Quinta-feira, Março 10, 2011

Jogo dos Sete Erros

Dia desses, num dos vários bate-papos que costumo ter durante a semana com o proprietário do Catapop, discutíamos o quanto vem sendo desanimador comprar boa parte das revistas mensais da Panini. Se antes da “revolução”, considerava-me lesado por adquirir títulos com reles 50% de aproveitamento, hoje com o aumento de alguns (148) e a diminuição (75) de páginas de outros, sinto que o incômodo enrubescer que vinha afligindo o meu nariz há algum tempo ganhou sentido.

Parece bobagem, contudo fico aqui divagando, só houve duas ocasiões em que cogitei realmente fazer cortes severos na cesta básica da banca. Uma foi no período da hiperinflação, onde era impraticável um mortal manter qualquer coleção regularizada, e o outro se deu na virada do século, com o surto da Editora Abril com a linha Premium*. É justo dizer que neste momento estou lidando com ponderações de tal monta.

Não que seja leitor dos mais críticos em relação ao modus operandi dos homens da Mythos e seus ventríloquos italianos. Sei que bem ou mal deve haver uma cadeia de comando e imagino o quanto seja desgastante lidar com fregueses tão sedentos quanto nós, ainda mais quando levamos em consideração um mercado que dificilmente oferta segundas chances. Enfim, é dureza publicar quadrinhos e é tarefa das mais hercúleas apostar suas economias neles.

Provavelmente, parcela desta insatisfação à qual venho atravessando pode ser a sua também, que particularmente diz respeito ao meu próprio amadurecimento como leitor de quadrinhos. Bem, uma hora isso teria que ocorrer, entre agosto de 1986 e março de 2011. O fato é que de maneira alguma tem compensado ser conivente com esta seqüência ininterrupta de sandices derivadas de um péssimo feeling cominado com um timing desastroso. Explico.

* Foi uma jogada tão malfadada que conheço várias pessoas que cessaram em definitivo com o hábito de ler quadrinhos.

#1 - Universo DC

Após nove edições ainda é um título sem identidade alguma. Deve ter rendido alguns trocados por conta dos spin-offs de Noite Mais Densa e só, mas esperar algo além de um reduto onde ainda se investe em Superman/Batman? Que leva consigo algo tão excruciante quanto a Mulher-Maravilha de Gail Simone? E o que dizer da ininteligível presença de Supergirl no mix?

Não que Kara venha atravessando um péssimo momento, nada disso, a vibe de Sterling Gates até que é decente, o problema é que são histórias que pertencem a Novo Krypton e deveriam estar sendo publicadas em ‘Superman’. Aliás, reside nessa incongruência aí a maior polêmica da revista, visto que de um lado são capítulos desprezados pela esmagadora maioria dos leitores e, por outro, são alvos de constantes apelos por parte dos seguidores de Kal-El.

Meu ponto é: não tenho visto com bons olhos nada que vem sendo publicado aqui, só que o problema é que gosto de Novo Krypton e tenho (ou pelo menos tinha) planos de encadernar a saga futuramente o que me obriga a comprá-la apenas por Supergirl. Ridículo, não é? Também acho.

Universo DC seria um belo lugar para vislumbrarmos: (a) túneis do tempo como a promissora Superman: The Last Family of Krypton; (b) minisséries ou séries sem chance de vida independente como Shazam: The Monster Society of Evil de Jeff Smith, o Sgt. Rock: The Lost Battalion de Billy Tucci, o The Question: Pipeline de Greg Rucka ou a stand-up comedy de Zatanna: The Mistress of Magic por Paul Dini; e (c) séries consagradas, mas que foram esquecidas como o Hitman de Garth Ennis, o H-E-R-O de Will Pfeifer, o prosseguimento da Mulher-Gato de Ed Brubaker e o desfecho do Xeque-Mate de Greg Rucka. Enfim, uma revista nos moldes de 'Vertigo' sem tanto apego com continuidade e cronologia.

O maior erro da Panini na sua vertente mainstream, especialmente com a DC Comics, é crer que seu público tenha um perfil tão heterogêneo ao ponto de existir entre os leitores uma risca demarcatória no chão definindo quem compra e como compra. Os “DCnautas” e os “Marvetes” no Brasil não são uma torcida organizada que vive às turras em dia de clássico, pelo contrário uma anda livremente onde a outra está sem qualquer atrito.

Existe sim uma aporrinhação ideológica de preferências, mas nada que o impeça de ler o que a outra está produzindo, obras autorais ou especiais publicados exclusivamente em livrarias, a meu ver, quem cria empecilhos é a própria editora quando pratica preços proibitivos e afeta a confiança do cliente nas ocasiões em que deliberadamente abandona a publicação de determinado livro (XIII? Liga de Morrion? Starman?) ou série (Xeque-Mate? Capitão Marvel?). Na prática, e até que se prove o contrário, o consumidor tupiniquim de quadrinhos não se adéqua a nenhum rótulo, mas sim a uma rara e salutar diversidade.

#2 - A Sombra de Batman

Tem um bom custo-benefício e alguns “confidenciais” até agradam como os da edição #1-2 (The Wrath) e o divertidíssimo da #4-5 (The Cat and The Bat), só não consigo processar o fato de ter entre suas páginas internas a premiada ‘Batwoman: Elegy’ de Greg Rucka & J. H. Williams III e não dedicar nenhuma arte de capa a revista, muito menos um alerta de vencedor do Eisner Awards.

Meu ponto é: fiquei também decepcionado com o anúncio da publicação de Batman Annual #27 e Detective Comics Annual #11 antes de lançarem a excelente minissérie em três edições de Fabian Nicieza & Frazer Irving, Azrael: Death’s Dark Knight. E lembro bem que há algum tempo atrás levantei esse mesmo questionamento no hotsite e fui tranqüilizado que, sim, o reboot do anjo vingador estava nos planos da revista. Como deixou claro o próprio Levi, “as coisas mudaram de lá pra cá”. Lindo isso. Merecia até uma estampa de camiseta.

#3 - Superman

Reza a lenda que, pouco importa a fase atravessada pelo personagem, o Super-Homem não vende. Ponto. Não vende. Daí, antes de se entrincheirar frente às péssimas decisões, tem que se ter em mente os números. E como costumam dizer, infelizmente, eles não mentem. Só que é aquela coisa, Clark Kent é a primeira e última palavra em matéria de super-heróis, portanto, não dá para descontinuar a revista de um ícone mundial da cultura pop sem se criar todo um alvoroço nacional em cima disso. É algo impopular para se cogitar e propenso demais a uma reação em cadeia.

Se for assim, o que se pode fazer? Trabalhar direito. Os títulos são lançados com um ano de diferença em relação aos norte-americanos. Tempo suficiente para avaliar as melhores alternativas de publicação e como vender isso, desde ao mais frustrado até o mais otimista.

Meu ponto é: não houve ocasião mais propensa a uma captura massiva de fãs do que os primórdios de Novo Krypton em Superman #84. Ali a saga teria início e como originalmente havia uma numeração própria, poderíamos tê-la seguido de forma que a revista passasse às usuais 148 páginas, dispondo de tudo aquilo que fosse kryptoniano. Era um chamariz e tanto por conter uma mega-saga e um lugar ideal para todas as revistas de aço, tais como Superman, Action Comics, Superboy, Supergirl, World’s Finest e Secret Origin.

Na boa? Eu teria tascado sem qualquer pudor um “#1” descarado naquela capa tripla maravilhosa de Alex Ross. Duvido muito que a situação estivesse hoje do jeito que está.

#4 – Liga da Justiça

Após a diminuição de páginas, a presente revista havia ficado bastante palatável com a horrenda Liga de James Robinson contrabalançando com a Sociedade e o Flash de Johns. Valia seus R$ 6,50. Entretanto, a SJA partiu rumo a novos horizontes e legou a Barry Allen a árdua tarefa de tocar a revista com um mínimo de dignidade.

Meu ponto é: tudo bem, já havia me conformado. Pagaria para acompanhar os fatos flash de muito bom grado, afinal sou fã de longa data das correrias das famílias Garrick, Allen e West. O que não esperava é que a revista sofreria de uma súbita obesidade mórbida, acrescendo gordura inútil como as da Geração Perdida de Judd Winick e a leviana Ascensão do Arsenal do J. T. Krul.

Difícil, viu? Se colocassem pelo menos o First Wave de Brian Azzarello como lubrificante...

#5 - Vertigo

Li em algum lugar por aí um caboclo comentando que quando se trata de Vertigo, a “Panini nem parece a Panini”. Sabedoria popular à parte, o carro-chefe do selo adulto da DC Comics* vai muito bem, obrigado. São cinco séries que vêm tendo mais altos que baixos e, de certa forma, agradam gregos, troianos e lakotas*. É sem dúvida alguma o reduto mensal de maior concentração de acertos da editora, muito embora não a isente de alguns equívocos como, por exemplo, a opção por publicar apenas títulos mensais na revista.

Meu ponto é: não creio que engessar o periódico seja algo sábio, visto que em médio prazo se perde um bocado no quesito renovação e, neste vácuo, a faculdade de se atrair novos leitores. Para não se criar maiores animosidades, deveriam alternar (e não abandonar) os arcos dos fixos com minisséries ou mesmo outras mensais, de forma que o ambiente sempre estivesse arejado e hospitaleiro.

Aí vão algumas que, na minha ótica, clamam por uma chance: (a) Unknow Soldier de Joshua Dysart; (b) Seaguy ou Joe: The Barbarian de Grant Morrison; (c) Scene of Crime de Ed Brubaker & Michael Lark; (d) The Other Side de Jason Aaron; (e)  El Diablo e Gangland de Brian Azzarello & Outros; (f) Faker de Mike Carey & Jock; (g) iZombie de Chris Roberson & Michael Allred.

E se a Wildstorm foi pra vala e o espólio deve migrar para o selo Vertigo, por que não antecipar-se ao destino e publicar belezinhas como: (a) Desolation Jones de Warren Ellis & J. H. Williams III; (b) Desperadoes de Jeff Mariotte & John Cassaday; (c) Point Blank e seu elogiado sucessor, Sleeper, ambos de Ed Brubaker.

* Leio Scalped com sangue nos olhos. Ao lado de DMZ, é o melhor seriado nunca realizado. O apelo é gigante, se Sopranos e Boardwalk Empire fizeram (e fazem) sucesso, o que diria de um programa que é um misto quente disso aí com um “The Shield” cara-vermelha? Eu certamente gostaria de ver algo assim na tv.

#6 - Universo Marvel

Vamos ser razoáveis. Em termos criativos, lato sensu, a Marvel Comics vive um momento criativo ímpar, com infusões generosas de sangue novo. Rostos novos que nem os de Jason Aaron, Jonathan Hickman, Kieron Gillen e Nick Spencer* somam-se aos de macacos velhos da casa das idéias, como Brian M. Bendis, Ed Brubaker e Matt Fraction. Minha inveja se estreita ainda mais com o approach inventivo dado pelos editores a pequena milícia marvete, tidos como “arquitetos” daquele universo.

Um viés informal que confere um sentimento de “boa vizinhança” muito útil** aos criadores. O tipo de camaradagem que sinto falta no Universo DC (vejam só a animação), interações “extra spin-offs” em que existam diálogos corriqueiros entre as facções criativas e um alinhamento claro de propostas. Nesse sentido, um ótimo exemplo da carência de organização aqui é o samba do super-crioulo doido*** desempenhado pelas equipes de heróis da Terra Zero.

Mas enfim, a conversa era sobre a revista Universo Marvel e queria dizer que, assim como o da distinta concorrência, as coisas não vêm funcionando exatamente como manda o figurino gringo. São seis histórias, três delas seladas por conta do vazamento de radiação gama desencadeado por Jeph Loeb e as demais ocupadas pelo Franken-Castle de Rick Remender, surpreendentemente bacana, o Quarteto Fantástico de Jonathan Hickman, tão bom quanto tudo que este autor produz, e o Demolidor de Andy Diggle, que quebra uma década de regularidade com possessões idiotas.

Meu ponto é: dane-se o rastro de destruição deste(s) Hulk(s) luso(s), o que é hediondo é o que os editores estão fazendo, ou seja, obrigando os não-fãs do Banner aturarem tamanho desfile carnavalesco. Ele teria direito a uma vaga no estacionamento, não três, se querem mais, que deixem suas afetações para encadernados. Sinto falta de Marvels Project de Ed Brubaker ou a Mulher-Aranha de Brian M. Bendis & Alex Maleev. Quem sabe o desfecho do Motoqueiro Fantasma surtado de Jason Aaron, talvez o Marvel Universe VS. Punisher de J. Maberry & Goran fodão Parlov, ou, vá lá, uma chance para os subestimados Agentes da Atlas de Jeff Parker?

* Como sempre, a Marvel é uma raposa astuta e costuma rondar o quintal da DC em busca de novos talentos. Foi assim com Dale Eaglesham, Jason Aaron, Simone Bianchi e agora com Nick Spencer, autor do surpreendente ‘T.H.U.N.D.E.R Agents’ – que, pasme, nem parece fruto da DC.


*** Excetuando a LJA, SJA e Tropa dos Lanternas Verdes produzidas, a partir da segunda metade da década de 2000, por Brad Meltzer, Geoff Johns e Peter Tomasi, faz tempo que qualquer outro derivado emplaca algum sucesso de críticas e vendas.

#7 - X-Men Extra

Enquanto escrevia este texto, tomei conhecimento de que o segundo volume do Astonishing X-Men de Warren Ellis & Phil Jimenez passa a sair a partir de X-Men Extra #110. Não sou um leitor mutante contumaz, mas essa série em específico vinha acompanhando desde a fase anterior, quer dizer, só comprava a revista por conta deles e ainda assim pagava caro (R$ 7,50). Agora terei que pagar o dobro para seguir lendo Astonishing? Perdão, Ellis, mas fica pra próxima.

Meu ponto é: será que nesse caso em específico, por não se ater ao que está acontecendo em Utopia, e por estar em andamento a republicação do período em que Whedon esteve no volante, um mimo ao leitor esporádico, sob o aspecto de compilação, estaria completamente fora de cogitação? Quer dizer, tudo quanto é x-baboseira pode, e algo assim, não?

#7.1 - Panini Books

Olha, confesso que tenho bastante medo quando vejo algum anúncio deste selo e boa parte destes temores ou estão lá em cima inclusos no tópico da revista Universo DC ou foram, aqui mesmo, outrora chamados à baila.

Meu ponto é: em algum lugar naquele escritório na Avenida Diógenes Ribeiro de Lima em São Paulo, capital, devem existir ótimos motivos (ou critérios?) para lançar Criminal, DMZ, Freqüência Global, Kick-Ass, Powers e Transmetropolitan em acabamento de luxo, custando mais que o dobro que seus encadernados de bancas.

Clássicos absolutos como Camelot 3000, Preacher e Sandman compensam o investimento, aqueles outros não. E quando estou dizendo isto, digo sem qualquer aferição qualitativa visto que Criminal e DMZ, por exemplo, estão entre minhas leituras favoritas atualmente. Fato é que, eles querem porque querem acreditar que seu público de livrarias não é o mesmo de bancas e de lojas especializadas.

Enfim, sigo com meu otimismo doentio custeando um hábito com preços proibitivos e tendo muito pouco em troca. Infelizmente, hoje em dia, minha relação com a Panini mais parece a que um traficante nutre com seu cliente (viciado) do que a de uma editora e um leitor de bons quadrinhos.

Escrito por LUWIG

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011

Energia Pura

Creio que ninguém precisa ser categórico quanto ao que o ‘All-Star Superman’ de Grant Morrison & Frank Quitely significa para o maior ícone super-heróico de todos os tempos: é indubitavelmente a melhor e mais ousada história do homem de aço desde que Jerry & Joe, de comum acordo, deram vazão àquelas lâmpadas que circundavam suas cabeças em 1938. Sem o aval agridoce do que chamamos de “continuidade” e a compleição por prazos que a DC Comics lamentavelmente habituou-se a interferir sobre o trabalho de seus artistas, temos aqui uma experiência genuína sobre tudo aquilo que Clark Kent foi, é ou seria daqui a mil anos.

Se adaptado corretamente em live-action, provavelmente teria cacife para se tornar um marco tão representativo para o personagem quanto o que O Cavaleiro das Trevas de Chris Nolan foi para Batman em 2008. E é exatamente este sentimento, de dever cumprido, quase tão tocante quanto à última vez que vi o Andy, que persiste após o primeiro contato com os créditos finais da animação homônima dirigida por Sam Liu, produzida pelo ás do desenho em movimento, Bruce Timm e com roteiro do esculachado, Dwayne McDuffie.

E méritos para este último que teve o trabalho ingrato de converter uma minissérie irretocável em um script redondinho, editando o disposto nos quadrinhos das edições #1-3, 5 e 9-12. Basicamente, o que seria de mais relevante para o mote principal da trama, ou seja, os últimos passos que Kal-El trilhou após o diagnóstico do Dr. Leo Quintum de que estaria sofrendo de uma severa deterioração celular devido à superexposição solar do princípio da saga.

No que diz respeito à direção de arte do filme, a cargo da coreana Moi Animation Studios, igualmente responsável pelos recentes (e excelentes) DC Showcase (Espectro, Jonah Hex, Arqueiro Verde e Superman/Shazam), Liga da Justiça: Crise em Duas Terras e Justiça Jovem, fica mantida a regularidade de praxe e mimetiza com algum sucesso a assinatura do Mestre Quitely. E não são poucos os trechos em que a transposição de quadros tem traduções ipsis litterisum deleite para os mais familiarizados com a série.

Aliás, tanta qualidade e aparentemente visão alguma por parte dos executivos da Warner que vêm despejando produções deste porte diretamente no mercado de Home Video. Vale dizer, um verdadeiro pecado, All-Star Superman não faria feio nos cinemas. Na verdade, no meu mundinho perfeito e guardada as devidas proporções, julgo que superaria facilmente o montante gasto pelo emo de aço de Singer. Mas, vá lá, me parece que não há mais espaço nas telonas para animações convencionais em 2D desde o traumático* Titan A.E.

* Ou é duro demais para este que vos fala escreve admitir que o Clark não faça mais o tipo admirado pelos Escoteiros-Mirins. Hoje, definitivamente, quem dita regras de etiqueta¹ são gente que faz como o Gru ou o Megamind. No final das contas, o Joe Kelly parece que estava certo. ¹ Acredite, até no Action Comics de Paul Cornell & Pete Woods as andanças do Lex soam melhor que as demais revistas do kryptoniano.

O que poderia ser um entrave e tanto para o corajoso clímax que, diga-se de passagem, reprisa o apoteótico desfecho da versão original, revela-se contundente dentro do que Grant Morrison se propôs, mesmo que para tanto tenha redimido Luthor ao final. Falo da discrepância entre o que se estabelece na edição #10 e o epílogo do filme, trocando em miúdos, no quadrinho o próprio Super-Homem decifrou seu genoma confiando a Quintum a seqüência inteira de oito bilhões de letras num livro, junto com instruções sobre como combinar fitas humanas e kryptonianas*; e no vídeo (abaixo), é Lex quem o faz, fruto daquela epifania e, de certa forma, um desdobramento deste pensamento.

* Percebe a diferença entre o “S” de cada frasco? O da mão direita continha o material genético de Clark e enquanto o da esquerda possuía o de Lois. Fiz a mesma pergunta retórica à época que li essa edição #10: se ele já havia encontrado a solução para o dilema do “nunca teríamos mais do que isto”, por que diabo não deu um trato na mulher antes do fim iminente? 



No mais, não fiquei tão incomodado com isto quanto daquela vez, tal feito inclusive me remeteu a sensatez diante da troca da lula gigante alienígena pela bomba no Watchmen de Snyder. É verdade, são casos distintos, mas ambos fizeram todo sentido para as narrativas. Meu receio mesmo era que Clark fosse vítima de algum subterfúgio criativo e não alcançasse seu destino no centro do sistema solar, mas felizmente não aconteceu. E aqui cabe um parêntese, esta é a segunda vez que McDuffie tem êxito em adaptar uma obra de Morrison, se em All-Star Superman o que esteve em pauta era a fidelidade sobre o texto do escocês, em Crise em Duas Terras o que sobrou foi vivacidade ao justapor conceitos de ‘Terra 2’ e ‘Crise Final’, chegando a um denominador comum irrepreensível (vide o vídeo acima).

Se fosse para acrescentar algo, certamente chamaria à baila: (1) a solução do Super-Homem para o câncer; (2) a tocante intervenção perante uma garota suicida; (3) e a insólita passagem da edição #12 em que o mesmo, desacordado, tem um encontro extra-sensorial com Jor-El. Essa última foi Grant Morrison em estado lisérgico bruto.

Enfim, nada de novo saiu destas linhas. Minha voz é apenas mais uma que se soma ao coro de fãs que há muito apregoa sobre a vanguarda da DC Comics em matéria de animação. E tenho dito, num universo em que Dan Didio ainda respira...


[ATUALIZADO]

Notícia triste. Acabo de saber do falecimento de Dwayne McDuffie. A morte repentina não o tornará um gênio da 9ª arte, tão pouco o eximirá da notória carência de originalidade naquele meio, mas uma coisa é indiscutível: quando seus roteiros ganhavam movimento, não havia fronteiras. Poderia vir aqui e simplesmente citar vários episódios maravilhosos em que seu nome é creditado na saudosa série animada da Liga da Justiça (e Sem Limites) e sequer conseguiria qualificar a reputação que este homem construiu na telinha ao longo dos anos. Meus queridos 'Hereafter' e 'Epilogue' falam por si. Muitas crianças adultas ficaram e ficarão órfãs hoje.

Escrito por LUWIG

Terça-feira, Fevereiro 08, 2011

Os Miseráveis

Um dos maiores pecados que a cultura ficcional de nosso tempo, ou melhor, a que costumo ter acesso, é a reiterada confusão entre referência e reverência. O jargão do “nada se cria/tudo se copia” é definitivamente um trocadilho que saiu pela culatra e hoje é levado tão a sério quanto possível, pode inclusive ser entendido como uma política de metas ecologicamente correta em Hollywood, a maior indústria de reciclagem do mundo.

Embora deteste admitir, na última década, a partir da aproximação radical que a 9ª arte teve da , principalmente na parcela mainstream (super-heróica) daquele mercado, os velhos clichês foram amenizados de tal forma que hoje a escassez de originalidade ganha um “revigorantestatus de releituras. Isso fica cada vez mais inconteste nas premiações anuais do seguimento, aliás, ocasiões em que, ao contrário do que muitos possam imaginar, os jurados não seguem as tendências* ditadas pelas listas da distribuidora norte-americana Diamond Comics, e habitualmente são recompensados os trabalhos que de fato se diferenciam por aquelas bandas.

Claro que vez ou outra existem rompantes, como por exemplo, a estapafúrdia indicação de James Robinson ao Eisner Awards de melhor roteirista pela tenebrosa ‘JLA: Cry for Justice’. Felizmente não levou, em favor de Ed Brubaker que, enquanto fizer quadrinhos decentes como ‘Criminal’ e ‘Incognito’, deve seguir abocanhando troféus nesta categoria que, aliás, já são três em três edições (2007, 2008 e 2010). O que, não estranhe, deve se repetir enquanto DC e Marvel viverem às turras com suas crises, guerras, invasões, mortes, possessões, realidades e ressurreições. O autor que se destaca é aquele que das duas, uma: ou (1) faz uso de alguma dessas temáticas surradas a partir de storytellings inovadores; ou (2) é tão original quanto possível, partindo de um nada criativo que em verdade representa, metaforicamente, a separação do joio do trigo.

* Parece ingenuidade de minha parte, mas a justiça dos números geralmente não é a mesma que se vê no Eisner ou no Harvey Awards.

Jeff Lemire, nova aposta da DC/Vertigo, é um cartunista canadense egresso do cenário indie daquele país, criador da elogiada Essex County (Top Shelf, 2009), que se sobressai diante de premissas como as primeiras (supracitadas). No que toca a estética de suas páginas internas, tem uma afeição incomum a experimentações diagramáticas e de perspectivas, distinção essa que lhe confere um domínio narrativo invejável, muito embora não tenha um traço palatável à primeira vista. Lembra o que seria um “Paul Pope” em estágio embrionário.

Sweet Tooth, série mensal que lhe deu notoriedade, lida com conjunturas pós-apocalípticas na esteira de hits como Filhos da Esperança (Children of Men, 2006) ou A Estrada (The Road, 2009), ou, quiçá, aspirações literárias como as de H.G. Wells em A Ilha do Dr. Moreau. Se vacilar, vale um parêntese no inimitável (e já saudoso) Y: The Last Man de Brian K. Vaughan & Pia Guerra. Enfim, uma colcha de retalhos muito familiar que a princípio não convence ninguém, mas ganha substância ao se insistir na virada de páginas, especialmente quando chegamos ao segundo livro, ‘In Captivity(Em Cativeiro, edições #6-11).

Mas antes, em ‘Out of the Woods(Fora dos Bosques, #1-5), conhecemos um pouco da história de Gus, uma criança de nove anos de idade que viveu até aqui de forma reclusa, numa cabana no interior da Floresta Nacional de Nebraska, sem nunca ter visto outro ser humano que não o próprio pai, Richard Fox, que por trás da fachada de pai amoroso, protetor e temente a Deus, se esconde um misterioso passado que deve coincidir com o princípio da praga que devastou aquele mundo.

Tamanho isolamento se justifica, haja vista que Gus é um híbrido de homo sapiens com cervídeos, uma provável conseqüência da doença que se alastrou há oito anos e dizimou parte da população global, estabelecendo uma anomalia nos fetos que fossem concebidos dali em diante, ou seja, mestiços provenientes da fusão entre homem e a fauna terrestre.

Alvos de milícias, essas crianças têm peso de ouro, por serem imunes são vistas como a chave para a sonhada* cura da H5-69.

* Falando em sonhos, em um deles Gus se depara com seu eu mais velho. Tudo indica que os anos que virão não devem ser generosos para o garoto cervo. Que Déjà vu, hã?

Quando o Sr. Fox falece, vítima da moléstia em tela, o garoto se vê tentado a deixar os limites da floresta e é aí que seus problemas começam. O primeiro deles chama-se Tommy Jepperd, um ex-jogador de hóquei e sobrevivente nato, que promete conduzi-lo a “Reserva”, um mítico abrigo de “crianças-animais”. Detalhe, tal personagem foi inspirado no Frank Castle de ‘Punisher, The End’ de Garth Ennis & Richard Corben. Muito justo, mesmo sem seu conhecimento prévio, a referência vai ficando evidente a cada avanço da leitura.

Sobre esta última, uma dica: sugiro que leiam as coletâneas ininterruptamente*, mesmo que para tanto tenham que aguardar o término de cada ciclo (livro), fazendo isso, você garante no mínimo uma imersão um pouquinho mais miserável no mundo de Gus. E se não for uma experiência agradável, pense comigo, é porque foi bom.

* Livro 1: Out of the Woods (#1-5); Livro 2: In Captivity (#6-11); Livro 3: Animal Armies (#12-17). Obs. A série foi imaginada para durar 40 edições.

The Nobody (O Ninguém)

É isso, Lemire ganhou minha atenção e ganhou também a da DC Comics. Com o ótimo desempenho de Sweet Tooth, sobremaneira nos encadernados, ganhou sinal verde para produzir ‘The Nobody’, destaque na recente leva de graphic novels do selo Vertigo, conquistou também o posto de roteirista na nova revista de Conner Kent, o ‘Superboy’ e vem respondendo pelo relançamento do pequenino Ray Palmer, ‘The Atom: Nucleus’.

Ainda não posso avaliar seu desempenho à frente dos dois últimos, mas esse The Nobody é praticamente a materialização da zona de conforto do autor, vista pela primeira vez no já citado Essex County, que seria a primazia nas crônicas familiares em cidades de pouca densidade populacional. Some-se a fórmula consagrada (mais) alguns miligramas de H. G. Wells, e temos um conto moderno sobre o Homem Invisível. Brilhante e translúcido como deveria ser.

Novas Regressões em Pisa-Brite

Pensou mesmo que a decimação de minha gibiteca cessaria por ali? Jamais, enquanto houver revistas com mix chulos por aí, sempre será um trabalho em progresso. Vejamos o que andei aprontando:

Justiceiro Max, Livro 2Punisher Max #31-60.

E tenho dito, longe do cotidiano marvete, Punisher Max de Garth Ennis é um reduto lúgubre e irrepreensível tanto para ótimos contos policiais quanto para temas mais complexos como escravidão sexual, fraudes corporativas, guerra fria, terrorismo e, claro, o Vietnã, todas com estruturas bastante concisas e uma notável (des)construção de coadjuvantes, dentre os quais restam eternizados os ex-agentes da CIA, Kathryn O'Brien e William Rawlins, o General Nikolai Homem de Pedra Alexandrovich Zakharov, e o mercenário (e força da natureza) Barracuda.

Wolverine por Jason Aaron, Livro 1Wolverine #56, 62-65, 73-74; Wolverine - Manifest Destiny #1-4; & Wolverine – Weapon X #1-5.

De todo o desperdício de celulose que vem sendo impresso entre numerosas séries e derivados de James Howlett, é justo dizer que as que carregam consigo a assinatura de Jason Aaron (Scalped) são as que valem algumas árvores. O conto de Wolverine #56, ‘O Homem no Poço’, é seguramente uma das melhores histórias já produzidas para o baixinho onipresente.

Wolverine: O Velho LoganWolverine #66-72; & Giant-Size Old Man Logan.

Era só questão de tempo até alguma alma sebosa bolar um future pós-apocalíptico com um Logan amargurado. Felizmente não foi nenhum Kaare Andrews a fazê-lo, mas sim uma dupla que despensa apresentações, Mark Millar & Steve McNiven. O enredo não mudará o curso de rios, tão pouco acrescentará algo a 9ª arte ou mesmo a sua vida, o lance aqui é fechar os olhos e imaginar-se cruzando uma terrinha do Tio Sam, dividida e possuída por tudo quanto é vilão, em um Buggy Aranha tunado, com um Clint Barton cego ao volante e um Wolverine pacifista como navegador.

Quarteto Fantástico por Mark Millar & Bryan Hitch Fantastic Four #554-569.

Existe o mito entre os leitores brasileiros de que o Demolidor e o Quarteto Fantástico são títulos agourentos que independentemente de suas respectivas fases, de uma maneira ou de outra, sempre abreviam as revistas nas quais são hospedadas. Normalmente eu diria que isso é bobagem de fanboy, só que, analisando a dança das cadeiras na década passada, dá pra constatar que é muita sorte que ainda possamos acompanhar Matt Murdock, Reed Richards e Cia. por essas bandas. 

O que claro, é um pensamento reconfortante, mas a verdade é que esses dois teriam cacife de sobra para veicularem nas bancas como carros-chefe, afinal, foram donos de uma regularidade ímpar durante esses primeiros anos do século XXI, com nomes consagrados como Brian M. Bendis e Ed Brubaker à frente do Demolidor e o Quarteto sob a chancela de Mark Waid, J. M. Straczynski, Mark Millar e Jonathan Hickman. Subestimados? Sempre.

Demolidor: Mercenária & O Retorno do ReiDaredevil #111-119 & 500.

Última compilação da monumental fase de Ed Brubaker & Michael Lark. Um clímax conciso, redondinho, daqueles desconstruídos com precisão, como a fileira alinhada de dominós e o abraço gélido do destino, realocando nosso deficiente visual preferido num círculo do inferno mais adequado as suas recentes façanhas.

Thor por J. M. StraczynskiThor #1-12, 600-603; & Giant-Size Finale.

Não vejo com bons olhos o futuro de Straczynski, mas seu passado é qualquer coisa próxima do genial. Parte dele nutrido à base de Midnight Nation #1-12, Supreme Power #1-18 e as histórias que fez com J. Romita Jr. em Amazing Spider-Man #30-58 & 500-508, período este, vale frisar, imediatamente antes de Gwen Stacy aprimorar o corte de cabelo de Peter. Seu Thor faz parte desse passado, mas quem roubou a cena aqui foi o Loki.

Os Supremos 2 The Ultimates 2 #1-13; & Annual #1.

Teve um início arrebatador, uma metade apoteótica e um desfecho balbuciante. Até hoje não entendi o comportamento pimpão do Thor naquela edição #13, tendo em vista tudo aquilo que sofreu na #5. Esperava mais som e fúria de uma deidade viking, num (baixo) nível estilo “salvei vossa pátria, agora lambeis todos, meu Mjolnir”.

Lanterna Verde: Sem Medo, Hal Jordan - ProcuradoGreen Lantern #1-9; & Secret Files #1.

Lanterna Verde: Hal Jordan, ProcuradoGreen Lantern #10-20.

Tropa dos Lanternas Verdes: Recarregar Green Lantern Corps #1-13; & Recharge #1-5.

E aí, alguém acredita mesmo que irei desembolsar R$ 79,00 pelo encadernado da Panini? Resposta logo abaixo.

Liga da Justiça por Morrison, Waid & Porter: Nova Ordem MundialJLA - A Midsummer's Nightmare #1-3; & JLA #1-9.

Liga da Justiça por Morrison, Waid & Porter: A Pedra da EternidadeJLA #10-23.

Liga da Justiça por Morrison & Semeiks: Um Milhão, Livro 1 DC One Million #1-2; JLA #1000000; & Spin-Offs.

Liga da Justiça por Morrison & Semeiks: Um Milhão, Livro 2DC One Million #3-4; Spin-Offs; & JLA #24-26.

Liga da Justiça por Morrison, Waid, Quitely & Porter: Terra DoisEarth 2; JLA #27-31 & 33.

Liga da Justiça por Morrison & Porter: Terceira Guerra MundialJLA #34 & 36-41.

Liga da Justiça por Waid, Porter & Hitch: Torre de BabelJLA #43-54.

Dessa coleção só faltam mesmo as edições #55-58 e a minissérie JLA: Year One #1-12. Logo mais devo compilá-los também. Ok, pra fechar, lembram que o primeiro fascículo da ‘Liga da Justiça por Grant Morrison’ da Panini saiu em novembro de 2008? Pois é, esperei...

Escrito por LUWIG