Friday, March 07, 2008
Officer Down
Acabo de constatar que nunca na vida procrastinei e temi tanto o término de uma história em quadrinhos quanto 'Corrigan II*', último arco de ‘DC Especial #16’. Para tanto, lancei mão de uma semana inteira até vencer as 205 páginas dessa coletânea – e, se me permite, sinto que ainda assim fui precipitado demais.Deveria ter me contido, mesmo que fosse preciso tomar medidas drásticas (como o uso de ansiolíticos!) para assegurar alguns minutos de resignação, afinal, estava lidando com o derradeiro tomo da soberba ‘Gotham Central’ dos ases indomáveis Ed Brubaker & Greg Rucka.
Exagero? Não se você acompanhou religiosamente durante (exatos) três anos as quarenta edições dessa série, distribuídas em seis volumes (DC Especial #05, 08, 11, 13, 14 e 16) – que, quando somados, sequer ultrapassam o valor de R$ 100,00.
A sensação de perda é pra lá de ambígua, não só pelo triste de fim de Crispus Allen, mas também pela resolução do título em meio a um cataclismo. Tal comoção, inclusive, me remeteu internamente ao ponto crítico de ‘Lobo Solitário #28’, ocasião em que perdi completamente o controle das glândulas lacrimais.
O paralelo faz ainda mais sentido quando você se depara com as páginas em preto-e-branco – que explicitam o ponto de vista da Capitã Maggie Sawyer (ver 01-02) – e, em seguida, topa com o corpo inerte do parceiro de Renee Montoya.
O choque pós-traumático veio como uma baforada criogênica no topo da espinha, e não será nenhum pretenso “hospedeiro” da vindicta encarnada ou a estapafúrdia idéia de substituir ‘Vic Sage’ (vulgo "Questão") que aplacará meu luto**.Pena que para pagar as contas, o mainstream recorra a necessidades imperiosas e sazonais de vociferar balbúrdias, manobras estas que visam tão somente aumentar vendas, mexer erroneamente no que está "quieto" ou defenestrar cânones.
* Continuação da homônima história iniciada em 'DC Especial #13' que nos remetia a 'Jim Corrigan', perito corrupto da 'Unidade de Cena do Crime' (CSU) e nêmese do Detetive Allen.
** Espero do fundo do meu coração que todas essas mudanças sejam fruto de maquinações editoriais e não dos próprios criadores.
“Gotham Central #41-...”
Um dos maiores indícios de que Bruce Wayne tem vivido soterrado em meio a escombros da cratera logística perpetrada após a deserção de Barbara Gordon e a revoada de aliados no desfecho de ‘Jogos de Guerra’, foi a “terceirização” de serviços de investigação a civis.Acredito que a contratação de Jason Bard* (em Detective Comics #818) apenas fraciona o problema a uma parcela irrisória, por sinal, bem aquém do status quo anterior.
De nada vale gerenciar e adotar medidas paliativas em meio ao caos de Gotham City sem informações seguras, distintas daquelas obtidas sob tortura, o ideal seria montar uma rede clandestina de contatos, às margens do sistema.
Portanto, nada de comprometer (outra vez) a atuação do maior detetive do mundo facilitando o processo inquisitório, a questão ganhou requintes de complexidade no instante em que o cavaleiro das trevas percebeu o quanto perdeu em celeridade nas missões.
Não estamos falando de sujeição, mas do simples fato de tocar o trabalho com um custo operacional admissível com qualidade e velocidade. Seria dentro dessa realidade factível que Harvey Bullock e Renee Montoya deveriam ser alocados, como agentes independentes, ora esbarrando, ora colaborando com seus antigos colegas da 'Unidade de Crimes Hediondos'.
Quanto a James Worthington Gordon, nada mais justo que mantê-lo como o professor de criminologia da Universidade de Gotham, porém mais atuante como amigo e conselheiro (de Batman).
Por fim, Crispus Allen deveria continuar comendo capim pela raiz e não amenizando os ânimos exaltados de Raguel** na vingança divina.
* Atualmente, trabalha na divisão de homicídios do Departamento de Polícia de Gotham City.
** Arcanjo conhecido pelos mundanos como “Espectro”.
The Hypothetical Replacements
Os órfãos dessa série no íntimo compreendem que mesmo sem Rucka e Brubaker, haveria como continuar, quem sabe, até aumentar o nível da publicação.
Meus sabatinados seriam:
(1) David Lapham:
Antes que rememore o fiasco de “Cidade do Crime” em ‘Detective Comics’, deixe-me trocar uma ou duas palavras com você sobre ‘Balas Perdidas’.Sabia que o primeiro volume dessa série que compila as edições #01-07 (publicado pela Via Lettera em dois encadernados), intitulado “Innocence of Nihilism”, consagrou o presente autor no Eisner Awards 1996 com uma premiação na categoria melhor escritor/artista e outra no ano seguinte como melhor álbum gráfico?
Bem, se tens conhecimento disso, congratulo-te, sabes que possui uma iguaria e tanto, passível de inclusão num ranking pessoal.
'Balas Perdidas', assim como seu primo distante (100 Balas), parte da premissa contemporânea de que a violência reina como a força motriz do mundo, cabendo a alguns artistas a função de transformá-la em produto estético para que se possa de alguma maneira entendê-la ou, quiçá, aceitá-la.
Como genuíno representante dessa corrente artística, Lapham destila violência em todas suas intrigantes histórias, onde personagens atormentados ou atormentadores estão sempre pagando ou cobrando algum tributo a ela.
É assim que se ligam, quase ao acaso.
O matador sanguinário e seu comparsa perturbado, o cadáver da mulher no porta-malas e o policial asiático baleado, os mafiosos que acertam contas num beco e a menina que acaba de sair do cinema, a mãe ciumenta e o senador oportunista, todos, figurantes de situações em que nunca fica claro quem é a vítima e quem é o carrasco.
Não há protagonistas. Eles vêm e vão como à vida real. E há o humor, sempre cáustico, agindo como um perfeito contraponto às balas e ao sangue que parece escorrer destes quadrinhos refinados.
Pena que há anos ninguém do meio editorial tupiniquim manifesta interesse em dar continuidade a essa série (restando intocadas 25 edições!).
Se topar com alguém disposto a traduzir e diagramar as mesmas, não faço questão de digitalizar essas sete primeiras em minha posse.
(2) Max Allan Collins:
Não basta assistir a adaptação cinematográfica de Sam Mendes para ‘Estrada da Perdição’, você tem que ler para conhecer o verdadeiro potencial de destruição dessa obra-prima da nona arte.Por essa e por outras, Collins deveria ao menos capitanear um arco de histórias relatando as vicissitudes do Departamento de Polícia de Gotham City antes da Era Gordon/Akins.
(3) Brian Azzarello:
Sabe o que ‘Gotham Central’ precisa urgentemente? De um revigorante conto pulp de policial infiltrado em organizações criminosas no melhor estilo ‘Donnie Brasco’.O torpor que toma conta de mim ao concluir um fascículo qualquer de ‘100 Balas’ me dá a convicção necessária para crer que esse homem redigiria um roteiro mordaz e repleto de ineditismos no café da manhã.
Uma bela maneira de trazer de volta ao convívio dos leitores o oficial Mackenzie "Capa-Dura" Bock, atual comandante da ‘Divisão de Combate ao Crime Organizado’.
(4) Darwyn Cooke:
Respeito demais um cara que não teme perder o emprego convidando o chefe para resolver diferenças artísticas “fora de um bar”, melhor, tem a audácia de chamar para a si a responsabilidade de reviver o mito de ‘The Spirit’ sem, no entanto reverenciar seu mestre, Will Eisner.Comparado com o próprio Will e a lenda viva chamada Joe Kubert, Cooke, segundo relatos de quem já teve a oportunidade de trabalhar com ele, é capaz de escrever, desenhar, fazer os esboços, letreirar e colorir se quiser, e ainda editar.
Muito embora, só tenha ganhado fama após o sucesso de ‘Nova Fronteira’ é em ‘Selina’s Big Score’ que ele recebe o meu condão para “brincar” com Marcus Driver e companhia.
Outrossim, nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar que a “missão suicida” ao qual me alistei teria algum resultado, quanto mais ser presenteado com uma edição impecável como foi essa ‘Mulher-Gato: Um Crime Perfeito’.
É bem verdade que o preço (R$ 49,00) a priori salta aos olhos, mas é só o tempo de retirar o “plástico” do livro para perceber o quão válido foi o investimento. Se quiser saber, desde que finalizei a leitura já é parte obrigatória do ‘Guia Underground’ que, diga-se de passagem, merece ao menos três retificações.
São três histórias.
A primeira, ‘Selina’s Big Score’, escrita e ilustrada por Cooke, tem início no Marrocos com uma Selina Kyle praticamente na bancarrota, motivada o bastante para regressar a Gotham, reaver suas últimas reservas e planejar um golpe que a tire de vez do vermelho.
Aliás, a soma em dinheiro (24 milhões de dólares) e a dificuldade é tanta que seria impossível dar conta de toda a ação sozinha e é aí que entra o antigo mentor, o engenheiro e todos aqueles coadjuvantes maravilhosos de um bom filme de assalto.
Em ‘Slam Bradley na trilha da Mulher-Gato’, escrita por Ed Brubaker e ilustrada por Darwyn Cooke, um detetive particular de meia-idade é contratado pelo prefeito de Gotham para descobrir a verdade sobre a morte de Selina (durante o longínquo terremoto).
Ambientado numa atmosfera propositalmente noir, o conto secundário é um complemento da primeira trama, reapresentando o clássico personagem criado por Jerry Siegel & Joe Shuster em ‘Detective Comics #01’ em março de 1937.
Até aí, já se foram 126 páginas e você sequer lembra-se de outra aparição que não a seminal ‘Batman Ano Um’ como a prostituta enfezada lidando com um peculiar intruso na Zona Leste de Gotham (ver 01-02-03-04).Estamos agora nas quatro primeiras edições que relançam a série contínua da Mulher-Gato, também sob a consistente escrita de Brubaker e a primorosa arte de Cooke.
Nesse primeiro arco, ‘Sem Dor’, Selina se dá conta que o antigo lar (na Zona Leste) é ainda hoje uma região* tão problemática e repleta de tipos egressos da sociedade que mesmo sem se dar conta, Batman a evita.
É lá que Selina se redescobre, onde pretende fincar suas garras, virar a página, mover fundos e mundos para proteger os esquecidos. E adivinha só, foi Holly – aquela garotinha que se ofereceu para Bruce na primeira incursão naquela área – o motivo de toda essa epifania.
Só espero que a Panini dê continuidade à iniciativa e nos prestigiem com o restante dessa fase, mais precisamente até a edição #33 (de #37, porém estas últimas foram publicadas no arco ‘Jogos de Guerra’ entre ‘Batman #32-38’ nas edições nacionais).
E não sou o único que se desmancha em elogios, veja o que Brian M. Bendis disse na #17.
* Equivalente de Gotham à Basin City no que tange ao distrito conhecido como a “Cidade Velha”. Quanto a Selina, bem, ela nada mais é que uma versão light da “Gail”.
(5) Paul Pope:
Tendo em vista as últimas declarações de Grant Morrison, até parece que o autor da premiadíssima ‘Batman Ano 100’ já havia se antecipado a “Rest in Peace”.Mas essa é outra história, o que eu queria mesmo com Pope é que ele revisitasse o ano de 2039 e fosse mais afundo nas psiques do Capitão Gordon (neto de Jim) e da Dra. Goss, quem sabe expondo a “limpeza” no Asilo Arkham ou como Kris passou a jogar nos dois times (Batman e o DPGC).
Bem, mas por hoje chega, já exercitei bastante minha imaginação.
Pro inferno Alan Moore e os incrédulos...
...eu confio no Zack!Escrito por LUWIG
luwigx@hotmail.com





















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