Parece que a vida toda estive atrás de respostas. Explicações que me fizessem entender este verdadeiro e incompreensível amor abstrato que nutro por um personagem oriundo dos quadrinhos. Uma relação infalível, passível de erros e acertos, esculpida por somas em dinheiro significantes, muita paciência e rompantes de êxtase a conta-gotas.Não é fácil ser fã de alguém como Batman, muito menos estar numa posição desprivilegiada, suscetível aos caprichos de uma corporação que, raras as exceções, nunca soube dar o devido valor a uma mitologia tão cativante quanto a que se construiu ao longo dos anos. Mito este construído com sangue e lágrimas, trancos e barrancos.
Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) é o deleite definitivo, é a soberba deste ícone da cultura popular, mais que isso, é a recompensa de uma vida toda. É a réplica que tanto busquei na mídia impressa, televisiva e, claro, nas películas anteriores. Estamos diante da mesma urgência revolucionária que a minissérie homônima de Frank Miller em 1986, só que dessa vez, o que muda (e mudará!) é a maneira como se concebe um filme de super-heróis.
Mais vale agora uma seqüência com diálogos inteligentes na mão, que dois acéfalos superpoderosos voando. Tamanho sucesso nos dá o aval para especular sobre pelo menos duas questões prementes: (1) o início de uma nova era cinematográfica no Universo DC e (2) um chamado às armas (ou às vassouras) para rever alguns equívocos na linha editorial quiróptera recente.
Certo é que conjecturas tendem a caminhar no terreno das hipóteses, e assim sendo, não nos cabe a dura tarefa de pavimentá-lo, apenas traçar algumas linhas gerais e pontos de convergência sobre nosso testemunho naquela memorável tarde de sexta-feira (18 de julho).
Medo de Palhaço >>>
Fato. Heath Ledger passou longe de compor um personagem, o que ele fez foi recriar em nível molecular um monstro que supera todos os feitos engendrados pelo original, monstro não, estaria sendo injusto com a categoria, aquilo ali está mais para uma força da natureza do que um facínora qualquer com meia dúzia de pretensões maiores que o nariz. Um instrumento do caos, o nêmese, o pólo que anula o positivo de seu arquiinimigo.A construção do vilão fugiu a maquiagem e os cacoetes de praxe, ali está o Coringa. Não o Coringa que conhecemos, a propósito, perto desse, todas as outras versões do palhaço do crime não passam de manifestações apócrifas. Este Coringa é factível, gênio, com domínio completo das faculdades mentais, capaz de forjar insanidade* balizando-a por meio de autocontrole.
Capaz de adaptar o jogo ao bel prazer, transformando as peças de um tabuleiro (autoridades, população, quadrilhas e um vigilante) em peões manipuláveis, posicionando-os em situações limites. E que situações, com uma tacada só, enquanto brevemente encarcerado, ele conseguiu ficar cara a cara com Batman e desestabilizá-lo, conseguiu desviar a atenção de todos colocando Rachel e Harvey onde queria e – pasmem – conseguiu até fugir mandando praticamente todo departamento pelos ares.
Aliás, a cena me parece uma releitura magnífica do acontecido em Gotham Central #15 (no arco Alvos Fáceis, publicado em DC Especial #11 da Panini), ocasião em que o Coringa deixou-se capturar e fez exatamente o que o seu semelhante em DK.* Se há algum naco de demência nele, ele dá as caras na seqüência em que torra aquela dinheirama toda. De resto, nada pessoal, só curtição. Loucos sãos seus comparsas, esses sim.
Se os quadrinhos têm algum mérito nisso tudo, pelo menos no que toca a sua psique sã, creio que eles estão bem representados por três passagens em específico: (1) o diagnóstico de um dos médicos do Arkham no conto Estudo de Caso (por Paul Dini & Alex Ross); (2) a confissão que o próprio deixou escapar em Piada Mortal (por Alan Moore & Brian Bolland) e (3) o visual que, contrariando as convicções da esmagadora maioria, seguiu fielmente os esboços rascunhados em 2005 por Lee Bermejo.
Wayne & Cia. Ltda. >>>
Por diversas vezes me vi perdido em pensamentos divagando sobre o quão oportuno seria atacar com alguma regularidade o cotidiano incomum das massas gothamitas.As experiências do dono de bar que se habituou aos vultos sombrios que esporadicamente arremessam clientes pelas vidraças; o relato da garçonete que escapou ilesa de uma investida de Victor Zsasz, sem qualquer ajuda; os temores dos três enfermeiros que se revezam semanalmente para entrar na cela acolchoada do Coringa e realizar seu trabalho (provendo-o com a alimentação e aquela ajudinha básica nas necessidades fisiológicas). Enfim, um mundo em que Batman existe, mas não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
Excetuando o filão de histórias que surgiu com a premissa de Legends of the Dark Knight (episódio #19 de The New Batman Adventures – assista >>> parte 1 & 2), só me vem à tona o antológico Superalmanaque DC #01* (1990) e Batman: Noites de Gotham (1994), ambos publicados pela Editora Abril.
* Cuja seqüência supra, acredite, foi roteirizada por ninguém menos que Neil Gaiman.
Na minha ótica, o melhor de DK reside justamente na primazia em deixar os anseios do protagonista um pouco de lado e apostar com sobriedade na figuração e nos coadjuvantes, conferindo voz e rosto aos protegidos de Batman.
E não são poucos os seguimentos que propõem igual silogismo, que seja nos justiceiros improvisados (entusiastas da cruzada de Batman), ou no funcionário espertalhão que somou um mais um e descobriu que Bruce Wayne não passa de um bon vivant de fachada, ou, quem sabe, na eventualidade das barcas*.* Que, diga-se de passagem, abre uma janela enorme para os cidadãos que não crêem na existência de um guardião sombrio.
Nada é gratuito. Nada se perde ou deixa de ser abordado (ou subentendido). Todo o elenco de suporte dança conforme a música do roteiro, roteiro este em stricto senso, embasado em minúcias que denotam até que ponto a produção foi para torná-lo crível a partir do incrível*.Exemplos ↔ (a) ↔ uma das poucas frases dirigidas por Alfred ao patrão dá a entender que nem mesmo ele (Bruce) conhece inteiramente seu passado. Isto fica um tanto evidente quando o mordomo narra a história “dos diamantes”, provavelmente remetendo-se ao período em que trabalhou para o serviço secreto britânico ↔ (b) ↔ a origem do Coringa é nebulosa como tem que ser, mas o monólogo que finaliza a cena do roubo ao banco parece ser um vislumbre da verdade que conhecemos ↔ (c) ↔ a ausência da caverna é justificada nos últimos minutos de Begins, com a “melhoria dos alicerces no canto sudeste”, algo que de certa forma tangencia com a decisão de deixar a mansão no fim da década de sessenta ↔ (d) ↔ o pacto de justiça** é reeditado de maneira tal que o êxito da trindade vem em dose cavalar, digo, 546 prisões ↔ (e) ↔ o recurso do sonar digital nos 30 milhões de celulares em Gotham guarda algumas similaridades com OMAC, mesmo que longe das vias do fato, mas que guarda, guarda.
* Na China, em vez de facilitarem as coisas com uma aeronave personalizada cruzando o globo, o que se sucedeu foi uma preparação logística impecável, providenciando-se álibi, engenhocas e rota de fuga ¹.
¹ Falando em fuga, por essa eu não esperava. O veículo pra macho mais desejado da década teve que autodestruir-se para dar lugar ao Pod, um módulo de fuga no melhor estilo “Akira”.
** Quebrado, precisamente no hospital, quando vemos um Harvey Dent de perfil pedindo a Jim Gordon que o lembre daquele velho apelido. O “Harvey Duas Caras” que se seguiu, fez com que o promotor revela-se a face desfigurada oculta. O que veio depois foi uma baforada criogênica em sete vértebras cervicais.
O Reverso >>>
Ainda que mantivesse contato diário com a escória, Bruce conseguiu vencer parte da escalada conservando-se íntegro, jogando extra-oficialmente com o sistema. A necessidade de “um Batman” parecia provisória, visto que os objetivos iniciais estavam se consolidando e um substituto à altura (Dent) começava a engatinhar.O surgimento do Coringa não é apenas frustrante, ele vai de encontro com todos os seus princípios e o faz despertar para a longevidade da missão. Pior, ao passo que a guerra ao crime provocava uma queda vertiginosa na criminalidade urbana, ela também parecia semear uma laia mais extrema de criminosos. Vencê-la* implicaria mudanças que o colocariam definitivamente em uma estrada sem volta.
Ventilar a possibilidade de incorrer no sexto mandamento bíblico seria apenas o menor dos problemas, a tentação que facilitaria as coisas, que o atormentaria crise após crise.
Algo que por sinal se tornaria um círculo vicioso degradante e inevitável.
* Será mesmo que houve uma vitória? Tantas perdas. Tanta destruição. Tantos axiomas deixados pra trás? Será?
A Ruptura >>>
A exposição do comissário ao filho sobre o que o amigo estaria predestinado a se tornar daquele dia em diante é de longe a maior declaração de amor que o personagem jamais sonhou ter. Chegávamos ao clímax de imperceptíveis 152 minutos de projeção, as palavras de Jim não paravam de ecoar no meu subconsciente e lá estava ele, um pária, um road warrior maltrapilho, tal qual como um Max Rockatansky, sem rumo, sem destino, só trevas, só trevas.Escrito por LUWIG
2 comentários:
basta ler o teu blog pra termos noção de quão fiel foi o filme aos quadrinhos, digo mais, foi mais fiel ao próprio batman antes de tudo! E fez jus à fama do coringa em um dos mais arquiteturados e sombrios vilões já criados, palmas para Heath Ledger, ele conseguiu recriá-lo com maestria!!!
E pra não deixar de elogiar, comentários infalíveis acerca do que acredito há tempos ser: o seu super-herói favorito...sorte do Batman ter fãs à sua altura!!!
Davidson
Execelente texto, parabéns. Eu não saberia descrever o filme de forma melhor.
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