Sessenta e dois episódios depois, finalmente nessa semana, precisamente em ‘The Staircase Implementation (S03E22)’, descobrimos por meio de um impagável flashback como Leonard há sete anos conheceu Sheldon e, mais que isso, o que o levou a firmar com o mesmo o já tão mencionado acordo de convivência mútua para dividirem aquele apartamento. O relato é feito a Penny pelo seu ex-namorado após uma briga do próprio com o excêntrico companheiro de quarto por um ínfimo ajuste no termostato. Impagável é pouco, antes da chegada de Hofstadter o lar da dupla era inóspito e mais parecia um vão com apenas uma televisão surrada apoiada em dois tijolos, duas cadeiras de praia e o quadro de guerra com as formulações de física. Soma-se a péssima primeira impressão a constatação de que o Dr. Cooper afugentou todos os predecessores que ali residiram.
Curioso é perceber que nada corroborava para que Leonard se mudasse para lá, visto que o regramento estabelecido unilateralmente pelo texano requereria um esforço hercúleo para respeitá-lo, na verdade o que contou a favor de Sheldon foi o fato de ter inadvertidamente salvo a pele do “amigo” em duas ocasiões: (1) quando melou um rala-e-rola entre Leonard e Joyce Kim, uma espiã norte-koreana que queria informações do amante sobre a pesquisa de combustíveis para foguetes que desenvolvia para o Governo; e (2) quando o alertou sobre o erro de utilizar um combustível em gel usado no lançamento de foguetes num modelo compacto construído por Howard, resultado, a mistura estava prestes a explodir quando o físico teórico tomou à dianteira, colocando o recipiente no elevador (até então em funcionamento). O revival ainda arruma espaço para piadas recorrentes, como as previsões furadas de Sheldon sobre o “sucesso” de Firefly, por sinal, prata da nossa casa.
Indubitavelmente a melhor comédia situacional da atualidade, ‘The Big Bang Theory’ está às vias do encerramento do terceiro ano, com garantia contratual de retorno para mais duas temporadas, e um fôlego ímpar. Será um longo hiato até o 4° Round e, desde já, figuram como clássicos absolutos do programa os episódios ‘The Vengeance Formulation (S03E09)’ e ‘The Excelsior Acquisition (S03E16)’, respectivamente com a antológica cena de Howard e Katee Sackhoff na banheira e a participação mais que especial de Stan Lee.
No Frio da Noite
Falando em histórias de origem, nada mais justo que tecer um ou dois comentários sobre ‘Chill of the Night (S02E11)’ do ainda subestimado ‘Batman – The Brave and the Bold’, uma animação eficiente que, vale reforçar, expele por todos os pixels a magnitude colorida da Era de Prata dos quadrinhos. O episódio in loco, escrito por ninguém menos que Paul Dini, trata com todos os pormenores possíveis (ao formato) do assassinato de Thomas & Martha Wayne por Joe Chill. Detalhe, nem mesmo na antológica ‘Animated Series’, marcada pela verve sombria, tivemos o vislumbre dessa que é a mais célebre tragédia super-heróica de nossos tempos.
Na presente versão, Joe faz o que faz a mando de Louie Moxon, um mafioso que fora preso graças à interferência de Thomas em um baile beneficente. Trinta anos depois, sob o disfarce de padre, Batman colhe a confissão do criminoso prestes a morrer num leito de hospital. Entre seus lamentos, um saltava aos olhos, a frustração em ter deixado aquele garoto sem mãe. Assim, julgava-se mal, mas nunca um monstro, deixando no ar como suspiro final o nome do assassino: “Chill”.
Daí em diante entra em cena as figuras do Vingador Fantasma e o Espectro, ambos entabulando apostas sobre o que o Cavaleiro das Trevas faria com a informação. Seguir-se-ia trilhando o caminho da justiça ou passaria a desempenhar o ofício legítimo de agente da vendetta. Optando pela segunda alternativa, o preço seria a alma, prontamente cooptada por Raguel. A confrontação entre Bruce e Joe é inevitável e se dá no tom furioso de desforra esperado, inclusive com o morcego se desmascarando pela primeira vez na série.
Respeito o Dini, de coração, tanto que nem foi difícil ignorar um infeliz erro de julgamento do qual foi co-participe recentemente, afinal, são os riscos da profissão. Excetuando as exceções, tenho a convicção que ele é um dos poucos autores que compreende o âmago da lenda de Bob Kane, um dom que certamente lhe confere um tato minimalista sobre o personagem, reduzindo-o ao essencial.
Esse traço está presente em praticamente toda sua produção quiróptera, cujo ponto alto é na inesquecível ‘Guerra ao Crime’ ao lado de Alex Ross, mas pode ser conferido também em outra colaboração em ‘The Brave and the Bold’, e dessa vez mais desconstraída. Falo de ‘Legends of the Dark Mite (S01E19)’, um insólito conto com a participação do Bat-Mirim, o “maior fã" (e crítico) do Batman. Oriundo da 5ª dimensão (a mesma de Mr. Mxyzptlk), veio ao nosso plano para uma correção de curso, ou seja, ajudar seu ídolo a se tornar o maior herói de todos os tempos.
A amolação requer um desapego ímpar e passa pela reformulação do uniforme e chega ao cúmulo do bom senso numa convenção de quadrinhos, sci-fi, fantasia, horror, animação, games, action figures, colecionáveis e cultura pop. Na palestra, um nerd na platéia, devidamente paramentado, faz às vezes de "voz do povo" e, de pronto, leva na cachola a opinião da produção. Por fim, sigo agora na expectativa para com ‘Requiem for a Scarlet Speedster (S02E15)’, no qual teremos como convidado especial o Flash II, Barry Allen. Geoff Johns e Grant Morrison, como entusiastas confessos da aurora do Universo DC, devem dar saltinhos de alegria com esse desenho.
Reunião
Sim, foi o fim, bem ou mal, claro ou confuso, foi o fim. Lost não passou pela primeira década do século XXI sem deixar uma marca indelével no imaginário popular. Jack, Kate, Sawyer, Locke, Hurley, Sayid e muitos outros nos deixaram felizes, irrequietos, raivosos, tristes e, incontáveis vezes, com hordas de pulgas atrás das orelhas. Certo é que não dá para definir o sentimento com uma única emoção, o que sei é que amei muito Lost e odiei muito Lost.Sei também que alguns itens do mote central de uma trama tão complexa quanto essa apenas são o que são e não necessitam de esclarecimentos tão apurados quanto o que normalmente se cobraria para outros, como por exemplo, os bolsões de energia eletromagnética. Eles apenas estão lá, ou seja, a inteligência de ninguém sofre mitigações pela ausência de um estudo geológico de impacto ambiental. O que um roteirista deve-se a ter é na fragilidade (ou no poder) das entrelinhas que deixa para trás. E em se tratando de Lost, não foram poucas.
No final, fiquei sem saber: que fim levou a Iniciativa Dharma após a purga promovida em 1992; o que estava à sombra da estátua; do que a ilha precisava ser protegida; por que as grávidas morriam naquele lugar; o que era e o que engatilhava a doença que infectou o grupo de franceses de Rousseau; que sentido teria o simbolismo egípcio; o que seria aquele templo, por que sua fonte interna tinha propriedades curativas, e mais, o que levou Ben, no período em que teve câncer, a não ser agraciado com o caráter terapêutico do arquipélago; como a roda conseguia movê-la; o que motivou o exército nos anos 50 a levar aquela bomba de hidrogênio para lá; o que aconteceu depois que Juliet a fez explodir, nada? Afinal, perdi alguma coisa, ou simplesmente passei batido enquanto explicavam o sentido da realidade paralela? Um “além-vida” onde os perdidos se encontrariam no instante que suas vidas terminassem? Bem, mas quando foi que todos, sem exceção, morreram?
Olha, não gosto que nada venha mastigado para facilitar minha vida, o que ocorre é que tem coisas que simplesmente não se pode deixar aberto à interpretações alheias. Pior, e corrijam-me se estiver equivocado, o lado sobrenatural se sobrepôs novamente a racionalidade. Não em detrimento de uma compreensão científica/empírica, já que, no frigir dos ovos, a história dos sobreviventes do Oceanic 815 evadiu a todas as denominações que se almejou rotular. A questão é, será que tudo no final se resumiu a proteção de uma luzinha ridícula? Sei que o carisma dos personagens e a interação entre eles tornaram tudo mais palatável, mas era só isso? Se me permite um desabafo: pro inferno Jacob, a metáfora da garrafa e a maldita luzinha dourada.
(EDITADO)
Passei o dia tentando processar tudo, sem deixar me levar pelos erros de continuidade e as pendências no ar, enfim, vendo o conjunto da obra com alguma isenção. Não sei, talvez tenha passado pelos quatro estágios iniciais do luto (negação, raiva, negociação e depressão) em velocidade de escape e só agora, com o quinto aflorando (aceitação), me dei conta da magnitude do abalo sísmico de ontem à noite.
Alguns pontos que li por aí ajudaram horrores: (1) os passageiros do Oceanic 815 realmente sobreviveram à queda e vivenciaram* tudo que fora apresentado na ilha; (2) a ilha seria um vortex entre a vida e a morte, sendo a luz dourada uma fonte de vida eterna; (3) a realidade paralela é um limbo** (purgatório?) onde o indivíduo deve se encontrar para seguir em frente, uns morreram antes e já estavam lá (ex. Boone, Shannon, Charlie, etc) e outros, anos mais tarde (ex. Hurley, Ben, Sawyer, Kate, etc); (4) Hurley foi o “novo Jacob” e Ben, seu assistente, ambos cuidaram da ilha até o fim (morte) – isso ficou atestado quando Hugo fala a Ben, “você foi um ótimo número dois”, e este devolve, “e você foi um ótimo número um”; (5) e a ilha que aparece submersa no princípio da temporada é uma evidência que o lugar existe, contudo desnecessário naquela “vida”.
Em suma, o fim? Bom, a julgar pelo furor que se instalou após o capítulo duplo de ontem, é de se convir que uma longa discussão esteja apenas começando. Isto é, para aqueles hippies que ainda desejarem ficar na ilha.
* Não foi um embuste. Sawyer, Kate, Alpert, Lapidus e Miles escaparam da ilha naquele avião da Ajira Airways.
** Christian Shepherd revelou que o lugar em tela não possuía passado, presente ou futuro. Agora parece óbvio, mas a intenção dos flash-sideways não era outra senão a de revelar as conquistas pessoais de cada personagem no além-vida. As várias coincidências eram indícios do quanto estiveram ligados em vida.
Escrito por LUWIG
3 comentários:
Opa.
Bem legal seu post! Também acho que Bravos e Destemidos é subestimado, principalmente por causa da riqueza em referências, presente não somente no clássico episódio do Bat-mirim, como também em outros. Escrivi também um post sobre esse desenho, de repente dá uma lida lá. http://ficcaohq.blogspot.com/2009/11/bravas-e-destemidas-referencias.html
Abraços!
Não li o post do Kick-Ass (pra evitar spoiler), nem a parte do Loste deste (porque não interessava mesmo), mas dos outros estão ótimos.
Me impressiona a paciência/disposição que você e o Doggma têm de ficar editando screencaps dos vídeos. Ô trabalho de corno... Mas o resultado é muito bom (e, no caso de TBBT, engraçado também).
Sobre TBBT, também gostei muito do episódio em questão, principalmente pela aguardada explicação sobre o elevador - tinha que ter um motivo pro Sheldon não implicar com um elevador não-funcional. Mas gostei ainda mais do episódio seguinte, principalmente por estar na torcida para que a nova personagem entre pro elenco fixo da série.
Já sobre o desenho do Batman, nem subestimo mais, pois já vi um ou outro episódio com roteiro exemplar pra metragem do episódio (melhor que muito gibi com história fechada do personagem), mas não consigo gostar do desenho a ponto de querer ver sempre. Acho que é implicância minha com o traço idiota que escolheram.
1. Guilherme → Na verdade, tenho que me conter um pouco pra não acabar comentando todo e qualquer episódio de 'Brave and the Bold', sob pena desse lugar se transformar em um blog temático do Bruce. A propósito, curti não apenas o artigo que citou, mas todo o conteúdo da página. Assim que possível, vou etiquetá-lo na nossa barra lateral.
2. JP → Será que o Sheldon vai mesmo pegar a "Blossom"? Sobre os vídeos, não sei como o Dogg faz, mas minhas edições não têm mistério, uso apenas o Windows Movie Maker. Bem, talvez nem seja implicância, a estrutura despretensiosa de 'Brave and the Bold', totalmente one-shot, acaba se tornando apenas sazonalmente convidativa. É assistir sem compromisso e seguir com a vida (e cá entre nós, é assim que gosto).
Abração.
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