Segunda-feira, Outubro 26, 2009

As Mulheres dos Outros

Do que as mulheres gostam? Mel Gibson talvez saiba, mas a esmagadora maioria dos outros proprietários de cromossomos “y”, por não terem tal resposta, sofre os dissabores e os ímpetos de fúria do sexo oposto. Naqueles dias, um “nada” que habitualmente já é um universo em constante expansão, transforma-se instantaneamente em um multiverso de possibilidades, graças à maldita “sangria*”.

Na 9ª arte, por anos a fio, a mulher, com raríssimas exceções, foi invariavelmente o mesmo personagem, uma acéfala démodé esculpida as margens das leis da física como objeto de fetiche da molecada aficionada pela justiça praticada com as próprias mãos. Repetido a exaustão, o arquétipo ganhou status de clichê e vem, por uma ironia do destino, perdendo a passos largos sua força para as potrancas de verdade, ferradas da cabeça, espirituosas e perigosamente cativantes.

* Que o velho bastardo perdoe o trocadilho e também aqueles bufões do Twitter.

Não estou defendendo a “celulite” como um catalisador de idéias, na verdade nem cheguei a cogitar tamanho despautério, afinal de contas, uma figura curvilínea sempre será um colírio para os olhos, o que quero dizer é que uma mesma Emma Frost pode conciliar entre suas particularidades tanto a volúpia quanto um intelecto mais avantajado.

Aproveitando a deixa, merece uma profunda digressão o último alicerce intacto da Era Morrison, o breve triângulo amoroso formado por Scott, Jean e a referida Rainha Branca. Aí vai uma verdade inconveniente, a loira fatal eclipsou por completo o efeito fênix de Jean Grey, tanto que não há hoje qualquer clamor por seu ressurgimento das cinzas. Mais que isso, a influência da aristocrata revolucionou o líder mutante, privando-o de fantasmas, inibições, e as restrições advindas da perfeição da esposa que inconscientemente repercutiam em campo, ou mesmo nos bastidores da ação.

Um amor juvenil, idealizado demais para ser real, deu lugar a variante do amor que pode funcionar entre adultos, moldado na aceitação* dos defeitos mútuos e no poder de se surpreender dia após dia. Com Jean, verdade seja dita, tudo passou a ser miseravelmente previsível, dadas as grandes expectativas que poderia se esperar de sua parte, com a cumplicidade de Emma, Scott pegou no tranco e fez a maior de todas as descobertas: conheceu a si próprio.

Enfim, Jean está para “Vada Sultenfuss”, assim como Emma está para “Mrs. Robinson”.

* Alimentada num contexto de insinuações de toda sorte e reiterados segredos de ambas as partes, é que se deu em ‘Dark X-Men: The Confession’ a tão aguardada conversa entre Scott & Emma. Impecável, contudo repleta deles.

A máxima de que “por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher” instila todo tipo de discussão na vida real, e nos quadrinhos não pode ser diferente. Inclusive, por diversas vezes meus ouvidos foram bombardeados pelas elucubrações de um velho amigo, doutorando em História pela UFCG, o Yuri Saladino, a respeito da analogia entre o dito em tela e o matrimônio de Clark Kent & Lois Lane.

A controvérsia nasce do fato de que a ilustre jornalista geralmente se torna um obste ao crescimento do kryptoniano, ancorando o personagem numa realidade insípida, mundana e dificilmente inovadora, tanto que pode se contar nos dedos as ocasiões em que o casal alcançou algum nível de interação benéfica aos enredos. Biologicamente falando, é uma relação tão fatalista quanto o eterno dilema do clã dos MacLeod, trocando em miúdos, ou ela morreria em decorrência de um* ou dois danos colaterais, ou se a vida fosse generosa, ficaria toda enrugada e sujeita aos desígnios da mortalidade.

* Isto é, se um dia admitirmos a coexistência científica (e pacífica) entre a fisiologia humana e a kryptoniana.

De um jeito ou de outro, entraria a Princesa Diana de Themyscira, na nossa ótica, a única apta a suportar calibres pesados e, claro, chegar a um denominador comum no que atine a questão fértil da coisa. Como? É mágica*, não temos que explicar isso, hã?

Tal eventualidade foi revisitada recentemente nas páginas finais da antológica ‘Justice Society of America #22’, acrescendo, quem sabe, o epílogo definitivo de Reino do Amanhã (Terra-22), um emocionante vislumbre do que seria a vida conjunta do Super-Homem & Mulher-Maravilha nos mil anos seguintes. Mesmo os simpatizantes da causa de Lois, devem ter sentido baforadas criogênicas® com o poder de tamanha conjectura. Algo a se pensar em futuras reedições da obra.

Pena que na Terra-1, o ato não deverá se consumar nem em mil anos...

* Nem sei se isso chega a ser uma hipótese, todavia como Diana foi esculpida do barro a partir da magia e a magia anula/embaralha os dons de Clark, sabe-se lá como, deve sair algo daí. No mesmo raciocínio, e dada à vulnerabilidade em exame, suponho que o mínimo contato com ela deve ser uma experiência extra-sensorial e tanto para ele.

”Não Cobiçarás a Mulher do Teu Próximo”

Dada a abrangência e complexidade do tema, seria impossível esgotá-lo nessas ou em quaisquer outras linhas. Qual seria então minha proposta? Simples, trazer à tona apenas cinco enfoques de cinco criadores diferentes e passar o bastão para cinco outros amantes latinos.

O critério poderia ser o mesmo utilizado nessa birosca, mas nada impede que os incautos migrem para formatos similares, como cinema, desenhos animados, literatura ou seriados. É o espírito público do “MEME” dando as caras novamente por aqui.

Os “intimados” são: (1) o Alan Alcofa Farias do Alcofa Millenium; (2) Doggma do Black Zombie; (3) Marlo do Catapop; (4) Renato Félix do Boulevard do Crepúsculo; e (5) o Sandro Cavallote do All-Star Velho.

Podemos começar?

As Mulheres de Greg Rucka

O trato com o sexo oposto é um traço deveras marcante no modus operandi de Rucka. Seja nos seus romances, seja nos quadrinhos, o perfeito timing com as idiossincrasias femininas conferem ao autor o dom de materializá-las não só tridimensionalmente, mas em caráter de exclusividade, o que pode parecer fácil e não o é, sendo os anseios, defeitos e trejeitos de uma muito diferente das outras.

Na arte seqüencial, suas maiores intérpretes são Sasha Bordeaux (Check-Mate), Kate Kane (Detective Comics), Carrie Stetko (Whiteout), Tara Chace (Queen & Country/ Jogos de Poder) e Renee Montoya (Gotham Central). Nos três últimos casos, a atuação delas se converteu em três premiações no Eisner Awards de 2000, 2002 e 2004, respectivamente como melhor minissérie (Whiteout: Ponto de Fusão), série nova (Queen & Country/ Jogos de Poder – Operação Terreno Partido) e pelo arcoMeia Vida’ em Gotham Central #6-10 (DC Especial #8).

Particularmente, simpatizei bastante com o tour de force desempenhado por Sasha em ritmo de via crúcis, durante o período pré e pós ‘Bruce Wayne: Assassino/Fugitivo’. No final, ela sobreviveu relativamente ilesa a desastrosa incursão ao coração do morcego e, de quebra, saiu de cena cheia de moral rumo ao Xeque-Mate.

As Mulheres de Brian K. Vaughan

Fato. Ninguém foi tão afundo no universo feminino quanto Vaughan em ‘Y: The Last Man’. O que poderia ter se tornado apenas um thriller pós-apocalíptico genérico, tornou-se um compêndio pop do que seria do mundo sem nossa tão difamada testosterona.

Tem mulher para todos os gostos, desde espiãs/assassinas profissionais, geneticistas lésbicas, lunáticas auto-intituladas amazonas, antropólogas e astronautas perdidas, ex-modelos e atuais lixeiras, irmãs e aeromoças traumatizadas, freiras desesperadas, governantes por tabela e oficiais do exército por exclusão, ninjas traiçoeiras e doses cavalares de muita, muita tensão pré-menstrual.

As Mulheres de Brian M. Bendis

Acredito que Jessica Jones é a voz dessa geração. Convenhamos, o que faz dela tão especial? Pesaria na relação custo/benefício aquele vocabulário tão diversificado quanto pútrido? Seria a insegurança crônica, adquirida durante os oito meses em que perdeu o livre arbítrio sob a possessão de Zebediah Killgrave (Homem-Púrpura), parte de seu charme? Ou, vá lá, porque seria um imã compassivo para perdedores devido ao desleixo com a aparência, a melancolia e os episódios de autodestruição?

Certamente a autenticidade é um ponto a favor, mas só quando não é associada à sinceridade intrínseca, se o for, aí já viu, ferrou. O que não se discute é que Jessica Campbell Jones Cage é de longe a personagem mais intrigante e paradoxal de toda a Marvel. Talvez não tenha se dado conta disso, mas é possível senti-la se mexendo, comendo, respirando, insultando, fumando ou fazendo amor através da celulose. Basta abrir o coração.

As Mulheres de Brian Wood

As fêmeas de Wood são do tipo que deixam uma marca indelével onde quer que estejam ou com quem estejam. Na maioria das vezes são coadjuvantes que roubam a cena ou funcionam como gatilhos de transição para os protagonistas. Detalhe, todas fogem ao controle criativo do autor, prova disso são os testemunhos do próprio após cada capítulo de ‘Local’ sobre a metamorfose ambulante chamada Megan McKenna. Um trabalho tocante que merece um “local” de destaque no meu (ou no seu) ranking pessoal.

Cabe aqui um adendo especial para a estudante de medicina de 'DMZ' (ou ZDM), Zee Hernandez e a escocesa selvagem de 'Northlanders' (Nórdicos), Enna. Duas sobreviventes de mãos cheias, que vivem em meio a hostis e que por uma confluência de circunstâncias passam a inspirar os machos alfas da publicação, nesses casos, respectivamente, Matty Roth e Sven.

As Mulheres de Garth Ennis

Se os brutos também amam, é de se esperar que um patife de hábitos tão perigosos quanto os de Garth Ennis também possa. E quem diria, estamos lidando com um romântico enrustido, com sensibilidade suficiente para fugir aos estereótipos que o consagraram e ousar no infrutífero ramo das almas gêmeas.

Ao contrário do que se poderia imaginar, seu empreendimento foi dos mais rentáveis e alcançou a façanha de conceber não apenas uma, mas duas primas donnas. Estou falando de Kit Ryan, a única pessoa no globo terrestre que fez o que entidade sobrenatural alguma fora capaz, obliterar a alma de John Constantine. Como? Dando-lhe o senhor de todos os foras. O resultado pôde ser conferido no arco Tainted Love/Amor Espúrio (Hellblazer #68-71), ou seja, o fundo do poço para o mago de Liverpool. E claro, Tulip O’Hare, a diva que fez Jesse Custer ir até o fim do mundo em Preacher.

Kathryn O’Brien também não é de se jogar fora, ainda mais se levarmos em conta o inesperado armistício de quinze segundos forçado pelo fruto de suas rapidinhas com o Frank (em Punisher Max). Acredite, se em três décadas de matança alguém titubeia assim, com uma contagem de mais de quatro dígitos de corpos nas costas, vai por mim, a coisa foi bastante séria.

A Minha Mulher

Seria a 6ª? Não meus caros, esta é a 1ª de todas, é a minha senhora, minha Kaline. O que temos, parafraseando (um pouco) o Sven de 'Northlanders', é algo mais forte do que o amor. Uma ligação devido às experiências e adversidades compartilhadas, forjada em tempos ruins e climas tensos. Duas pessoas encarando a vida e seus socos*, lado a lado. Não é um amor romântico, daqueles cantados pelos poetas, mas é o que temos. O que temos agora. O que mais posso dizer? Que no linguajar “Lost” ela seria minha “constante”? Ou que diante do “Fato Flash”, nossos laços seriam o que me faria regressar da Força de Aceleração?

É meus amigos, fazer o quê, os nerds também amam.

* Que segundo Rocky Balboa, não há quem bata mais forte que ela.

Escrito por LUWIG

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