Reportando: na última sexta-feira (7 de maio) perdi o último resquício de respeito com a presente geração. Explico, é que estava comprando meus suprimentos usuais na banca que freqüento e me deparei com um menino de cerca de 10 anos em tom sério, jogando conversa fora com um “coleguinha” em um LG GW550 e, ao mesmo tempo, gesticulando para o jornaleiro com os dedos a quantidade de figurinhas que queria do álbum da Copa do Mundo. Juro, lembrava um executivo de tão formal, só faltou o terno e a gravata. Incomum, mas até aí tudo bem, o que me deixou de fato sem reação foi o olhar petulante do infante quando me viu com as revistas em mãos aguardando a vez. Fui à lona quando se retirou do recinto com um sarcástico: “tu ainda lê gibi?”.
Bem, até onde sei, ainda estou há anos-luz de trocar meu juízo com o de uma criança pelo motivo que seja, tão pouco perder tempo com uma explanação inócua sobre o modo como a 9ª arte é vista segundo os leigos. Tenho 28 anos, leio quadrinhos, pago minhas contas e estou vacinado contra a H1N1. Portanto, estou me lixando pra isso. Na verdade, o que me chama atenção mesmo é essa falsa maturidade que muitos desses jovens – e, olha só, não estou generalizando – querem vender desesperadamente. O irônico é que quanto mais cedo fincam os pés no “mundo adulto”, mais alienados e impulsivos ficam.
Não sou psicólogo ou sociólogo para investigar as causas disso tudo, nem é minha intenção sequer cogitar a influência desse caldeirão comportamental de novas tendências e tecnologias, apenas vejo o que todos vêem. E aí, chego onde queria chegar, inclusive reiterando as indagações de Dave Lizewski, que por mais ingênuas que possam parecer, têm lá seu fundo de verdade. Com todos esses filmes oriundos dos quadrinhos e seriados televisivos, será que nunca um impúbere desses ou algum solitário excêntrico sequer fantasiou com uma coisa assim? O cotidiano nas escolas e escritórios é tão excitante que não sobra um naco de auto-ilusão num reflexo de espelho? Vamos lá, sejam honestos. Em algum ponto da vida, perdidos em devaneios, problemas ou somente tédio, nos flagramos no cúmulo do escapismo em indumentárias de spandex fazendo coisas idiotas as três da matina. Absurdo? Sim, claro, mas o que não é nesses dias? Basta ligar no noticiário para comprovar a caixinha de surpresas que é o bicho homem.
Antenado nisso, Mark Millar escreveu mais um capítulo da saga dos super-heróis na ambientação que costumamos chamar de “realidade”. O “Dave” de há pouco é o catalisador que promove a transição do impensável ao repreensível, num tour de force visceral pelo altruísmo de capa. O diferencial aqui é que temos um garoto de 16 anos com um punhado de neurônios e nenhum bom senso, num amálgama entre Mythbusters e Jackass, colocando à prova (e a cara) os principais mitos do ramo. Felizmente (ou não), ele não foi o único que saiu de casa com o desejo de distribuir “boas intenções” por aí, um pai (o Big Daddy) e uma filha (a Hit-Girl de apenas 10 anos) já vinham obtendo sucesso na área, porém num patamar à parte, mais vivissector, eu diria.
Como tudo que o autor em tela vem engendrando ultimamente, Kick-Ass é praticamente um storyboard com embrulho de presente para Hollywood e antes mesmo de ser testado em bancas, uma campanha viral nas proximidades de seu lançamento atiçou os ímpetos do público alvo. Num piscar de olhos, surgiram as primeiras notícias do financiamento independente, escalação dos atores e a antológica exibição da prévia na Comic-Con 2009 que colocou Matthew Vaughn e Mark Millar no radar (e nos bolsos) dos grandes estúdios. Os trechos da película davam a entender que tudo seria bastante fiel ao original, e sim, de fato o é, só não da maneira que esperava. A tradução em celulóide é nada mais que a versão maniqueísta de um quadrinho que coloca por terra todas as convenções do gênero, mais que isso, enquanto estamos lendo torcemos intrinsecamente por um perdedor que chega ao ápice da história e não alcança vitória alguma, muito menos uma lição a ser aprendida, enquanto estamos assistindo, o que vemos é um protagonista que conquista a garota no final das contas e um pai que tinha um forte imperativo moral para fazer o que fez (quando em verdade não tinha nenhum, veja: 1+2+3+4).
Honestamente? O cinema pipocão é viciado demais em redenções e saídas fáceis, tanto que o próprio dono parece não se importar com os direcionamentos que dão as suas obras, desde que esteja sendo bem pago para isso. Vide o desastre chamado ‘O Procurado (Wanted,2008)’. Para nossa sorte, ‘Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass, 2010)’ se sobressai com um punch insano e indiscutivelmente sanguinário, valendo-se dos melhores seguimentos da trama, sobremaneira quando a Hit-Girl entra em ação. Aliás, da mesma forma que decorreram boas vibrações para a Senhorita Portman com seu trabalho em ‘O Profissional (Léon, 1994)’ dando vida a Mathilda, espera-se o mesmo para a Senhorita Moretz como a Mindy Macready de ‘Kick-Ass’. Falando em ação, é justo dizer que a seqüência mais revigorante nesse sentido foi a que a guria, de posse de um visor noturno e muitas armas, tenta salvar os traseiros de Damon e David no armazém no escuro. O ato de coragem em si vira um massacre no melhor estilo “Doom”, piora quando um dos bandidos ateia fogo em Big Daddy e tem seu clímax quando o mesmo, agonizando, instrui a filha a agir segundo as táticas “Kryptonita” e a “Vingança do Robin”. De encher os olhos.
Escrito por LUWIG
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