Segunda-feira, Outubro 12, 2009

O Complexo do Nº. 01

Vamos lá, 1, 2, 3, testando, som, som, ok. Beleza, parece que ainda funciona. O que houve comigo? Minha vida andou novamente aprontando das suas, mas não é por ela que você está aqui, hã? Foi o que imaginei, sem perda de tempo, vamos botar o papo em dia.

De nossa última transmissão até o encerramento deste último exílio o mundo resolveu finalmente extirpar a Pixel do mercado editorial tupiniquim e consolidar o monopólio da Panini no Grand Slam dos quadrinhos. Se isso vai ser bom ou ruim, pior não pode ficar. Afinal, o grupo editorial italiano aprendeu na raça como domar os ânimos dos leitores brasileiros, num ritmo embora progressista, deveras conservador, na velocidade constante de dois passos à frente e um para trás.

Preço na verdade não é minha preocupação principal no momento, visto que eles, de um jeito ou de outro, são historicamente impraticáveis. O que tira meu sono é algo tão simples e muito pouco discutido: a maldita regularidade, um problema comum tanto no curto reinado da Pixel como no longevo da Panini.

Tomando como referência apenas os coitos interrompidos que me afetaram, temos na primeira: (1) o 'Monstro do Pântano' e a 'Promethea' de Alan Moore; (2) 'Os Invisíveis' de Grant Morrison; (3) as '100 Balas' de Brian Azzarello & Eduardo Risso e (4) a 'Astro City' de Kurt Busiek, de resto a raiva foi distribuída na péssima execução dos dois títulos mensais.

Já na segunda, me dá ânsia de vômito quando penso na interrupção de 'XIII*' faltando apenas um fascículo pra fechar a coleção; a 'Mulher-Maravilha' de George Pérez que teve publicado** apenas a primeira (Deuses e Mortais) de suas quatro compilações (Desafio dos Deuses, A Bela e as Feras e O Chamado do Destino); o mesmo vale para a interrupção dos ‘Novos Titãs’ de Marv Wolfman & George Pérez, deixando de lado clássicos absolutos como o visceral primeiro encontro com o Irmão Sangue ou o Contrato de Judas; irrita o silêncio sobre os Volumes 2 e 3 de ‘Batman Preto & Branco’, 2 e 3 de ‘Batman Ilustrado por Neal Adams’ e os demais de ‘Starman’, álbuns estes lançados respectivamente em março, julho e novembro de 2008; sem falar do banho de água fria que o editor Levi Trindade deu nos leitores à cerca do prosseguimento da ‘Liga da Justiça por Grant Morrison’ na seção de cartas de Liga da Justiça #82 com um belo “não quero desapontá-lo, mas não está em nossos planos no momento”.

Sobre a interrupção da revista ‘Universo DC’ na #15 e, por conseguinte do Xeque-Mate na #16, o retrospecto não me deixa mentir, os quinze números restantes da série deverão mesmo ficar imortalizados nas versões digitalizadas dos bucaneiros virtuais.

* Sobre este, mês passado enviei um e-mail suicida para a seção de cartas da Liga da Justiça com o seguinte conteúdo: “Olá, Levi! Corrija-me caso incorra em erro, mas as capas principais de Crise Final não saíram originalmente com as artes do J. G. Jones que foram alocadas nas costas das revistas? Por que cargas d água então optaram por fazer o inverso? Outra. Vacilo o que fizeram com Trindade, visto que a capa tripla em mosaico do Carlos Pacheco virou "dupla" e deixou de lado a Mulher-Maravilha. Na boa? Poderiam tê-la reproduzido verticalmente, como fizeram com a mesma arte em páginas de publicidade em outros títulos. E pra fechar o 'puxão de orelha', lembra que já estive por aqui na edição #58 (setembro de 2007)? Lembra daquele meu temor? Não? Vou refrescar sua memória, à época te questionei, já que era editor também da linha européia, se a Panini havia assumido o compromisso de publicar o clímax de XIII, visto que os álbuns #18-19 seriam lançados em novembro daquele ano no Velho Mundo e, aqui, eventualmente seriam no #10. Sua resposta: "Sobre o desmemoriado agente XIII, estamos esperando a publicação do material lá na Europa para poder dar continuidade por aqui". Mas e aí, te pergunto, precisamente dois anos depois, o que houve? Devo recorrer ao expediente da "importação" ou devo seguir com minha coleção incompleta, sendo tão paciente quanto Jó?

Pergunta retórica: alguma chance de vê-lo publicado? Pouco provável, as seções de cartas de todas as revistas têm um nível baixíssimo de discussão e só servem para os sabichões piolhentos, bajuladores e fanboys das antigas relatarem que estão de volta na área.


** Num primeiro momento em ‘Grandes Clássicos DC #2’ (maio de 2005) e exatos três anos depois numa versão pomposa da malfadada ‘Biblioteca DC’ (maio de 2008).
 

Certo é que a nova revista mensal ‘Vertigo’ está às vias de estrear em bancas e a primeira leva de encadernados nas livrarias e lojas especializadas. Garanto pelo menos a aquisição do título regular e o livro um de ‘Y’, e ainda assim voando às escuras, mas deixo pra mais adiante (otimista, hein?)Freqüência Global’ quando (e se) sair o volume dois (dos dois). Quanto à ‘DMZ’, não obstante ser um fã fervoroso não só da referida série como da produção autoral de Brian Wood, esta será uma coleção que dificilmente terá outro destino que não o abandono, dado ao luxo desnecessário, o público irrisório e o absurdo de se pagar o dobro (R$ 36,90) do que se paga por ‘Y(R$ 16,90) com a mesma quantidade de histórias (5).

Post Mortem

Não sei dizer se o mesmo ocorrido se repetiu nas demais unidades da rede de supermercados Bompreço, mas o fato é que as duas de minha cidade estão vendendo praticamente todos os encadernados da Pixel a preço de banana. Só pra se ter uma noção, coloquei na sacola: ‘Fábulas Vol.1 – Lendas no Exílio’ de R$ 32,90 por 9,90;Dias da Meia-Noite' de R$ 49,90 por 14,90;Stardust’ de R$ 49,90 por 14,90;Wildcats’ de Alan Moore Vol.1 de R$ 29,90 por 9,90 e o Vol.2 de R$ 36,90 por 14,90; e ‘Constantine: Hábitos Perigosos’ de R$ 37,90 por 14,90.

A pechincha foi absurda, mas por muito pouco não trinquei os dentes quando vi aquela mesma ‘Saga do Monstro do Pântano’ de Alan Moore que me fez em junho de 2007 desembolsar preciosos R$ 54,90 por 9,90.

“Arrasta-me para o Inferno”

Desde que Frank Miller & David Mazzucchelli abandonaram a nau do Demolidor na fatídica ‘Queda de Murdock’ com Matt na bancarrota, tendo o registro de advogado cassado, a identidade secreta comprometida e de quebra de conhecimento de seu arquiinimigo, Wilson Fisk, parece que se tornou uma espécie de tradição a ingrata tarefa das equipes criativas que herdam o título de desenvolver as nada auspiciosas propostas* dos antecessores.

* Difíceis, para dizer o mínimo, e num estado das coisas praticamente inóspito.

Nesse caso em específico, a batata quente foi parar nas mãos de Ann Nocenti e um John Romita Jr prestes a refinar seu estilo com um traço vigoroso e repleto de experimentalismos até então inéditos para a época. Se isto vale de alguma coisa, é o melhor trabalho do Júnior em toda sua carreira (pronto, já disse!).

Foi nesse período* em que Murdock se encheu do mundo e resolveu cruzar o país numa viagem de desforra, melhor que isso, foi alvo de apostas de Mefisto e seu rebento, Coração Negro, e protagonista de encontros pouco convencionais com os mutantes da Força Federal, os Inumanos, Ultron e até mesmo o Surfista Prateado.

Pena que ficou um tanto marcado pelo ativismo ecológico, feminista e o diabo a quatro da roteirista, algo que, portanto dividiu opiniões da pior maneira possível, ou seja, inviabilizando as coletâneas** que porventura viriam ao conhecimento das próximas gerações, quem sabe, um público de mente mais aberta. E irônico ou não, a temática ainda é pontual paca, diferente de boa parte da produção oitentista que é tão datada que cheira a mofo.

* Durante muito tempo foi impossível separar do meu imaginário o Nick Parker de Rutger Hauer em Fúria Cega (Blind Fury, 1989) e aquele Matt Murdock de Ann Nocenti.

** Pelo que me consta, só saiu uma, com as histórias que apresentam a vilã Mary Tifóide.

Falando nisso, o grupo ‘Daredevil BR’ tem feito um trabalho primoroso digitalizando estes quadrinhos e preenchendo as lacunas (ou “cortes” para os íntimos) da saudosa Superaventuras Marvel. Acertando a conta, são vinte e nove edições: #250 /251 /252 /253 /254 /255 /256 /257 /259 /260 /261 /262 /263 /265* /266 /267 /268 /269 /270 /271 /272 /273 /274 /275 /276 /278 /279 /280 /281 /282.

* A única ainda “inédita”, mas logo deve ser igualmente disponibilizada pelo grupo.

Indo mais adiante, precisamente no clímax da famigerada passagem de Brian M. Bendis, o caldo entornou bonito para o homem sem medo. A brecha na dupla identidade foi às favas e se tornou de domínio público, pior, sofreu um revés de algumas personas non gratas do FBI, arcando com a responsabilidade por manipular anos a fio o sistema judicial com as ações do “Demolidor”. No fim, fora encarcerado e abandonado a própria sorte na Ilha Ryker.

E aqui cabe uma pequena confissão de minha parte: mesmo com a dupla de transição, Ed Brubaker & Mike Lark, que vale destacar, já os admirava desde os tempos de Batman e Gotham Central, temi um bocado que o demônio da Cozinha do Inferno rumasse para um cenário similar ao de Peter Parker em ‘Um dia a mais’.

Felizmente, não foi o caso, muito pelo contrário, o controle de danos saltou aos olhos nos dois próximos arcos, ‘O Demônio do Pavilhão D’ e ‘O Passeio do Demônio’, permitindo que o ventilador a plena carga arejasse as toneladas de matérias fecais deixadas para trás.

Depois da tempestade, a calmaria? Talvez para os fracos. Fato é que o complicado e vasto histórico de Matt com o sexo oposto ganhou, quem sabe, um dos adendos mais trágicos com o inevitável confinamento de Milla Donovan em um sanatório após o intenso embate psicológico travado entre o marido e Larry Cranston (Sr Medo). Como desgraça pouca é bobagem, a carne é fraca e a saborosa Dakota North estava ali de bobeira, rodo nela. Sexo sem culpa? Não nas melhores novelas mexicanas.

O interessante é que mesmo com uma reputação dessas, seja intra/extra Marvel, quem sempre levou o maior mérito (ou demérito) pelas intermitentes excrescências de sua vida pessoal fora o aracnídeo plantonista do tio Stanley. Que ninguém me escute, mas perto da vida que Matt sempre teve, foi sacanagem o Mefisto ter mexido uns pauzinhos apenas para o Pete.

Mas claro, não nos esqueçamos dos vilões, no caso um Tentáculo fragmentado e buscando desesperadamente o restabelecimento de sua unidade na figura de um líder (por conta do ocorrido em Wolverine: Agente da S.H.I.E.L.D de Mark Millar & John Romita Jr.). E quem seriam os candidatos finalistas? Ninguém menos que o mais ilustre morador da Cozinha do Inferno e um irreconhecívelRei do Crime”.

Foi nesse compasso que o Maestro Brubaker regeu os minutos finais de sua sinfonia demoníaca, seja colocando os primórdios dos Virtuosos na equação com a figura do controverso Mestre Izo (Sensei de Stick), seja reafirmando Fisk no alto escalão dos antagonistas marvetes.

Improvável? Nem tanto, contudo foi um clímax conciso, redondinho, daqueles desconstruídos com precisão, como a fileira alinhada de dominós e o abraço gélido do destino, realocando nosso deficiente visual preferido num círculo do inferno mais adequado as suas recentes façanhas. Sem dúvida uma bela maneira de tirar o seu da reta e desafiar o infeliz do Andy Diggle a fazer melhor.

O que embora duvide, torço para que o faça. Sua vitrine pessoal é um tanto mediana, mas o habilita a empreitada, afinal temos o excelente ‘The Losers’ pela Vertigo (prestes a migrar para a 7ª arte), a subestimada minissérie de ‘Adam Strange(8 edições, 2004) e os ‘Thunderbolts(pós-Warren Ellis), este último com a colaboração de Roberto De La Torre, o mesmo que arcará com a arte interna de Demolidor. As capas ficam a cargo de Esad Ribic (Loki e Surfista Prateado: Réquiem). Por sinal, dois artistas pra lá de talentosos.

Bem, e aí? Podemos concluir que o demônio ousado está em boas mãos? A sentença admite duplo sentido e por enquanto nenhuma resolução. Deixemos a coisa fluir.

Escrito por LUWIG

0 comentários: