O que seria de um festejo de aniversário sem a presença ilustre do anfitrião? Foi essa pergunta que reiteradamente fiz a mim mesmo durante 2009, período que marcou o septuagésimo ano de criação de Bruce Wayne e toda sua mitologia de suporte. Apagado foi pouco, tiraram o Batman literalmente de cena jogando-o sabe-se lá onde nos primórdios dos tempos, idéia esta que ainda vai render muita controvérsia por parte da concorrência a partir de comparações com o recente regresso de Steve Rogers. Voltaremos a falar sobre isso. Mas o questionamento que precisa ser feito por enquanto não é este e sim se Dick Grayson está dando ou não conta do recado, quer dizer do legado. A resposta requer um “sim” e um “não”. Sim, porque ele é o herdeiro natural do posto de Batman como guardião sombrio de Gotham e não, porque o primeiro Robin em toda sua trajetória só foi alguém que fez jus a sunga escamosa quando liderou aqueles Titãs de Marv Wolfman & George Pérez.
A coisa desandou com o vôo solo como Asa Noturna. Sério, nenhum autor* se deu ao trabalho de limar da existência as dúvidas e toda a inquietação natural da pré-adolescência, mesmo quando praticamente assinou um atestado de independência ao ingressar na polícia de Blüdhaven ou, quiçá, ao testemunhar a cidade adotiva indo pelos ares em Crise Infinita. Fato é que Richard nunca ganhou o respeito do leitor, tampouco da própria DC**, sequer amadureceu como personagem, sendo retratado constantemente como alguém em constante busca por aprovação do mentor, inclusive após a suposta morte dele. Cheguei a cogitar que Grant Morrison investiria pessoalmente no “Grayson Voador”, conferindo a ele a identidade que carecia (e carece). Mais ou menos como Ed Brubaker o fez com Bucky Barnes, o “Soldado Invernal”. O que, portanto, não aconteceu, e a verdade inconveniente aqui é que logo após R.I.P o escocês tirou o seu da reta*** e delegou a transição (Battle for the Cowl) à mão-de-obra barata como Tony Daniel, que entre outras excrescências, simulou um cenário de caos praticamente idêntico ao que se vivenciou no antológico ‘Jogos de Guerra’ .
* Talvez nos derradeiros momentos que antecederam a passagem do manto, Pete Tomasi investiu alguns miligramas de dignidades àquela finada revista.
** É de conhecimento público que por muito pouco Dan Didio não autorizou a sua execução durante a Crise Infinita, o que, por sinal, seria no calor da tragédia que citamos há pouco.
*** E só voltaria meses mais tarde na nova série ‘Batman & Robin’, com Dick & Damien já trocando farpas.
À bem da verdade, o reboot engatilhado com o day after até que veio a calhar, e a princípio injetou um novo gás a franquia gothamita, com exceção do título ‘Batman’, assinado em escala de rodízio por Judd Winick e Tony Daniel, todos os outros até que têm mantido uma regularidade mediana, com picos de excelência em ‘Detective Comics’ por Greg Rucka & J. H. Williams III e em ‘Streets of Gotham’ por Paul Dini & Dustin Nguyen.Já ‘Batman & Robin’ é aquele blockbuster de verão caríssimo que durante três semanas (ou edições) consecutivas foi um estouro de bilheteria e depois estacionou, chegando a apenas empatar seus custos. Esse foi o efeito Frank Quitely na abertura, precedido de um medíocre Philip Tan (ex-Spawn) e um competente Cameron Stewart (ex-Sea Guy). Esse é o problema de Grant Morrison, ele geralmente vale o que se paga, é sem dúvida um dos nomes mais influentes do cast de roteiristas daquela casa, contudo parece que está pouco se lixando com os colaboradores com quem costuma dividir os créditos, algo que confere uma irregularidade injusta aos seus trabalhos. Tome como exemplo as oscilações de texto/arte em ‘New X-Men’ e no próprio ‘Batman’, excetuando, é claro, a produção autoral cujo controle criativo lhe dá o livre arbítrio de trabalhar com quem quiser.
Mas há algo de comum entre as três séries que me incomoda muito, que é a falta de interação criativa entre as mesmas, estando Dick & Damien atuando em pelo menos três cenários independentes. Uma lástima, visto que Mike Marts (editor do batsquad) poderia sincronizar estes títulos como o feito na linha de Clark Kent por Matt Idelson (editor dos kryptonianos) e na de Hal Jordan por Eddie Berganza (editor esmeralda) onde cada revista funciona como engrenagem, mola ou parafuso para uma história maior. No meu mundinho perfeito a dupla dinâmica só daria o ar da graça em ‘Batman & Robin’ e, nas demais, ‘Streets of Gotham’ e ‘Batman’, seriam apenas “presenças”, mas nunca protagonistas.
Outro ponto contestável é o artifício preguiçoso de utilizar Tommy Elliot, atualmente sósia de Bruce, como um substituto do mesmo enquanto os protegidos não arrumam uma solução para o elefante branco que virou a “morte” do mais ilustre órfão de Gotham. Em tese, é uma maneira de deixar tudo do jeito que está até a volta do playboy legítimo. A rigor, soa intrigante o novo rumo que Paul Dini anda pavimentando para Silêncio, escondido em campo aberto, sob vigilância 24/7 pelos aliados mais próximos de Wayne.De todo jeito, sou suspeito para falar do Dini já que, dos jogadores que estão aí desde o horrendo “Um Ano Depois”, ele é o meu preferido. Pois, não basta que saiba uma ou duas coisas sobre como conduzir tramas detetivescas (a) típicas do morcego, sem pretensões pseudo-revolucionárias, ele desponta com um ótimo jogo de cintura tanto com a dupla dinâmica quanto com um elenco de apoio exótico, composto por personagens recorrentes como Edward Nigma, Harleen Quinzel, Selina Kyle, Zatanna Zatara e o próprio Dr. Elliot*.
Além do quê, ajuda horrores ter autores eficientes como Chris Yost, Mike Benson e um ilustrador singular como Dustin Nguyen cobrindo sua retaguarda. Falando nisso, seria deveras interessante para a própria DC Comics que cuidasse logo de blindar esse último, visto que, trata-se de um artista de traço limpo e vigoroso que apenas começa a engatinhar num recém descoberto estilo próprio, estilo este que promete num futuro próximo ter tanta força na indústria quanto o do rebento de John Romita. E é por essas e por outras que ‘Streets of Gotham’ é minha atual bat-menina dos olhos.
* Na minha ótica, o arco (pré-R.I.P) “Coração do Silêncio” (Detective Comics #846-850, 852 & Batman #685) é um clássico instantâneo. Mais que isso, foi um testemunho da inquietante passagem daquele amigo de infância do segundo ao primeiro escalão da vilania gothamita. Se Jeph Loeb leu, deve ter sofrido convulsões quânticas de tanta inveja.
Com o ‘Detective Comics’ de Kate Kane, J. H. Williams III alcançou um nível de excelência tão lisérgico em sua técnica que, à bem da verdade, ele seria capaz de converter um roteiro chulo de novela mexicana em algo intransponível na 9ª arte. Por sinal, o estrago que fez em ‘Desolation Jones’ reverbera até hoje no meu peculiar modo de apreciar artes sequências. O que não quer dizer que esteja afirmando que o enredo de Greg Rucka seja medíocre, pelo contrário, ‘Elegia’ (#854-860) só se torna maior com a colaboração mútua da dupla, contudo, vale um lembrete, não é algo direcionado para marinheiros de primeira viagem*, muito embora possa ser encarado como tal, já que a origem da personagem é relatada durante o arco.Inclusive é nas próprias raízes da heroína lésbica que se nota a incidência de um cacoete típico do autor, que seria a recorrente lapidagem de diamantes brutos, algo, portanto, muito comum nas transições que seus intérpretes tendem a enfrentar. Basta comparar os casos de Atticus Kodiak e Sasha Bordeaux com o de Kate que se tem uma boa noção do quão sádico Rucka pode ser. Ouso dizer que mesmo o Bruce, em mais de uma década de aprimoramento, não teve um treinamento tão específico e, por que não, hard core quanto o da pretensa vigilante.
* Alguns cenários vivenciados por ela na maxissérie ‘52’ e nas minisséries ‘Crime Bible: The Five Lessons of Blood’ e ‘Final Crisis: Revelations’ são revisitados em ‘Elegia’, entretanto o leitor pára-quedista não chega a se engasgar com algo hermeticamente fechado. Porém, com tantos mosaicos espalhados pelos capítulos faltou um que ao menos se propusesse a recapitular pontos vitais como o conteúdo do Livro de Sangue e a Religião do Crime.
Por fim, recordes nem sempre são bem quistos nos quadrinhos, como é o caso de Chris Claremont, ainda hoje a cargo de títulos mutantes, contudo, é claro, há as exceções positivas como é o caso do Greg que tem algo em torno de cem (na verdade, cento e oito) edições dedicadas ao Batman só nessa década e todas muito acima da média quiróptera. Vai deixar saudades.
O Retorno de Bruce Wayne
Confesso que enquanto ainda fechava esta matéria, o sentimento que vinha nutrindo pela minissérie em tela não era lá muito amistoso. Pelo contrário, o silêncio do escocês tanto em ‘Batman & Robin’ quanto no nível pessoal já auferia contornos preocupantes, uma vez que até a edição #9 estávamos praticamente no escuro quanto àquele vislumbre de outrora. A partir da #10, entretanto, Morrison começou a espalhar pistas do paradeiro de Bruce na História.
O ganho de causa de Tim Drake se dá num nível tão elementar que deve mexer com toda a árvore genealógica dos Wayne a partir da revelação de que o Cruzado Embuçado participara até então ativamente dos primórdios de Gotham e dos rumos da própria família. E chega a ser fascinante a busca de Alfred e Dick por itens fora do lugar na mansão, sejam eles inscrições, objetos, livros, disposições dos quadros com pinturas de ancestrais* e até compartimentos ocultos nas fundações da propriedade. Enfim, sutis indícios de que o proprietário desaparecido estivera ali e queria transmitir uma mensagem aos seus protegidos.* A grande semelhança de alguns rostos naquelas telas com o de Bruce nos permite concluir que eram do próprio se fazendo passar pelos parentes.
Uma reflexão mais apurada nos confere a percepção de que estamos diante de anos-luz de tecidos e linhas temporais a serem costurados numa colcha de retalhos de proporções épicas. Só de cogitar que tudo isso será destilado em apenas seis capítulos, já me dá barato a mera expectativa da overdose de alucinógenos escoceses que vem por aí. Um puro malte viria bem.
Teorias sobre o que engatilhou a viagem no tempo estão surgindo aos montes nos fóruns norte-americanos, uma vez que se soube que o cadáver carbonizado era nada mais que a última das cópias do exército de Batmen produzidos pelo Sr. Simyan e Mokkari na Fábrica do Mal durante a janela de tempo entre Final Crisis #2-6 e Batman #682-683 (e aqui na #85). Pois bem, vejamos, uma das minhas conjecturas é que da mesma forma que o disparo de uma bala de rádion é capaz de atingir e atravessar um alvo até se perder na malha espaço-temporal, o recuo do agente portador da arma e, portanto, um mortal, deve obedecer necessariamente alguma relação, arremetendo o indivíduo para tão longe quanto possível. A outra, mais simplória, menos forçada e condizente com a continuidade, diz respeito às propriedades e variedades de efeitos na Sanção Ômega de Darkseid, que pode desintegrar, alterar a matéria, curar, teleportar e, olha só, dispersar o alvo através do tempo. O que aconteceu? Uxas, ao ser alvejado pelo projétil, inadvertidamente travou o raio na última opção lançando o Cavaleiro das Trevas na Idade da Pedra. Como Clark não chegou a testemunhar a “execução”, não viu o que de fato ocorreu e, claro, a checagem de identidade do corpo se deu em nível molecular, batendo ipsis litteris com a de Bruce. Tudo levava a crer que o Batman havia mesmo tombado em combate.
Acredito que o morto teria sua razão de existir pela utilidade que desempenharia se porventura Batman não tivesse escapado do cárcere, servindo para desestabilizar os focos de resistência à equação antivida com a perda de um dos maiores pesos-pesado da comunidade super-heróica. O desenrolar da trama foi outro e a natureza real do pútrido impostor só veio à tona com a tentativa frustrada de Dick de reanimá-lo após uma imersão num Poço de Lázaro na Inglaterra (Batman & Robin #7-9). Caso tenha se interessado em acompanhar a presente série a partir da influência desse texto simplório que acabou de ler é porque certamente ainda não viu alguém tão imerso num personagem quanto este súdito da Rainha Elizabeth II. Portanto, confira a ótima entrevista que Grant Morrison concedeu a Laura Hudson para o site Comics Alliance, falando especificamente desse insólito momento vivido pelo morcego. De resto, o tiro até pode sair pela culatra, mas que a lábia de vendedor do homem é boa, isso é. Rivaliza até com os gigantes do hype de sua pátria amada.
Revoluções, o Batman e sua Sombra
Se existe alguém que saiu no lucro com a “revolução” perpetrada pela Panini, esse alguém foi o Cavaleiro das Trevas. Fechando a conta, perdeu apenas uma história na revista mensal ‘Batman’ (ficando com três = 76 páginas), mas ganhou um novo título, ‘A Sombra de Batman’ (com seis = 148 páginas). Na primeira, teremos a publicação de Batman, Batman & Robin e Streets of Gotham. Na segunda, Batman Confidential, Detective Comics, Gotham City Sirens, Red Robin e Batgirl.
Com isso, a franquia gothamita passa a ser a representante da DC Comics mais prestigiada pela editora italiana e, se serve de alguma coisa, com meu aval. O único senão é que em ‘A Sombra’ poderiam ter optado pelo lançamento de Batman & Robin de Morrison & Quitely no lugar de Detective Comics de Rucka & Williams III que ficaria no lugar de praxe, ‘Batman’.
Encerrando o expediente, a ocasião é muito boa para disparar um... “it’s good to be back”.
Escrito por LUWIG
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