Ninguém pode dizer que foi por falta de aviso: Anthony "Tony" Edward Stark finalmente sentiu o peso de ser o intelectual, mais influente e, por que não, poderoso de todo o globo terrestre. Se considerarmos o diabinho naquela garrafa em 1979, temos agora a segunda e mais catastrófica queda do Homem de Ferro.Não foi por falta de aviso, desde os primórdios da Guerra Civil, ele chamou a responsabilidade para si, como futurista que julgava ser (e é), assumiu demandas utópicas, embora aparentemente pragmáticas, traiu a confiança de alguns e foi muito, muito longe com outros. Fato é que o incidente do “código aberto” protagonizado por Ezekiel “Zeke” Stane (filho de Obadiah), com gadgets mais acessíveis e tão funcionais quanto os do Vingador, resultou no suicídio tecnológico da Stark Enterprises.
O último prego no caixão veio logo em seguida com a invasão Skrull, eliminando de imediato o já vulnerável poder de resposta da SHIELD, cujos sistemas de informação haviam sido substituídos pelo próprio diretor. Era o início do “Reinado Sombrio” com Norman Osborn assumindo as rédeas como o salvador da pátria, confiscando para fins pessoais o que restava da Starktech e reformulando todo um braço da segurança nacional com a fundação da HAMMER.
Insatisfeito, o ex-duende queria o que deveria ser seu de direito, a posse da lista confidencial do ato de registro super-humano. Algo, portanto natural numa transição entre administrações não fosse o passado (ou presente) daquele homem, o que de pronto é uma possibilidade afastada por Tony que copia toda a base de dados para o córtex aprimorado com o Extremis.Fazendo isso, Stark colocou a cabeça a prêmio, literalmente. Além da lista, sua valiosa massa encefálica trazia consigo de brinde todos os segredos e projetos inacabados do inventor, arquivos pessoais de cada agente da SHIELD, desde os primórdios da agência.
O que ele faria? Fugir? Sim, claro, mas seria questão de tempo até ser capturado, mesmo se recorresse à fragilizada comunidade super-heróica. Voltando, o que ele faria? Simples, a alternativa era “formatar” o cérebro, zerando as células cerebrais de forma que cada item sigiloso ou plano desejado por Norman seria eliminado no processo. O problema é que a memória, os traços de personalidade e todos os reflexos mais elementares seriam também apagados ao ponto da morte cerebral.
Contudo, isso não aconteceria num piscar de olhos nem tão pouco do dia para a noite. Seria lento, gradual e deveras degradante. Além do quê, implicaria um gasto exorbitante de energia, não a elétrica comum, mas uma muito específica, a repulsora criada por Tony e encontrada apenas nas suas “garagens” espalhadas pelo globo. Como cada sessão sobrecarrega os geradores e a cada minuto que passa os agentes de Norman se aproximam do pote de mel, ele tem que cruzar o planisfério numa corrida contra o tempo repleta de curvas inversas de aprendizado.
Mesmo nesse estado de coisas, por mais surreal que possa parecer, qualquer miolo intacto pode ser útil, o que justifica se evadir desesperadamente recorrendo a truques velhos e a pilotagem de armaduras obsoletas, conforme o raciocínio diminui**. E é a partir daí que a trama emperra de vez na 5ª marcha e assume um ritmo insano passível de comparações entre as melhores caçadas humanas da cultura ficcional.* Para alguém que tinha controle pleno de cerca de 70% das funções do cérebro, lidar com limitações de Q.I deve ser, se não excruciante, uma revelação.
** Em dado momento, a coisa alcança contornos tão dramáticos que Tony é ajudado na Rússia por Dmitri Bukharin (o Dínamo Escarlate). Pode imaginar o retrocesso?
O que por si só não justifica inteiramente o Eisner 2009* na estante do Matt Fraction, mas influencia e muito a decisão dos jurados da premiação. Cada uma das vinte edições de ‘The Invencible Iron Man’ até aqui são impecáveis, em termos de estrutura diálogo/ação, não há série heróica em publicação corrente que a supere. Sem falar que são verdadeiras aulas geeks de como conceber o impossível a partir do possível, e um possível graças à arte de Sal Larroca, que, diga-se de passagem, é uma surpresa à parte. Antes um ilustrador de quadros estáticos, mas de estilística dentro do razoável, nesse título ele ganha finalmente sua maioridade na arte seqüencial, cercando o universo do Homem de Ferro de dinâmicas modernas** com parafernálias high tech, esquemáticos, imagens de radar, satélite e, acima de tudo, a intensidade e toda a pressão que os enredos exercem sobre os personagens.* Na categoria melhor série nova.
** Como as interfaces gráficas dos usuários dentro de suas armaduras. Um recurso que certamente fora surrupiado do filme.
Só que nem tudo é sobre Stark e seus problemas de memória, na retaguarda como coadjuvantes temos Virginia “Pepper” Potts e Maria Hill desempenhando papéis cruciais no desenrolar da história. Uma assumindo o legado do patrão com a armadura “Rescue”, portando o último gerador repulsor do mundo e a outra numa missão para entregar o “plano B” de Tony ao Capitão “Bucky” América. Em algum ponto, elas “mandam ver” e seus “destinos se convergem”.
Atravessado o Rubicão, precisamente na edição #19, Norman trava a localização de Tony em Dubai e chega com tudo com seu “Patriota de Ferro” no Homem de Ferro, Marco Zero. Quando o massacre termina – sim, massacre, aquilo definitivamente não foi uma briga –, é justo dizer que Stark praticamente não sabia o que o havia atingido e só não foi esquartejado por conta da imprensa e a transmissão ao vivo do acontecido.Um traumatismo craniano, nariz quebrado, mandíbula partida, concussões, ferimento à bala perto do pescoço, seis costelas fraturadas, queimaduras, cortes, escoriações e um estado vegetativo persistente depois, Tony é uma tabula rasa, mas é a partir daqui que ganhamos conhecimento de sua agenda secreta, leia-se “plano B”.
Como o atendimento se deu no aeroporta-aviões da HAMMER e este é essencialmente uma embaixada voadora, segundo o regimento interno a lei dos Estados Unidos é reconhecida a bordo, portanto Stark possui o direito de ter seu poder de decisão transferido para o clínico particular. Legalmente, é uma medida de eutanásia que apenas aquele médico poderia fazer e foi o que impediu Osborn de desligar os aparelhos de suporte vital. Donald Blake, hã? Deus (do Trovão) é pai.
Na edição #20, Tony está mais pra lá do que pra cá, mas protagoniza via gravação o melhor e mais cínico momento do ano nos quadrinhos da Marvel, a reviravolta que dará início ao “Cerco” e o que trará a trindade da casa de volta aos holofotes. Sem desculpas e melodrama, seis páginas de um monólogo inesquecível em que o Homem de Ferro se posiciona como o “Homem”, entre o “Mito” do Capitão e a “Deidade” do Thor. Para posteridade e, quem sabe, remir o fiasco coletivo que foi aquela maldita invasão.A Fraction of Love
Qualquer um que acompanha nossas linhas já há algum tempo deve ter percebido que quando cismo com alguma coisa, me torno um verdadeiro disco arranhado orgânico e não obstante, vire e mexe, volto ao assunto para mais uma rodada de agulhadas. Fazer o quê? Tenho sérios problemas para controlar a raiva.Bem, nesse sentido, um dos temas recorrentes e recordista em queixumes ainda é o “dia a mais” do Joe Quesada*. Sem entrar no (de)mérito das repercussões ou na virada de mesa na vida do amigão da vizinhança, o que nunca revelei é que meu asco por esta decisão editorial partiu daquela excepcional e hoje mitológica 'The Sensational Spider-Man Annual #11' (Homem-Aranha #78, Panini) dos mesmos Matt Fraction & Sal Larroca de ainda pouco.
O contexto da história era o da vida ordinária que Peter vinha levando desde que relegou o ato de registro, sobrevivendo às margens da sociedade com Mary Jane a tiracolo e May Parker em coma após ser alvejada por um franco-atirador contratado por Wilson Fisk. No one-shot em tela, MJ e Pete estão em dois lugares diferentes, ambos refletindo sobre suas vidas conjuntas. Ela numa cafeteria, sendo pressionada por um ex-segurança a serviço da SHIELD a entregar o marido – e receber passe livre na acusação de cumplicidade – e ele, desesperado, numa lanchonete do outro lado da cidade, tentando convencer um amigo da polícia a entregá-lo as autoridades.
Enredo simples, tocante para os fãs da velha guarda e com um desfecho memorável que te faz refletir sobre o quão longe poderia se chegar com aquela temática. Pena que não foi dado ao Matt à chance de fazê-lo, porque se com um conto redondinho desses, que lhe valeu inclusive uma indicação na categoria melhor edição individual nos Eisner 2008, seria justo dizer que teríamos pela frente uma fase e tanto.
Por essas e por outras que 'Ter e Manter' foi a minha última leitura aracnídea.
Amém.
* Straczynski foi mero bode expiatório nessa palhaçada toda.
Escrito por LUWIG