minissérie em três edições de Fabian Nicieza & Frazer Irving, Azrael: Death’s Dark Knight. E lembro bem que há algum tempo atrás levantei esse mesmo questionamento no hotsite e fui tranqüilizado que, sim, o reboot do anjo vingador estava nos planos da revista. Como deixou claro o próprio Levi, “as coisas mudaram de lá pra cá”. Lindo isso. Merecia até uma estampa de camiseta.
#3 - Superman
Reza a lenda que, pouco importa a fase atravessada pelo personagem, o Super-Homem não vende. Ponto. Não vende. Daí, antes de se entrincheirar frente às péssimas decisões, tem que se ter em mente os números. E como costumam dizer, infelizmente, eles não mentem. Só que é aquela coisa, Clark Kent é a primeira e última palavra em matéria de super-heróis, portanto, não dá para descontinuar a revista de um ícone mundial da cultura pop sem se criar todo um alvoroço nacional em cima disso. É algo impopular para se cogitar e propenso demais a uma reação em cadeia. Se for assim, o que se pode fazer? Trabalhar direito. Os títulos são lançados com um ano de diferença em relação aos norte-americanos. Tempo suficiente para avaliar as melhores alternativas de publicação e como vender isso, desde ao mais frustrado até o mais otimista.
Meu ponto é: não houve ocasião mais propensa a uma captura massiva de fãs do que os primórdios de Novo Krypton em Superman #84. Ali a saga teria início e como originalmente havia uma numeração própria, poderíamos tê-la seguido de forma que a revista passasse às usuais 148 páginas, dispondo de tudo aquilo que fosse kryptoniano. Era um chamariz e tanto por conter uma mega-saga e um lugar ideal para todas as revistas de aço, tais como Superman, Action Comics, Superboy, Supergirl, World’s Finest e Secret Origin.
Na boa? Eu teria tascado sem qualquer pudor um “#1” descarado naquela capa tripla maravilhosa de Alex Ross. Duvido muito que a situação estivesse hoje do jeito que está.
#4 – Liga da Justiça
Após a diminuição de páginas, a presente revista havia ficado bastante palatável com a horrenda Liga de James Robinson contrabalançando com a Sociedade e o Flash de Johns. Valia seus R$ 6,50. Entretanto, a SJA partiu rumo a novos horizontes e legou a Barry Allen a árdua tarefa de tocar a revista com um mínimo de dignidade. Meu ponto é: tudo bem, já havia me conformado. Pagaria para acompanhar os fatos flash de muito bom grado, afinal sou fã de longa data das correrias das famílias Garrick, Allen e West. O que não esperava é que a revista sofreria de uma súbita obesidade mórbida, acrescendo gordura inútil como as da Geração Perdida de Judd Winick e a leviana Ascensão do Arsenal do J. T. Krul.
Difícil, viu? Se colocassem pelo menos o First Wave de Brian Azzarello como lubrificante...
#5 - Vertigo
Li em algum lugar por aí um caboclo comentando que quando se trata de Vertigo, a “Panini nem parece a Panini”. Sabedoria popular à parte, o carro-chefe do selo adulto da DC Comics* vai muito bem, obrigado. São cinco séries que vêm tendo mais altos que baixos e, de certa forma, agradam gregos, troianos e lakotas*. É sem dúvida alguma o reduto mensal de maior concentração de acertos da editora, muito embora não a isente de alguns equívocos como, por exemplo, a opção por publicar apenas títulos mensais na revista. Meu ponto é: não creio que engessar o periódico seja algo sábio, visto que em médio prazo se perde um bocado no quesito renovação e, neste vácuo, a faculdade de se atrair novos leitores. Para não se criar maiores animosidades, deveriam alternar (e não abandonar) os arcos dos fixos com minisséries ou mesmo outras mensais, de forma que o ambiente sempre estivesse arejado e hospitaleiro.
Aí vão algumas que, na minha ótica, clamam por uma chance: (a) Unknow Soldier de Joshua Dysart; (b) Seaguy ou Joe: The Barbarian de Grant Morrison; (c) Scene of Crime de Ed Brubaker & Michael Lark; (d) The Other Side de Jason Aaron; (e) El Diablo e Gangland de Brian Azzarello & Outros; (f) Faker de Mike Carey & Jock; (g) iZombie de Chris Roberson & Michael Allred.
E se a Wildstorm foi pra vala e o espólio deve migrar para o selo Vertigo, por que não antecipar-se ao destino e publicar belezinhas como: (a) Desolation Jones de Warren Ellis & J. H. Williams III; (b) Desperadoes de Jeff Mariotte & John Cassaday; (c) Point Blank e seu elogiado sucessor, Sleeper, ambos de Ed Brubaker.
* Leio Scalped com sangue nos olhos. Ao lado de DMZ, é o melhor seriado nunca realizado. O apelo é gigante, se Sopranos e Boardwalk Empire fizeram (e fazem) sucesso, o que diria de um programa que é um misto quente disso aí com um “The Shield” cara-vermelha? Eu certamente gostaria de ver algo assim na tv.
#6 - Universo Marvel
Vamos ser razoáveis. Em termos criativos, lato sensu, a Marvel Comics vive um momento criativo ímpar, com infusões generosas de sangue novo. Rostos novos que nem os de Jason Aaron, Jonathan Hickman, Kieron Gillen e Nick Spencer* somam-se aos de macacos velhos da casa das idéias, como Brian M. Bendis, Ed Brubaker e Matt Fraction. Minha inveja se estreita ainda mais com o approach inventivo dado pelos editores a pequena milícia marvete, tidos como “arquitetos” daquele universo. Um viés informal que confere um sentimento de “boa vizinhança” muito útil** aos criadores. O tipo de camaradagem que sinto falta no Universo DC (vejam só a animação), interações “extra spin-offs” em que existam diálogos corriqueiros entre as facções criativas e um alinhamento claro de propostas. Nesse sentido, um ótimo exemplo da carência de organização aqui é o samba do super-crioulo doido*** desempenhado pelas equipes de heróis da Terra Zero.
Mas enfim, a conversa era sobre a revista Universo Marvel e queria dizer que, assim como o da distinta concorrência, as coisas não vêm funcionando exatamente como manda o figurino gringo. São seis histórias, três delas seladas por conta do vazamento de radiação gama desencadeado por Jeph Loeb e as demais ocupadas pelo Franken-Castle de Rick Remender, surpreendentemente bacana, o Quarteto Fantástico de Jonathan Hickman, tão bom quanto tudo que este autor produz, e o Demolidor de Andy Diggle, que quebra uma década de regularidade com possessões idiotas.
Meu ponto é: dane-se o rastro de destruição deste(s) Hulk(s) luso(s), o que é hediondo é o que os editores estão fazendo, ou seja, obrigando os não-fãs do Banner aturarem tamanho desfile carnavalesco. Ele teria direito a uma vaga no estacionamento, não três, se querem mais, que deixem suas afetações para encadernados. Sinto falta de Marvels Project de Ed Brubaker ou a Mulher-Aranha de Brian M. Bendis & Alex Maleev. Quem sabe o desfecho do Motoqueiro Fantasma surtado de Jason Aaron, talvez o Marvel Universe VS. Punisher de J. Maberry & Goran “fodão” Parlov, ou, vá lá, uma chance para os subestimados Agentes da Atlas de Jeff Parker?
* Como sempre, a Marvel é uma raposa astuta e costuma rondar o quintal da DC em busca de novos talentos. Foi assim com Dale Eaglesham, Jason Aaron, Simone Bianchi e agora com Nick Spencer, autor do surpreendente ‘T.H.U.N.D.E.R Agents’ – que, pasme, nem parece fruto da DC.
*** Excetuando a LJA, SJA e Tropa dos Lanternas Verdes produzidas, a partir da segunda metade da década de 2000, por Brad Meltzer, Geoff Johns e Peter Tomasi, faz tempo que qualquer outro derivado emplaca algum sucesso de críticas e vendas.
#7 - X-Men Extra
Enquanto escrevia este texto, tomei conhecimento de que o segundo volume do Astonishing X-Men de Warren Ellis & Phil Jimenez passa a sair a partir de X-Men Extra #110. Não sou um leitor mutante contumaz, mas essa série em específico vinha acompanhando desde a fase anterior, quer dizer, só comprava a revista por conta deles e ainda assim pagava caro (R$ 7,50). Agora terei que pagar o dobro para seguir lendo Astonishing? Perdão, Ellis, mas fica pra próxima.Meu ponto é: será que nesse caso em específico, por não se ater ao que está acontecendo em Utopia, e por estar em andamento a republicação do período em que Whedon esteve no volante, um mimo ao leitor esporádico, sob o aspecto de compilação, estaria completamente fora de cogitação? Quer dizer, tudo quanto é x-baboseira pode, e algo assim, não?
#7.1 - Panini Books
Olha, confesso que tenho bastante medo quando vejo algum anúncio deste selo e boa parte destes temores ou estão lá em cima inclusos no tópico da revista Universo DC ou foram, aqui mesmo, outrora chamados à baila.Meu ponto é: em algum lugar naquele escritório na Avenida Diógenes Ribeiro de Lima em São Paulo, capital, devem existir ótimos motivos (ou critérios?) para lançar Criminal, DMZ, Freqüência Global, Kick-Ass, Powers e Transmetropolitan em acabamento de luxo, custando mais que o dobro que seus encadernados de bancas.
Clássicos absolutos como Camelot 3000, Preacher e Sandman compensam o investimento, aqueles outros não. E quando estou dizendo isto, digo sem qualquer aferição qualitativa visto que Criminal e DMZ, por exemplo, estão entre minhas leituras favoritas atualmente. Fato é que, eles querem porque querem acreditar que seu público de livrarias não é o mesmo de bancas e de lojas especializadas.
Enfim, sigo com meu otimismo doentio custeando um hábito com preços proibitivos e tendo muito pouco em troca. Infelizmente, hoje em dia, minha relação com a Panini mais parece a que um traficante nutre com seu cliente (viciado) do que a de uma editora e um leitor de bons quadrinhos.
Escrito por LUWIG


No que diz respeito à direção de arte do filme, a cargo da coreana 


Notícia triste. Acabo de saber do 














