O problema das unanimidades é que sempre que surge uma opinião na contramão (vejam os comentários), de pronto ela tende a ser rechaçada indecorosamente. Nem parece que a uma geração de distância, precisamente no período ditatorial militar, passamos por poucas e boas com idéias e livre-arbítrio sofrendo as mais severas mitigações. Deveríamos nas nossas discussões concordar em discordar e não afugentar simplesmente os opositores por meio de manifestos depreciativos. Defender um ponto de vista é lutar um bom combate, com honra e respeito ao inimigo, às vezes sem declinar de suas convicções e às vezes declinando com o ingrediente básico de um bom julgamento de caráter: a humildade.
Dizem por aí que vivemos em democracia, pode até ser em ano eleitoral, nos demais não há qualquer consenso ou dissenso. Pode ser que esteja generalizando, mas brasileiro não sabe debater, ou impõe ou se omite. Onde quero chegar? No nosso calejado e ininteligível mercado editorial de quadrinhos.
Na boa? Cansei de tentar entendê-lo e esperar por transparência dos “grandões”. Como? Simples, divulgando números ou mantendo canais abertos com o consumidor. Os fóruns de discussão estão aí, mas seus gestores, não. Celebram-se contratos vultosos para se publicar periodicamente e só, não há qualquer estudo prévio sobre formato, mercado ou público alvo.
Se não vende conforme o que se almeja, coitados de nós. Coleções ficam pelo caminho e tornamo-nos eternos apostadores em pára-quedistas. Aparentemente ninguém vê potencial na publicidade em algo que é hoje um dos principais insumos da indústria do entretenimento. Ok, talvez até não dê para lucrar com a prática de pronto, mas ninguém leva em conta que os custos de produção podem ser se não empatados, ao menos amenizados?
Um profissional do meio poderia ler isso e dizer “falar é fácil” ou “não funciona assim”, poder eles sempre podem e é o que fazem, apenas não discutem. Tenho razão? Claro que tenho ou não seria verdade que o freguês é sempre dono dela?
Tento relevar de tudo, mas meu filtro deixa escapar bastante porcaria, como por exemplo, aquela indisposição infrutífera de alguns dias atrás. Somando-se a nossa pequena listagem de “pendências”, cito agora ‘O Terceiro Testamento’, quadrinho franco-belga de Xavier Dorison & Alex Alice, dividido em quatro tomos e que teve publicado apenas seus dois primeiros pela Multi Editores e desde então nada dos dois últimos. Em março desse ano até rolou uma espécie de retratação pelo atraso, garantindo os fascículos subseqüentes até o final do primeiro semestre. Mas em que mês estamos mesmo? A picaretagem é tamanha que nem o site da empresa merece confiança. Uma pena, os dois que chegaram a sair são de altíssima qualidade tanto no enredo e no apuro gráfico quanto no capricho da edição, em capa dura, formato 24 x 32 cm e papel couché, sem falar do preço de R$ 19,80, acessível para estes padrões.
E o cancelamento de ‘Marvel Action’? Sobrou foi pro Johnny Blaze de Jason Aaron que atravessava uma ótima fase e não merecia arcar com os problemas dos outros. Lembrei logo do impagável Capitão “Genis-Vell” Marvel de Peter David que era publicado em ‘Quarteto Fantástico & Capitão Marvel’ e ficou pelo caminho com a abreviação do título, faltando apenas as edições #19-25 para a conclusão da série. Com o Motoqueiro Fantasma rolou até piada inoportuna por parte do editor Paulo França, “esse vai para os quintos do inferno mesmo”, seguido de um cínico “brincadeiras à parte, ainda estamos estudando uma forma de dar continuação à série do Espírito da Vingança”.Demorou muito, mas descobriram que fomos, somos e sempre seremos uma maldita piada. Como se não bastasse, é uma maldita perda de tempo escrever para as seções de cartas que, repito, todas e em todas as revistas têm se um nível baixíssimo de discussão e só servem para os sabichões piolhentos, bajuladores e fanboys das antigas relatarem que estão de volta na área.
Pois bem, percebe que é muita energia negativa para um homem só e de algum jeito ele tem que descarregá-la. Como? Não sei você, mas consigo isso retalhando minhas próprias revistas, transformando o que é digno de minha atenção em compilados com capa dura e os indignos em matéria-prima para reciclagens. A terapia alternativa funciona mais ou menos assim:
1º passo ↔ tudo depende de suas ferramentas e as minhas são essas →
(A) Uso chave de fenda para soltar os grampos. Se não prezas por tuas unhas, podes fazê-lo sem, mas vou logo avisando, ao final o efeito é tão devastador quanto o de 24hs intermitentes as roendo. (B) O estilete seria meu “bisturi”. É essencial e custa em média R$ 1,50. Se optar por seguir a presente receita, tem que comprar um. Não adianta dobrar a página, lambê-la no meio e puxar com tudo. Das duas, uma: ou tu ficas com a língua cortada/dolorida com a repetição ou tu és um filho da mãe pão duro e seboso. Dica: quando for cortar, corte com um papelão embaixo (dã!).
(C) Recomendo um esquadro grande e espesso para facilitar a separação das páginas com o estilete. Uma régua comum pode quebrar um galho e num descuido também deixá-lo cotó.
(D) Lembra que toda revista, antes ou depois das histórias, estão lá impressas as artes de capa que não foram aproveitadas na principal? Claro que lembra. Pois bem, às vezes no início do capítulo ou no final, coincide de uma mesma página dividir a primeira ou a última de outro título, ou até a seção de cartas. O que faço com a face inútil? Com bastante cuidado, passo a cola em bastão nela de forma a deixá-la como um adesivo e colo uma sobre a outra.
Eu disse “cola em bastão”. Nada de usar cola lavável. Se optar por usá-la, saiba que mesmo distribuindo-a igualmente na página, ela ficará com marquinhas pontilhadas horríveis. (E) A tesoura fica de sobreaviso, mas não a uso tanto quanto parece, apenas para igualar as folhas coladas acima.
(F) A transparência na primeira página não tem um fim apenas estético, pelo contrário. No meu caso, coloco nas páginas iniciais as capas sobressalentes coladas umas sobre as outras, deixando-as mais encorpadas. Você me pergunta: para quê? Quando tu encomendas a encadernação na gráfica de sua preferência, o usual é que o funcionário use a “guilhotina” e aplaine as páginas para deixar com o aspecto “quadrado”.
Normal? Normal, apenas não confie nesse ou em qualquer funcionário, muito menos na guilhotina. O primeiro impacto dela na pisa-brite pode ou não ser destruidor, deixando as primeiras (ou as últimas) páginas quebradiças. Para evitar esse tipo de coisa, deixe-as consistentes com a transparência e as artes de capa (no início e no final). 2º passo ↔ não pense que a gráfica pensará por você →
(A) Não é paranóia cobrir todos os flancos. Quando se dirigir a gráfica leve as páginas dentro de um saco transparente, se possível um apropriado para revistas. No momento em que estiver sendo atendido, seja enfático com relação à disposição/ordem das páginas. Avise que o papel é delicado e que o corte deve ser feito com cautela redobrada.
Se o resultado for de seu agrado, sempre repita as mesmas exigências na próxima visita. Você vai parecer um idiota, mas dormirá mais tranqüilo por ser. (B) As letras douradas na capa e nas laterais encarecem bastante a encadernação. Sem as mesmas, pago geralmente R$ 10,00. Se usá-las, o valor quase sempre duplica.
(C) Particularmente, prefiro providenciar minhas próprias capas e etiquetas. No caso das capas, é uma jogada um tanto arriscada. Pego a que quero e faço marcações de seu comprimento e largura com caneta. Usando o esquadro, corto a capa emborrachada com o estilete e depois com muito cuidado a puxo. Em seguida, passo a cola em bastão na folha para fixá-la no espaço vazio.
Atenção: lambuze bem a superfície da cobertura, caso contrário, com o tempo, algumas bolhas de ar indesejadas podem aparecer. Dica: feito isso, coloque uma tonelada de livros/revistas em cima do encadernado e deixe sob repouso por um tempo. (D) Para as etiquetas laterais, a criatividade (e a tinta) é o limite. Costumo usar o Corel e o Paint para fazê-las. Meço e uso plástico adesivo para fixá-las.
3º passo ↔ “Cut and Destroy” →
Falando assim, até parece que apanhei um bocado até chegar ao nível pretendido. E apanhei, mas confesso que para tanto usei como cobaias títulos menores, com um efeito placebo na minha coleção. E para você, que é marinheiro de primeira viagem, sugiro que faça o mesmo antes de sair por aí estripando algo de sua profunda estima.
Portanto, pondere um bocado o que deve ou não ir para a navalha. Se for um título mensal que julgue ter um mix com 100% de aproveitamento (ainda não fomos apresentados), desista enquanto é tempo. No caso do ‘O Bravo e o Ousado’ em tela, retirei de Superman/Batman #39-45 e 50-51 as dezesseis edições de ‘The Brave and the Bold’ roteirizadas por Mark Waid e ilustradas por George Pérez, Jerry Ordway e Scott Kolins. Alguém duvida que não farei o mesmo com a Legião dos Três Mundos?
Em especial, algumas dessas “compilações caseiras” são os orgulhos do papai como, por exemplo, o meu primeiro compêndio do Justiceiro Max de Garth Ennis com as trinta edições iniciais (ou cinco arcos) e a coletânea “Jessica Jones” de Brian M. Bendis distribuída em três livros, sendo dois com a coleção completa de “Alias” e um com “The Pulse”. O interessante é que o hobby tem uma utilidade prática imensa, resumindo meu acervo ao que de fato me importo. Assim, o “menos que é mais” acaba facilitando não só o manuseio de certas obras, como também economiza uma Terra Santa em espaço e, de quebra, te deixa vacinado contra certos pensamentos.
No final das contas, a terapia surte o efeito esperado e o lixo vira de fato lixo.
Faz Parte do Meu Comic Show
Há algum tempo participei de um vídeocast da Comic House, a única loja especializada em quadrinhos da Paraíba (em João Pessoa). E o tema do programa, à época, era sobre o dia dos namorados. Pra quem não conhece, fique sabendo que se trata de um dos melhores e mais bem humorados veículos virtuais sobre cultura pop. O programa acima é o meu favorito: a entrevista com “Alan Moore”.
Os realizadores, Manassés Filho (o proprietário do hospício), Audaci Jr., Renato Félix, Daslei Ribeiro (diretor, câmera e o “Dedo de Deus”) e Samuel Góis, são gente como a gente, que enxerga nas entrelinhas do escapismo a excelência e também o que deve ser imortalizado nos anais do ridículo. A química entre eles parece inata e se não fosse à distância de 120 km que separa nossas cidades, certeza que seria parte dessa alcatéia de lunáticos.
Visitem. Assistam. Comentem.
Escrito por LUWIG
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