Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Mark -1

Ninguém pode dizer que foi por falta de aviso: Anthony "Tony" Edward Stark finalmente sentiu o peso de ser o intelectual, mais influente e, por que não, poderoso de todo o globo terrestre. Se considerarmos o diabinho naquela garrafa em 1979, temos agora a segunda e mais catastrófica queda do Homem de Ferro.

Não foi por falta de aviso, desde os primórdios da Guerra Civil, ele chamou a responsabilidade para si, como futurista que julgava ser (e é), assumiu demandas utópicas, embora aparentemente pragmáticas, traiu a confiança de alguns e foi muito, muito longe com outros. Fato é que o incidente do “código aberto” protagonizado por Ezekiel Zeke Stane (filho de Obadiah), com gadgets mais acessíveis e tão funcionais quanto os do Vingador, resultou no suicídio tecnológico da Stark Enterprises.

O último prego no caixão veio logo em seguida com a invasão Skrull, eliminando de imediato o já vulnerável poder de resposta da SHIELD, cujos sistemas de informação haviam sido substituídos pelo próprio diretor. Era o início do “Reinado Sombrio” com Norman Osborn assumindo as rédeas como o salvador da pátria, confiscando para fins pessoais o que restava da Starktech e reformulando todo um braço da segurança nacional com a fundação da HAMMER.

Insatisfeito, o ex-duende queria o que deveria ser seu de direito, a posse da lista confidencial do ato de registro super-humano. Algo, portanto natural numa transição entre administrações não fosse o passado (ou presente) daquele homem, o que de pronto é uma possibilidade afastada por Tony que copia toda a base de dados para o córtex aprimorado com o Extremis.

Fazendo isso, Stark colocou a cabeça a prêmio, literalmente. Além da lista, sua valiosa massa encefálica trazia consigo de brinde todos os segredos e projetos inacabados do inventor, arquivos pessoais de cada agente da SHIELD, desde os primórdios da agência.

O que ele faria? Fugir? Sim, claro, mas seria questão de tempo até ser capturado, mesmo se recorresse à fragilizada comunidade super-heróica. Voltando, o que ele faria? Simples, a alternativa era “formatar” o cérebro, zerando as células cerebrais de forma que cada item sigiloso ou plano desejado por Norman seria eliminado no processo. O problema é que a memória, os traços de personalidade e todos os reflexos mais elementares seriam também apagados ao ponto da morte cerebral.

Contudo, isso não aconteceria num piscar de olhos nem tão pouco do dia para a noite. Seria lento, gradual e deveras degradante. Além do quê, implicaria um gasto exorbitante de energia, não a elétrica comum, mas uma muito específica, a repulsora criada por Tony e encontrada apenas nas suas “garagens” espalhadas pelo globo. Como cada sessão sobrecarrega os geradores e a cada minuto que passa os agentes de Norman se aproximam do pote de mel, ele tem que cruzar o planisfério numa corrida contra o tempo repleta de curvas inversas de aprendizado.

Mesmo nesse estado de coisas, por mais surreal que possa parecer, qualquer miolo intacto pode ser útil, o que justifica se evadir desesperadamente recorrendo a truques velhos e a pilotagem de armaduras obsoletas, conforme o raciocínio diminui**. E é a partir daí que a trama emperra de vez na 5ª marcha e assume um ritmo insano passível de comparações entre as melhores caçadas humanas da cultura ficcional.

* Para alguém que tinha controle pleno de cerca de 70% das funções do cérebro, lidar com limitações de Q.I deve ser, se não excruciante, uma revelação.

** Em dado momento, a coisa alcança contornos tão dramáticos que Tony é ajudado na Rússia por Dmitri Bukharin (o Dínamo Escarlate). Pode imaginar o retrocesso?

O que por si só não justifica inteiramente o Eisner 2009* na estante do Matt Fraction, mas influencia e muito a decisão dos jurados da premiação. Cada uma das vinte edições de ‘The Invencible Iron Man’ até aqui são impecáveis, em termos de estrutura diálogo/ação, não há série heróica em publicação corrente que a supere. Sem falar que são verdadeiras aulas geeks de como conceber o impossível a partir do possível, e um possível graças à arte de Sal Larroca, que, diga-se de passagem, é uma surpresa à parte. Antes um ilustrador de quadros estáticos, mas de estilística dentro do razoável, nesse título ele ganha finalmente sua maioridade na arte seqüencial, cercando o universo do Homem de Ferro de dinâmicas modernas** com parafernálias high tech, esquemáticos, imagens de radar, satélite e, acima de tudo, a intensidade e toda a pressão que os enredos exercem sobre os personagens.

* Na categoria melhor série nova.

** Como as interfaces gráficas dos usuários dentro de suas armaduras. Um recurso que certamente fora surrupiado do filme.

Só que nem tudo é sobre Stark e seus problemas de memória, na retaguarda como coadjuvantes temos Virginia Pepper Potts e Maria Hill desempenhando papéis cruciais no desenrolar da história. Uma assumindo o legado do patrão com a armadura “Rescue”, portando o último gerador repulsor do mundo e a outra numa missão para entregar o “plano B” de Tony ao Capitão Bucky América. Em algum ponto, elas “mandam ver” e seus “destinos se convergem”.

Atravessado o Rubicão, precisamente na edição #19, Norman trava a localização de Tony em Dubai e chega com tudo com seu “Patriota de Ferro” no Homem de Ferro, Marco Zero. Quando o massacre termina – sim, massacre, aquilo definitivamente não foi uma briga –, é justo dizer que Stark praticamente não sabia o que o havia atingido e só não foi esquartejado por conta da imprensa e a transmissão ao vivo do acontecido.

Um traumatismo craniano, nariz quebrado, mandíbula partida, concussões, ferimento à bala perto do pescoço, seis costelas fraturadas, queimaduras, cortes, escoriações e um estado vegetativo persistente depois, Tony é uma tabula rasa, mas é a partir daqui que ganhamos conhecimento de sua agenda secreta, leia-se “plano B”.

Como o atendimento se deu no aeroporta-aviões da HAMMER e este é essencialmente uma embaixada voadora, segundo o regimento interno a lei dos Estados Unidos é reconhecida a bordo, portanto Stark possui o direito de ter seu poder de decisão transferido para o clínico particular. Legalmente, é uma medida de eutanásia que apenas aquele médico poderia fazer e foi o que impediu Osborn de desligar os aparelhos de suporte vital. Donald Blake, hã? Deus (do Trovão) é pai.

Na edição #20, Tony está mais pra lá do que pra cá, mas protagoniza via gravação o melhor e mais cínico momento do ano nos quadrinhos da Marvel, a reviravolta que dará início ao “Cerco” e o que trará a trindade da casa de volta aos holofotes. Sem desculpas e melodrama, seis páginas de um monólogo inesquecível em que o Homem de Ferro se posiciona como o “Homem”, entre o “Mito” do Capitão e a “Deidade” do Thor. Para posteridade e, quem sabe, remir o fiasco coletivo que foi aquela maldita invasão.

A Fraction of Love

Qualquer um que acompanha nossas linhas já há algum tempo deve ter percebido que quando cismo com alguma coisa, me torno um verdadeiro disco arranhado orgânico e não obstante, vire e mexe, volto ao assunto para mais uma rodada de agulhadas. Fazer o quê? Tenho sérios problemas para controlar a raiva.

Bem, nesse sentido, um dos temas recorrentes e recordista em queixumes ainda é o “dia a mais” do Joe Quesada*. Sem entrar no (de)mérito das repercussões ou na virada de mesa na vida do amigão da vizinhança, o que nunca revelei é que meu asco por esta decisão editorial partiu daquela excepcional e hoje mitológica 'The Sensational Spider-Man Annual #11' (Homem-Aranha #78, Panini) dos mesmos Matt Fraction & Sal Larroca de ainda pouco.

O contexto da história era o da vida ordinária que Peter vinha levando desde que relegou o ato de registro, sobrevivendo às margens da sociedade com Mary Jane a tiracolo e May Parker em coma após ser alvejada por um franco-atirador contratado por Wilson Fisk. No one-shot em tela, MJ e Pete estão em dois lugares diferentes, ambos refletindo sobre suas vidas conjuntas. Ela numa cafeteria, sendo pressionada por um ex-segurança a serviço da SHIELD a entregar o marido – e receber passe livre na acusação de cumplicidade – e ele, desesperado, numa lanchonete do outro lado da cidade, tentando convencer um amigo da polícia a entregá-lo as autoridades.

Enredo simples, tocante para os fãs da velha guarda e com um desfecho memorável que te faz refletir sobre o quão longe poderia se chegar com aquela temática. Pena que não foi dado ao Matt à chance de fazê-lo, porque se com um conto redondinho desses, que lhe valeu inclusive uma indicação na categoria melhor edição individual nos Eisner 2008, seria justo dizer que teríamos pela frente uma fase e tanto.

Por essas e por outras que 'Ter e Manter' foi a minha última leitura aracnídea.

Amém.

* Straczynski foi mero bode expiatório nessa palhaçada toda.

Escrito por LUWIG

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