Sunday, September 09, 2007

Cintilações

Certa feita, no lobby de um hotel em Turim, perguntaram a Neil Gaiman se era possível contar a história de 'Sandman' com vinte e cinco palavras ou menos. Ele pensou por um momento e disse: ”O Mestre dos Sonhos aprende que uma pessoa deve mudar ou morrer, e toma sua decisão”.

Não deixa de ser verdade, embora isto deixe muita coisa de fora*. O fato é que à época que li a supramencionada síntese, sequer havia entendido o sentido daquelas palavras.

A razão só veio com a apreciação (mais que tardia) da segunda metade da celebrada série.

Em linhas gerais, minha epopéia com Morpheus começou em meados de 1999 na irregular republicação da então Tudo em Quadrinhos e mais tarde continuada pela caótica Brainstore. Entre uma rifa** (dos rins) e outra (do caquético fígado), minha coleção chegou a sangrentas vinte e oito ediçõesainda a tempo de ver concluso a espetacular ‘Estação das Brumas. A interrupção da distribuição nacional cuidou para que o cisne antecipasse seu último canto.

De lá para cá, perdi minha chance de um reboot decente com os suntuosos livros da Conrad, novamente, tenho que destacar, devido a um período de vaca$ magra$.

Hoje, com as finanças um pouco mais saudáveis que daquela vez, vejo-me impossibilitado de adquiri-los devido ao esgotamento generalizado do primeiro volume, ‘Prelúdios & Noturnos’.

Quem sabe um mal que veio para o bem, já que a Pixel prontamente manifestou interesse de lançar a premiada***Absolute Sandman’ tão logo finde o contrato da Conrad (lembrando que para tal, ainda restam dois volumes: 'Entes Queridos' e 'Despertar'). O problema é que não posso, digo, não podia mais aguardar até essa nova oportunidade.

O que fiz? Simples, peguei as revistas que possuo (#01-28: ou os quatro primeiros livros – ‘Prelúdios & Noturnos’, ‘A Casa de Bonecas’, ‘Terra dos Sonhos’ e ‘Estação das Brumas) e as reli; em seguida, sob empréstimo, vieram as edições #29-56 (respectivamente, ‘Um Jogo de Você’, ‘Fábulas & Reflexões’, ‘Vidas Breves’ e ‘Fim dos Mundos’ – todos, vale ressaltar, da Conrad); por fim, da #57-75 (Entes Queridos’ e ‘Despertar), abandonei o conforto da rede na varanda e enfrentei os infortúnios da leitura na via digitalizada.

Mera formalidade. Repetiria o feito deitado sobre uma cama de pregos sem sequer pensar duas vezes.

* Mencionado no intróito de ‘Sandman: Noites sem Fim’ em 2003.

** Para época, R$ 5,50 por uma revista de vinte e poucas páginas era um estupro financeiro – não que hoje não deixe de ser.

*** Vencedora do Eisner 2007 na categoria ‘melhor projeto/coleção arquivo’ pelo primeiro volume (#01-20).

Exit light

Não sou tão tolo ao ponto de subestimá-lo, caro leitor, e traçar toda uma enfadonha linha cronológica da Vertigo e todos os obstáculos que o autor teve que se desvencilhar até chegar às hospitaleiras estâncias do ‘Sonhar’. Meu intento, sim, é alinhar alguns fragmentos e percepções pessoais sobre a obra como um todo.

Portanto, nada de pretensões inócuas de devassar tudo que Gaiman se propôs a fazer.

Longe de mim, deixo essa tarefa ingrata para Frank McConnell*no prefácio do primeiro volume de ‘O Livro dos Sonhos – e seu olhar ultra esquematizado da linhagem dos Perpétuos.

Por ordem de idade – de “nascimento”, como veremos, não seria um termo apropriadoDestino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (cujo nome costumava ser Deleite). Chamam-se de Perpétuos porque são estados da própria consciência humana, e não podem deixar de existir até que o próprio pensamento deixe de existir. Não “nasceram” porque, como a consciência, nada pode ser imaginado antes deles.

O upanixade, a mais antiga e sutil das teologias, tem algo a dizer sobre isso.

Estar totalmente consciente é ter consciência do tempo e da linha do tempo: do destino. Saber disso é saber que o tempo deve ter um fim: imaginar a morte. Confrontados com a certeza da morte, nós sonhamos, imaginamos paraísos onde as coisas não são bem assim: “A morte é a mãe da beleza”, escreveu Wallace Stevens. E todos os sonhos, todos os mitos, todas as estruturas que erguemos entre nós e o caos, simplesmente porque são coisas construídas, devem inevitavelmente ser destruídas.

Paralelamente nos voltamos, desesperados por nossa perda, para a destrutiva, mas deliciosa alegria do momento: nós desejamos. Todo desejo é, obviamente, a esperança de obter uma satisfação impossível com a natureza básica das coisas, um deleite ilimitado. Então, desejar vem sempre antes de desesperar, perceber que o desejo de alegria é, afinal, somente o delírio de nossa auto-ilusão mortal de que o mundo é grande o bastante para se acomodar na mente.

* Crítico literário, autor de quatro romances policiais, colunista da Commonweal e professor de inglês na Universidade da Califórnia em Santa Barbara. No curso de graduação que ministra, The History of Storytelling, o 'Sandman' de Neil Gaiman aparece como tópico principal de estudo.

Enter night

Meu arco de histórias preferido é ‘Vidas Breves’ – vencendo ‘Estação das Brumas’ por um nariz.

Há uma ou duas justificativas para tanto.

(1) Na primeira metade de ‘Sandman(#01-40) percebemos entre idas e vindas no tempo os efeitos do cárcere* em Morpheus. Antes de tudo um ser pouco receptivo a mudanças, passional, com rompantes de intransigência e, digamos assim, “profissional” demais, hoje**, porém, releva suas obrigações a um ponto de equilíbrio, abraçando causas improváveis e redimindo-se de erros do passado.

Mas entenda, ele não cogita muito menos aceita que sua personalidade esteja sujeita as intempéries da vida. Esse é o grande defeito do Mestre dos Sonhos e, sem dúvida, o alicerce para a grande lição*** que a duras penas aprenderá (ou não) na segunda metade da trama (#41-75).

* Aprisionado nos porões da mansão de Roderick Burgess em Wych Cross, condado de Sussex, Inglaterra.

** Lembre-se que estamos atrelados ao século XX, precisamente de 1988-1996.

*** Se você prestou atenção à síntese de Gaiman no começo do texto, a essa altura já deve ter matado a charada.

(2) A maneira como Gaiman constrói a reputação de Destruição é digna de nota: a primeira aparição só se dá na edição #41*, todavia de tanto ser mencionado nos capítulos anteriores, cai nas graças do leitor, inclusive é possível experimentar com sua ausência um misto de amargura e saudade, coincidentemente os mesmos sentimentos dos outros irmãos.

O bom senso seria procurá-lo e saber por que cargas d’água o desertor pulou fora. A grande ironia é que só depois de 300 anos alguém se ofereceu para tanto, justamente a aresta mais complicada da família, Delírio.

Desejo e Desespero são irmãs gêmeas, sendo que a última é mais nova e dificilmente contraria as vontades da primeira. Assim, vê-la (Desespero) ignorando as tramóias da outra, quando esta lhe pede ajuda para armar alguns percalços na busca de Delírio por Destruição, é um tanto quanto curioso.

A verdade, no entanto, é outra. Desespero sofre em silêncio com o sumiço do irmão (Destruição), tanto que na mesma #41 (primeiro capítulo de ‘Vidas Breves’), resta imortalizada uma das passagens simbolicamente mais fortes de toda a trama: na ocasião em que ouve a proposta da caçula (Delírio), discretamente dá início a uma peculiar autoflagelaçãoquem sabe, para sentir alguma coisa mais forte que a saudade do pródigo, ou seja, a dor (ver 01-02-03).

Obstinada com a idéia, seria preciso muito mais que isso (um ou outro “não”) para dissuadir Delírio de encontrar Destruição. Percebendo isso, Morpheus resolve que ajudá-la nessa empreitada viria a calhar como uma maneira de velar por sua segurança e, pessoalmente, de esquecer a desilusão amorosa que há pouco sofrera.

Assim, partem numa jornada no mundo desperto para investigar e refazer os últimos passos de Destruição no auto-imposto exílio. O que não contavam é que há algumas forças se intrometendo e, por conseguinte, dificultando a demanda.

No fim, a inevitável reunião acontece e, criativamente falando, serve ao propósito de aparar pontas soltas** e acender um incandescente sinal do que o futuro reserva para o “senhor das coisas que não são, não foram e jamais serão”.

Foi proposital***, aliás, o próprio Neil Gaiman na primeira visita ao Brasil em 1993 foi muito categórico em relação a isso: “Sandman tem que terminar porque tudo tem um fim. Eu não gostaria de acordar pela manhã e, ao me barbear de fronte ao espelho, pensar em ter que escrever outra história de Sandman como algo chato e entediante. Todas as histórias boas têm um fim. Por isso, Sandman vai morrer. No número 75 para ser exato”.

* Isso não é exatamente verdade. Destruição teve uma breve participação na fatídica ‘The Sandman Special #01: The Song of Orpheus’ – gerando inclusive a desavença comentada logo abaixo.

** A constatação que Morpheus guarda algum ressentimento por Destruição ter indicado um caminho que só trouxe desgraças ao filho (Orpheus) e, claro, o tão aguardado momento em que este último revela os motivos de ter abandonado seu reino.

*** A explanação de Destruição sobre a brevidade existencial dos Perpétuos.

Take my hand

No final de tudo, Morpheus não se permitiu trilhar o mesmo caminho que Destruição e preferiu desistir da vida antes de renegar a execução das rígidas responsabilidades que desempenha.

Honrar as regras, cumprir deveres e respeito aos princípios (ver 01-02). Essa é a moral da história de ‘Sandman’, levada as últimas conseqüências em ‘Entes Queridos’ a partir de uma sombria conspiração* iniciada sob falsas premissas.

Reza a lenda que as “Bondosas(ouFúrias”) nunca deixaram impune um pai que mata o próprio filho, muito menos cessaram suas atividades antes que o crime que desejavam punir fosse vingado e limpo com sangue.

Sem meio termo, é impossível detê-las a não ser violando as regras**.

* Esculpida sobre o ato de misericórdia do Mestre dos Sonhos que deu fim a triste existência de Orpheusno desfecho de ‘Vidas Breves’.

** Desrespeitando o direito inato das bruxas.

We're off to never never-land*

Em ‘Despertar’, irmãos, deuses antigos, velhos amigos e desafetos reúnem-se para prestar um tributo, no velório mais estranho que já existiu*atenção para alguns rostos famosos. E, no último conto (#75), William Shakespeare cumpre finalmente o segundo compromisso que há muito havia assumido com o Mestre dos Sonhos.

Para os desmemoriados, o primeiro se resolveu na #19, “Sonho de uma noite de verão**”, quando Will e sua trupe encenaram a peça que dá nome a edição. Detalhe, na visão de Gaiman, a mesma fora criada para homenagear os amigos do reino (das fadas) de Faerie. Uma das duas composições que o dramaturgo faria para Morpheus como recompensa por ter "acordado" o dom e talento latente com as palavras.

Voltando ao derradeiro capítulo da série, temos outra visão de ‘A Tempestade’, última peça escrita por Shakespeare.

O destaque da história é o brilhante artifício literário em que Neil Gaiman passa a ser criador e criação, ou seja, Shakespeare e Morpheus são a mesma pessoa.

Indícios e analogias disso estão espalhados no texto todo, porém há que se destacar a passagem em que o autor em tom de desabafo evidencia: “Talvez o poço de seu talento tenha finalmente secado, Will. Quisera todos fôssemos sábios o bastante para desistir quando estivéssemos acabados”.

* Atestado no diálogo a seguir.

Cain:Ninguém morreu. Como se pode matar uma idéia? Como se pode matar a personificação de um ato?

O’Shaughnessy:Então, o que morreu? Quem estamos velando?

Abel:Um ponto de vista”.


** Com a presente história ganhou o prêmio “World Fantasy Award” em 1991, dado às melhores histórias literárias de fantasia. Pela única e primeira vez esse prêmio foi dado a uma história em quadrinhos.

*** Os subtítulos são frases soltas do refrão de ‘Enter Sandman’ do Metallica.

Casting Call

O segredo de fazer um bom "casting call" é atrelar ao intérprete algo palpável e condizente com sua filmografia, modéstia à parte, o meu é perfeito porque une esses fatores com semelhanças físicas. Mas, claro, falar de um eventual longa-metragem de ‘Sandman’ é sempre um tema espinhoso por conta de sua materialidade propriamente dita*.

Bem, mas como estamos no terreno da fantasia, vejamos o elenco dos meus sonhos (pelo menos no que tange aos Perpétuos):

Ed Harris é DESTINO porque lhe cai muito bem uma figura encapuzada, monástica, quase desprovida de afeto. Imagine-o como o ventríloquo dos eventos em ‘O Show de Truman’ – indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante em 1998 – só que mais soturno.

Kathy Bates é DESESPERO porque é capaz de interpretar com uma mão nas costas a velha megera nua, extraordinariamente feia, atarracada e gorda dos Perpétuos. Imagine-a como a enfermeira sádica em ‘Louca Obsessão’ – ganhadora do Oscar de melhor atriz em 1990. Acredito que nudez não seria problema, basta conferir ‘As Confissões de Schmidt’ – indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2002 – e tirar a prova dos nove.

Anne Hathaway é MORTE porque tem a vivacidade e o sorriso certo para a jovem inteligente, carismática e arrebatadoramente bela dos quadrinhos. Seu cartão de visitas é ‘O Diário da Princesa’ e ‘O Diabo veste Prada’.

Adrien Brody é SONHO porque pode dar ao Mestre dos Sonhos a proporção ideal entre sombras, pretensão e neuroses. Trabalho fácil para quem esbanjou melancolia em ‘O Pianista’ – no qual abocanhou um Oscar como melhor ator em 2002.

Eva Green é DESEJO porque é a única que pode destilar os mais puros venenos e ser ao mesmo tempo, andrógina, sensual e tão assustadora quanto uma fêmea dominadora. A sedução é tácita em ‘Os Sonhadores’ e ‘007: Cassino Royale’.

Abigail Breslin** é DELÍRIO porque ganhou o direito de ser gente grande em ‘Pequena Miss Sunshine’ – indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2007. Quanto a personagem, dificilmente é descrita do mesmo modo (o que necessariamente contribui para designar a atriz mirim para o papel): tudo que podemos dizer com certeza é que se trata de uma garota de cabelos multicoloridos ou completamente calva, que veste farrapos e dispara sentenças sem lógica.

Brad Pitt é DESTRUIÇÃO porque, até que se prove o contrário, seu ‘Tristan Ludlow’ de ‘Lendas da Paixão’ é o mesmo “foda-se” ambulante, bom sujeito, mas péssimo artista, piadista e bon vivant de ‘Sandman’.

* Não é algo que se adequaria ao celulóide sem alterações significativas a versão original em celulose. Se materializado, não vejo outro roteirista capaz de condensar esse material que não o próprio Neil Gaiman e, mesmo assim, só consigo vislumbrar isso como quatro episódios fechados: (1) 'Prelúdios & Noturnos'; (2) 'Estação das Brumas'; (3) 'Vidas Breves' e (4) 'Entes Queridos/Despertar'.

** Muito embora tenha mais cacife para ser a versão mais jovem, DELEITE.

O aniversário é nosso, mas quem ganha presentes é você! – Versão 2.0

Segue aqui a lista de quem participou do sorteio* e, obviamente, o felizardo. Gostaria que o mesmo, assim que possível, entrasse em contato comigo (via MSN) para informar seu respectivo endereço.

01 - Marcelo Soares
02 - Chico
03 - Daslei
04 - Ricardo
05 - Paranoid Android
06 - Kojak
07 - Marlo
08 - Alcofa
09 - Gerlande Diogo
10 - Renato
11 - Lucas McCartney
12 - Elrik de Melniboné
13 - Filipe Siqueira
14 - Jojo
15 - Kravis
16 - Alberto Silva
17 - Alex (Smackpot)
18 - Queiroz
19 - Russo
20 - Kelnner
21 - César
22 - Boby
23 - Von Dews
24 - Eurico
25 - George Queiroz
26 - Renmero
27 - Gerente do Covil
28 - Shocc
29 - Kicha
30 - Helton
31 - Roberto Faria
32 - Rodrigo
33 - Dexter
34 - Fábio Negro
35 - Peter
36 - Felipe


Ao Renmero minhas congratulações e aos demais, o agradecimento pelo feedback em massa nos comentários, em especial, a nossa indicação no Blog Day 2007 por parte dos amigos Eurico do Muito Firme e o Kicha do Mondo Kicha.

Lembrando que a próxima postagem ainda é sobre ‘Sandman’ – ou melhor, sobre o universo expandido. Aguarde.

* A critério de minha namorada (a Kaline) que aleatoriamente escolheu um desses números acima.

Escrito por LUWIG
 

3 Comments:

Blogger chico said...

layout bem melhor luwig. Aquele outro me deixava tonto...

11:14 PM  
Blogger L.U.W.I.G said...

Chico, você não tem noção da dor de cabeça que foi até chegar a "ele".

10:32 AM  
Anonymous Anonymous said...

Assista "Death note"

12:37 PM  

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