Sunday, April 27, 2008
The Demon Within
Ao longo dos anos, uma premissa rascunhada* a partir de flertes com o sobrenatural tem sido se não revisitada, sugestionada por um punhado de autores mais atentos à mitologia de Batman. Refiro-me a corrente que crê na existência de uma entidade inferior que acompanha (invisível e silenciosamente) Bruce Wayne desde o princípio, incitando, guiando-o não só no auto-imposto exílio, treinamento e infortúnios, mas na estrada sombria que estava predestinado a percorrer.Tomando como base a jornada psicótica pelo coração das trevas trilhada por Darwyn Cooke em ‘Ego’, a criatura em questão seria a própria representação abstrata do medo, a responsável inequívoca tanto pela coleta de dor, ódio e medo acumulado no interior do hospedeiro, quanto pela partilha das mesmas àqueles que mereçam.
* Primeiramente em ‘Cavaleiro das Trevas’ – ver 01-02-03-04 – e, em seguida, no seminal ‘Ano Um’ – ver 01-02-03 (ambos de Frank Miller, dã!).
Concordo com você que o presente conceito é algo difícil (leia-se “perigoso”) de lidar e pouquíssimo empregado na folha corrida do personagem, mas se quer saber, é melhor que assim o seja. Voando abaixo do radar pelo menos ficamos isentos de eventuais confusões que o mesmo poderia gerar, afinal de contas, de “cria do inferno” só precisamos (?) de uma (se é que me entende).
Se o próprio Bruce pudesse ler estas linhas, teria asco, mas uma coisa é certa: “ele estaria em negação”. Também pudera, sobreviver a uma tortuosa peregrinação de doze anos, buscando aprimoramento físico e mental nos lugares mais remotos possíveis, sozinho, munido apenas de obstinação e duas bolas, só para depois descobrir que involuntariamente teve um “empurrãozinho”? Respondo por mim, eu surtaria.Mas pra quê bater cabeça negando fatos? Eles estão aí, e não tão raros quanto parecem.
Sob pena de me repetir, em ‘Ego’, após uma investida do Coringa que resultou na morte de 27 pessoas e no suicídio de seu delator, sangrando muito e morbidamente introspectivo, Bruce passa a questionar o rumo que a guerra ao crime lhe conduziu.
É aí que surge algo completamente inesperado, surreal e não por isso menos revelador. Talvez devaneios ocasionados por mais um ataque de Jonathan Crane? Quem sabe não seria a hemorragia que até então estava ignorando, falando mais alto? Nenhuma das alternativas anteriores, ele estava diante do próprio coração, de uma entidade que se dizia presente em sua juventude, latente no interior, sem rosto, nem nome, mas que o podia ouvir e sentir.
Levado a uma profunda reflexão sobre suas escolhas e as conseqüências advindas delas, nada é poupado, desde a resolução de velhas perguntas retóricas até a – nas palavras da criatura – “deplorável necessidade de companhia” (ver 01-02).
O denominador comum entre Bruce e “o Batman” no desfecho é genial e me fez, infelizmente, meditar ainda mais sobre o que será do personagem após os intentos de Grant Morrison em “Rest in Peace”.Segundo o escocês (em entrevista recente ao site Comic Book Resources), “é o fim de Bruce Wayne como Batman”.
Tal declaração me revirou o estômago. Ora, a história de “Batman” sempre foi sobre “Bruce Wayne” assim como o “Sandman” de Neil Gaiman foi sobre “Morpheus”. No dia que ela cessar, tudo bem, haverá um sem número de substitutos de prontidão para preencher a vaga, mas o cerne da discussão é: ele será um “Daniel”, não um “Morpheus”, outro ponto de vista da mesma idéia.
Certo é que não “descansarei em paz” até o desenlace de tamanho disparate.
Etrigan Was Right
Tornando ao assunto principal, temática idêntica foi sugestionada por Alan Grant num longínquo encontro de Batman e Etrigan em ‘Detective Comics #601-603’ (Batman #06-07 em form. Americano pela E. Abril) – no trecho (impagável) acima; tangenciado (ver 01-02) em ‘Coma’ por Scott Hampton e, de certa forma, relacionado em ‘Colheita Maldita’ por George Pratt – quando Bruce deu lugar à fera (algo igualmente professado em ‘Ego’ – ver 01-02-03).De toda forma, o argumento em tela meio que faz parte de um “almoxarifado de idéias®”, um assunto mal-resolvido que pode a qualquer momento render uma ótima* ou execrável história.
* Particularmente, vejo nesta temática uma brecha e tanto para se trabalhar em apartado (extra-Gotham), preferencialmente no terreno das hipóteses (insinuando e não materializando!). Algo que Neil Gaiman poderia sem dúvida desenvolver com uma mão nas costas, sobremaneira agora que vi com meus próprios olhos o que ele fez com o Clark ao se deparar com o suplício dos condenados no Inferno (em ‘A Lenda da Chama Verde’) – ver 01-02.
Guia Underground de Leitura do Morcego: Remix
Como prometido, fiz algumas inserções no nosso voluptuoso roteiro de leitura quiróptera, entre elas, algumas pinceladas sobre ‘Asilo Arkham: Inferno na Terra’, ‘Mulher-Gato: Um Crime Perfeito’ e ‘Ego’ – que, diga-se de passagem, é também uma das minhas últimas aquisições gothamitas.
De hoje em diante, ele estará acessível na barra lateral, passível de complementações à medida que novidades surjam e de fato mereçam um lugar de destaque na nossa colcha de retalhos cronológica.
Lone Wolf and Cub and Jack
Foi um pouco complicado seguir em frente sem minha dose mensal de ‘Lobo Solitário’. Até procurei algum consolo nas páginas de ‘Crying Freeman’ e ‘Samurai Executor’, mas se comparadas à verdadeira “menina dos olhos” de Kazuo Koike, são como “próteses” para amputados.
Assim, durante muito tempo me senti que nem o sujeito com dificuldades em aceitar a mutilação (com dores-fantasmas). E logo quando consigo finalmente atravessar a fase mais crítica, o que acontece comigo? Assisto aleatoriamente um episódio (“XIX – Jack remembers de past”) de Samurai Jack onde nosso ronin, em meio às ruínas do lar, relembra fatos marcantes de sua infância.
Seria mais um capítulo típico da série se não fosse a breve interferência de velhos amigos.
Quase perdi novamente o controle das glândulas lacrimais.
Escrito por LUWIG
luwigx@hotmail.com





















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