Quinta-feira, Abril 09, 2009

No Rest, No Peace

Para os que conhecem Bruce Wayne pessoalmente, a idéia de ele ser a identidade secreta por trás do Batman não apresenta um obstáculo intelectual. Para qualquer outra pessoa, porém, essa idéia seria quase inconcebível. Isso, claro, é bem intencional. Batman precisa de Bruce Wayne. O dinheiro, a posição social, ambos são úteis. Talvez ele também precise de algo para forçá-lo a se envolver em contatos sociais costumeiros. Talvez Bruce Wayne seja uma fina linha de vida social, um guardião à beira de um abismo. O que imediatamente levanta a questão, Bruce Wayne é o Batman ou Batman ocasionalmente se mascara como Bruce Wayne?

Quem, afinal, é Bruce Wayne? Do que ele gosta? No que ele acredita? Se não é uma máscara para o Batman, não poderia ser considerado um tipo de escravo? Ele tinha oito anos de idade, oito anos para escolher um destino antes que este fosse estabelecido para ele. Para algumas pessoas, isso parece suficiente. Elas já sabem o que querem. Já estão formadas. Mas foi o suficiente para Bruce Wayne? Foi suficiente para fazer do Batman uma opção, mais que uma necessidade?

Para fazer o que faz, para ser quem é, Batman fez muitos sacrifícios. Com todo seu domínio sobre seu corpo e mente, ele é um homem que mal conhece o próprio coração. Durante anos, provavelmente não valia a pena conhecer. Durante anos deve ter estado cheio apenas de ódio e tristeza. Se isso mudou, porém, se agora há outros sentimentos se movendo por esse órgão vital, esses movimentos pertencem a Batman ou a Bruce Wayne?

É preciso um verdadeiro esforço para ele manter a persona de um diletante inócuo. É uma interpretação, a coisa toda – desde o vocabulário até a postura. Ainda assim, é inconcebível que ser o Batman possa ser a verdadeira natureza humana de alguém, não é? Batman também é uma interpretação: uma resposta calculada para – até mesmo uma construção feita para lidar com – o crime.

Então onde está o homem? Quem é ele quando não está ativamente manipulando a percepção do seu observador? O que significa isso para ele, se nem ele mesmo sabe? Existe uma vulnerabilidade aí? O perigo de se ver preso entre dois artifícios? Claro que ele está preparado para navegar por esses perigos potenciais, mesmo se seus segredos fossem revelados. Ele deve ter um plano de contigência.

Será suficiente, considerando as pessoas que conhecem seu segredo, que Batman esteja preparado para empregar camuflagem e falsas pistas em sua defesa? Será suficiente simplesmente esperar que eles não queiram agir, nem partilhar a informação? Ou existe alguma vulnerabilidade maior espreitando por trás da falha de Batman em esconder sua identidade mais exaustivamente? Será que essa falha corresponde a um desejo subconsciente de que, ao revelar seu segredo de uma vez por todas, alguém finalmente faça tudo fazer sentido para ele? Não haveria certo alívio em ouvir alguém revelar o segredo? Ao explicar o que sabe, será possível que um de seus inimigos consiga dizer ao Batman algo que ele próprio não entende?

Claro que ele não pode se dar a esse luxo e vai continuar a defender seus segredos com todos os seus recursos. No fim, não é por causa do homem; é pela missão. Isso também é parte do problema. A necessidade de manter a missão. Encontrar uma forma significativa de interagir com a sociedade e a socialização é um dos passos do autodesenvolvimento. Aliás, é um passo tardio. Deve ocorrer depois da individualização e do desenvolvimento interpessoal. E se, em vez disso tudo, Bruce Wayne só tem uma veste? O que aconteceria se, sob o traje, algo em Bruce Wayne estivesse começando a mudar? Algo confortável. Algo nutriente. O que aconteceria se, depois de todo esse tempo, Batman estivesse ficando contente? Para o Batman, contentamento seria uma fraqueza tremenda.

De qualquer forma, não há dúvida de que a inclusão de Robin mudou tudo para Batman. O que foi concebido como um exercício vitalício em tristeza e vingança ativas tornou-se mais que isso. Pode-se planejar uma vida inteira como resposta a uma reação a uma tragédia. Mas não se pode ensinar outra pessoa a viver dessa forma. O próprio ato de ensinar muda a natureza do que está sendo ensinado. Os alunos vêm com suas próprias motivações para aprender, portanto não se pode ensiná-los a adquirir os seus ferimentos, só se pode ensinar o que se fez quando se começou a sarar.

Por ele ser quem era – ou talvez pelo que Batman era para ele –, a missão, na visão de Dick Grayson, parecia diferente. No seu cerne, a luta de Batman se origina da angústia e – vamos admitir – numa quase infantil determinação de poupar qualquer outro da sua tristeza. Mas os que ele treinou, em seus interiores, lutam por gratidão, devoção e esperança. Ele quer que saibam. Batman quer que saibam o quanto isso significa para ele.

Repeat, Please!

Digressões curiosas, não? Vai confessa, até te lembra um escocês careca, gótico e falastrão, concorda? Errado, a efusiva em tela foi construída no começo da década pela única mulher a capitanear um título regular do morcego em toda sua trajetória: Devin K. Grayson (ou Jennifer Eisenmann) que, diga-se de passagem, fazia da extinta ‘Batman: Gotham Knights’ uma das leituras mais prazerosas daquele período, destacando-se até mesmo entre as ótimas histórias de Greg Rucka e Ed Brubaker à frente respectivamente de ‘Detective Comics’ e ‘Batman’.

Fato é que no meu âmago achei deveras repreensível a atitude de Grant Morrison de sair por aí massageando o próprio ego com resgates conceituais da era de ouro e prata e esquecer-se justamente de citar nas diversas incursões que fez em 2008 à mídia especializada destas passagens tão específicas e tão contundentes de Batman: Gotham Knights #08-11 (Batman Premium #17 pela Ed. Abril), que em verdade são o arcabouço de RIP (Rest in Peace) em Batman #676-681.

Claro que os contos de Morrison estão sempre envoltos de pompa, fragmentação lynchiana e muita, muita pretensão revolucionária, mas dessa vez não precisa ir muito longe para reconhecer que o que fez em RIP foi que no lugar de suprimir o euBatman” dando lugar tão só ao euBruce Wayne” em estado bruto (como Devin fez no arco Transferência), ele fez o contrário, tirou o euBruce Wayne” da equação e deixou apenas o euBatman”, no caso a identidade backup, o “Batman de Zur-Em-Arrh”.

O diferencial do maluco de kilt aqui é o intrincado cenário estabelecido a conta-gotas desde que alçou vôo em Batman #655, especialmente a partir da #667-669 (no arco O Clube dos Heróis) trazendo do limbo do esquecimento algo que se o nosso Deus ex-machina em questão tivesse o bom senso (e agradeço por não tê-lo), deixaria repousando em paz nas paragens de Immateria.

Por sinal, foi exatamente nesse trecho que surgiu o único que capturou a essência do que Morrison tinha em mente, alguém habituado a transpor para a celulose o impossível (vide Promethea), alguém como J. H. Williams III.

Isto porque dada a natureza da idéia de remir toda a macro-cronologia do personagem, reavendo diante de perspectivas mais sérias o passado camp/infantil/psicodélico®, só antevejo o referido artista e Alex Maleev (por conta de sua atuação no arco Era de Ouro em Daredevil #66-70) como os aptos a ilustrar de forma elegante as variações estéticas de traço, cor e textura dos flashbacks. Penso que isto também deve ter passado pela cabeça de Morrison quando entregou o projeto ao lápis pouco inspirado de Tony Daniel.

Contudo, algumas ótimas sacadas do roteiro compensam as limitações do ilustrador, como o fio condutor do enredo que nos apresentam as circunstâncias de um passado há muito esquecido onde Bruce se alistou num experimento de medicina espacial* com o intuito de submeter-se a alucinações e psicopatias para reproduzir e entender o funcionamento da mente do Coringa. Sem mencionar as insólitas aparições do Batmirim, o último eco da razão, a âncora que lhe segura à realidade.

* Qualquer semelhança com o ritual de Thögal que se submeteu em 52 não é mera coincidência.

A corrente majoritária defende que a trama é confusa e hermética por demais; a minoritária, no caso a minha, afirma que tudo depende da forma como se lê o quadrinho, se porventura a sua leitura se dá no nível mensal da coisa, pare agora mesmo. O ideal é guardar todas as edições e degustá-las numa fornada só*, da #655-658 e #663-683 e seguindo imediatamente até Final Crisis #06.

* Isto é, se você não fizer algumas pausas estratégicas no Google e na Wikipédia.

Veja, não estou relativizando o clímax desta última, pelo contrário, o acontecido excedeu a prometida “desconstrução psicológica do morcego” e partiu para um nível supostamente seminal, filosófico, quando Bruce foi atingido pelo efeito ômega de Darkseid após alvejá-lo com o mesmo projétil que feriu mortalmente Órion.

Segundo Morrison, a raiz do mito do Batman está nas balas e na arma que o criaram. Então ele estaria finalmente completando esse grande círculo ao empunhar uma arma e disparar balas contra a própria encarnação do mal. Suas últimas palavras “te peguei!”, referiam-se ao fato de que finalmente ele conseguiu ter o deus do mal em sua mira – e o matou (ou quase isso). "Essa era a missão dele o tempo todo, desde a primeira bala. Batman tem senso de humor e é mais esperto que Darkseid (veja 01-02-03).

Discordo, e não só desse raciocínio como também da execução do mesmo, plantado de pára-quedas em meio ao cliffhanger da #681 e complicando um bocado a ordem de leitura, visto que as próximas (e últimas histórias do roteirista), a #682-683, sucedem Final Crisis #02, precisamente o cárcere e a fuga de Batman da fábrica dos asseclas de Darkseid. A resolução conduz o leitor ao cataclismo* da #06 e dita o ritmo furioso da #07, cujo enigmático epílogo revela o verdadeiro destino de Bruce: o início dos tempos.

Não culpo Morrison por toda essa bagunça, pelo contrário, o que faltou foi feedback entre Mike Marts, o editor da revista mensal, e sua contraparte, Eddie Berganza na minissérie. Faltou direcionamento e o jogo de cintura que editores competentes e persuasivos têm como ganha pão, sugerindo sem intervir criativamente na coisa. Aliás, me parece que existe uma carência generalizada desses profissionais na DC Comics.

* Uma coisa que não vi ninguém questionar: o que aconteceu com este cadáver? Não deveria rolar alguma espécie de comoção por parte da comunidade superheróica ou algo do tipo? Será que a coisa foi tão nonsense assim ao ponto de desconsiderarem por completo o defunto? E mesmo Bruce Wayne, uma figura pública, filantropo e playboy de carteirinha, sumir sem qualquer cobertura da mídia, respaldo nos tablóides ou mesmo entre os executivos de suas empresas? Difícil de acreditar e mais ainda de se conformar, afinal estamos no Universo DC e não no Marvel.

Awake

Gotham é uma cidade implacável e deveras sensível a estímulos externos, qualquer ausência de seu guardião maior dá margem para a ação de bandidos oportunistas ou guerra entre gangues para demarcação de território. Nas ruas, a “paz” é um termo abstrato, algo vivente nas idéias, sem base material alguma, apenas uma linha tênue regulada de tempos em tempos por tímidos armistícios.

O Batman está fortemente inserido em algum meio-termo desta linha fazendo parte do folclore local como ferramenta sociológica daquele povo, algo que lhes confere a sensação de segurança que o poder público não consegue prover. Diante desse cenário, seria razoável supor que um sucessor não representaria apenas a manutenção de um legado, mas sim a própria salvaguarda das instituições de um Estado de Direito. O espírito seria mais ou menos esse se Battle for the Cowl não fosse um carro-chefe guiado (ou seria desgovernado?) por aquele mesmo ilustrador medíocre de outrora (o Tony)ou não, vai lá entender...

O cerne da questão é que, bem ou mal, sairá desta minissérie (em três edições) o substituto e a julgar pelos indícios, deve ser novamente* Dick Grayson e como auxiliar (Robin), o irascível Damien. Se isso vai vingar, também não sei, o que sei é que delegar tal tarefa a outros que não o próprio Morrison é um risco e tanto, visto que o sucesso desse material depende exclusivamente da forma como se lapidará o “novato”. Tome como exemplo o caso de Ed Brubaker e a construção meticulosa do personagem de James Buchanan Barnes (o Bucky) até ocupar o posto de Steve Rogers como Capitão América.

* Por cinco minutos, ele assumiu o manto no distante arco noventista, Filho Pródigo.

Outra medida reprovável foi a de, a princípio, paralisar a publicação de Detective Comics e Batman por três meses, enxugar títulos regulares quirópteros cancelando Asa Noturna, Robin, Mulher-Gato e Aves de Rapina e imediatamente depois provocar uma verdadeira avalanche de lançamentos duvidosos com overdoses de mais do mesmo (no que toca as minisséries e as histórias curtas). Confira:

TRÊS MINISSÉRIES >>>

Battle for the Cowl #01-03 (por Tony Daniel entre Março-Maio)
Azrael: Death's Dark Knight #01-03 (por Fabian Nicieza & Frazer Irving entre Março-Maio)
Oracle: The Cure #01-03 (por Kevin Vanhook & Julian Lopez entre Março-Maio)

SETE ONE-SHOTS >>>

Battle for the Cowl: Commissioner Gordon (por Royal McGraw & Tom Mandrake em Março)
Gotham Gazette: Batman Dead? (por Fabian Nicieza & Vários em Março)
Battle for the Cowl: Arkham Asylum (por David Hine & Jeremy Haun em Abril)
Battle for the Cowl: The Underground (por Chris Yost & Pablo Raimondi em Abril)
Battle for the Cowl: Man-Bat (por Joe Harris & Jim Calafiore em Abril)
Battle for the Cowl: The Network (por Fabian Nicieza & Don Kramer em Maio)
Gotham Gazette: Batman Alive? (por Fabian Nicieza & Vários em Maio)

PÓS-BATTLE FOR THE COWL >>>

Detective Comics #854 (por Greg Rucka & J. H. Williams III a partir de junho)
Batman #687 (por Judd Winick & Ed Benes a partir de junho)
Batman and Robin (por Grant Morrison & Frank Quitely a partir de junho)
Red Robin (por Chris Yost & Ramon Bachs a partir de junho)
Batman: The Streets of Gotham (por Paul Dini, Mark Andreyko & Dustin Nguyen a partir de junho)
Gotham City Sirens (por Paul Dini & Guillem March a partir de junho)
Batgirl*

* A equipe criativa desta última nem sequer foi revelada e esse título já me causa arrepios, será mesmo que tomaram coragem e vão mesmo subverter o que houve de pior na Piada Mortal de Alan Moore & Brian Bolland?

Quanto ao que está ocorrendo ‘Whatever Happened to the Caped Crusader?(em Batman #686 e Detective Comics #853), faço minhas as palavras do Érico, trata-se da “convergência dos fãs de Morfeu com os fãs de Batman”, um misto quente entre Fim dos Mundos e Despertar só que no lugar da taberna e o Sonhar, temos o Beco do Crime e Gotham como palco de um velório* pouco convencional. Pena que o segundo capítulo está atrasado e só deve chegar, com muita reza, nas próximas duas semanas.

* Nada corrobora para que o corpo neste caixão seja aquele que o Clark segurava em seus braços, nem mesmo o plano existencial, visto que a intriga parece se desenrolar à parte dos acontecimentos recentes.

Por fim, como se pode perceber, o segundo semestre será marcado por uma nova inversão do status quo, se será benéfica ou não, só o tempo dirá, certo é que ao menos temos pela frente três grandes promessas: (1) o aguardado projeto de Rucka & Williams III com Kate Kane (Batwoman) em Detective Comics; (2) em Streets of Gotham, Dini incidirá sobre o Batman, do ponto de vista dos civis, heróis e vilões locais, premissa esta que, não custa lembrar, curto demais; e (3) o quarto (Batman and Robin) e quinto volumes (?) do que Morrison chama de seu "grande épico" para o morcego e deverá pontuar seu regresso da idade da pedra.

Harry Houdini deve estar se revirando no túmulo.

Escrito por LUWIG

2 comentários:

Hiroshi disse...

Fantástico. como sempre.

Hiroshi disse...

Lancei um post com os 3 primeiros parágrafos e um link para cá. Creio que não se incomode...