Minha Estante Encantada® tem um coração de mãe passível de comparação entre os de enfermos terminais de cardiomegalia e, por via de regra, tem sempre espaço para mais um. Nesses dias, inserções na mesma não são tão raras quanto em outros tempos, o que nunca deverá mudar, entretanto, são os critérios do rol, os mesmos, vale frisar, da Lista Rob Gordon (Top 5) de outrora.Tais requisitos são amplos e não estão atrelados a especificações usuais: série mensal, especial, arco ou one-shot, aspectos temporais, autores, etc. A análise do mérito atende apenas a exigência material, ou seja, o simples fato de possuí-la no acervo em seu estado físico (celulose) e não em abstrato (digitalizado). Vale a empolgação e as inesquecíveis imagens residuais que guardo consigo após inúmeras releituras.
O mais recente estranho no ninho a abrir passagem na estimada mobília chama-se ‘Ás Inimigo: Inferno nos Céus’ de Garth Ennis, Chris Alamy, Chris Weston & Russ Heath. Lançada originalmente como minissérie (dois capítulos) em março de 2001, na via tupiniquim saiu no formato integral em agosto de 2002, precisamente durante o esquema de contenção de gastos da Opera Graphica, ocasião em que a editora tinha o péssimo hábito de converter quadrinhos coloridos em P&B*.
* Acredite, foi assim também com suas versões de ‘Batman: Louco Amor’ de Paul Dini & Bruce Timm e os clássicos de Alan Moore ‘Piada Mortal’ e ‘Super-Homem: O Homem que Tinha Tudo e O Adeus’.
Bem, tropeços editoriais à parte, desserviço maior seria omitir esse verdadeiro achado da 9ª arte para seu público e, portanto, não publicá-la. Além do mais, a quem quero enganar, a Opera ainda me reserva um, dois ou três objetos de desejo a serem adquiridos em outros solstícios. Sobre o conto de guerra, era maio de 1942, o mais condecorado piloto de caça da aviação alemã na 1ª Guerra Mundial, Hans Von Hammer, havia dado como encerrado a carreira e vivia há mais de 10 anos o que julgava ser o resto dos seus dias numa solitária e vistosa propriedade nas montanhas da Bavária. Isolado do resto do mundo, porém ciente dos contornos que um conflito vinha tomando a partir do envolvimento generalizado da nação com o regime nazista. Era apenas questão de tempo até ser chamado, à contra gosto, para se apresenta ao dever.
E assim seguiu, não para abraçar a causa insana de Adolf Hitler, mas como um forte imperativo moral, para zelar por um contingente constituído essencialmente por pilotos inexperientes em Bfs 109 possantes, mas superados quando postos à prova nos céus contra os Spitfires Mk ingleses. A propósito, os relatos de Ennis sobre o enfraquecimento gradativo da máquina de guerra germânica, especialmente o declínio da Luftwaffe, como sempre, são de uma precisão histórica impecável. A inevitável ruptura do “Martelo do Inferno” com o 3° Reich se dá nas duas circunstâncias em que fora abatido em combate:
(1) Uma como testemunha da bravura indômita dos russos → na ocasião em que teve que fazer um pouso forçado em Leningrado e sobreviver a uma dura travessia em solo hostil, inclusive se deparando com o déjà vu mais sangrento de sua vida, ao reencontrar um velho companheiro, da Floresta Negra de Baden-Württemberg, dilacerando seus atacantes (ver 1+2+3+4). Quer dizer, não propriamente um reencontro, na verdade uma epifania, a constatação de que o lobo nesses anos todos não só era fruto da imaginação como também a escusa de consciência que o aviador eventualmente transfigurava para fugir a realidade: era o assassino perfeito e em tempo algum existiu homem ou criatura que pudesse chamar de semelhante.
(2) E ao vislumbrar a barbárie do próprio lado → quando um imediato nos céus é atingido e colide com sua aeronave, obrigando-o a ejetar. Por um sopro do destino, os ventos conduzem o pára-quedas dele até o campo de concentração de Dachau. Lá, descobre que o Führer vendeu ao povo alemão uma história inverídica de glória e redenção, escrita com o sangue dos judeus. Pior é verificar que foi coadjuvante de um dos maiores genocídios da História da humanidade. O que se sucede é a proposição de uma iniciativa de motim que culmina na rendição honrosa do então Major Von Hammer ao Sargento Rock e a Companhia Moleza.
Minha relação com o Barão de Robert Kanigher & Joe Kubert começou em 1994 com ‘Super Powers #31: Armageddon Inferno’ (E. Abril) e 1995 na ‘Coleção Invictus #24: Batman de Neal Adams’ (Nova Sampa) que compilava as edições #395, 397, 404 e 408 de Detective Comics. Na primeira, víamos na Pré-História o Triplano Fokker DR-1 de Von Hammer, Guy Gardner, Lobo, Orion e Estelar comprando uma briga que era de Tempus contra o demônio extradimensional Abraxis. Caso não saiba, a referida entidade era a mesma que estava aprisionada num ciclo infinito de batalhas contra a SJA no limbo a qual a equipe foi parar em Crise nas Infinitas Terras. Trocando em miúdos, foi nessa aventura que os heróis da Era de Ouro regressaram a continuidade corrente do Universo DC.
A seguir, em ‘Detective Comics #404’ de Dennis O’Neil & Neal Adams, com ‘O Fantasma do Matador dos Céus’, Batman investiga um assassinato no set de filmagens de uma cinebiografia da 1ª Guerra Mundial narrando à história de Von Hammer e acaba topando com um “Ás Inimigo” moderno, obstinado a preservar a memória do original. Destaque para a arte de Adams que emula o estilo de Kubert nas passagens em que o chucrute se faz presente. Recentemente, o morcego também alçou vôo com o Hans nas telinhas em ‘Batman: The Brave and the Bold’, no seguimento de abertura do episódio ‘Aquaman's Outrageous Adventure (S02E04)’.
Mas foi em 'Ás Inimigo: Um Poema de Guerra' (E. Abril) de George Pratt em 1995 que o “convidado especial” cessou com suas recorrentes passagens furtivas e ganhou meu respeito como protagonista. E pode soar como exagero, mas o próprio co-criador, Joe Kubert, no intróito dessa obra, deixou transparecer que até então nunca havia visto o personagem segundo aquele prisma. Nas palavras dele, “George me fez acreditar que seres bidimensionais, desenhados e pintados, na verdade vivem e respiram”.
Tamanha comoção se justifica, tratava-se não apenas da derradeira história do anti-herói alemão, mas, sobretudo, de uma profunda reflexão sobre a natureza humana, a supremacia do instinto de auto-preservação na nossa vida e a existência de uma conexão paradoxal entre todas as guerras. Tudo isso toma corpo a partir da visita de um jornalista, e veterano do conflito no Vietnã, a um idoso Barão com a saúde debilitada e batendo às portas do céu – se é que isto era possível.
O subterfúgio da visita de Edward Mannock ao velhinho era o de uma série de reportagens que vinha escrevendo sobre soldados que receberam medalhas de honra, no caso de Hans, o intuito era o de fazer um perfil em profundidade sobre o maior Ás da 1ª Guerra Mundial. No final, o que se vê é uma troca de experiências em tom de desabafo que desemboca numa das passagens mais surreais do Século XX: a “Trégua de Natal”.
Pessoalmente, ‘Um Poema de Guerra’ tem um valor sentimental incomensurável, porque na época em que aportara nas bancas não pude comprá-la devido ao preço salgado de capa, mas pude surripiá-la não muito tempo depois, de um primo abastado que vinha comprando tudo que era quadrinhos por conta do fascínio que andava nutrindo pelos desenhos animados dos X-Men. Não tardou até deixar o modismo mutante de lado e se distanciar dos ditos gibis. Lembro como se fosse ontem, costumava ir á casa dele sempre aos sábados, era tardinha, ele cuidava dos cães, enquanto me dirigia ao armário em que empilhava as revistas. Anos se passaram quando um dia foi à minha casa e viu a graphic novel em meio à coleção na estante, daí no ato me interpelou: “quando foi que você pegou emprestado?”. Dei uma boa risada e devolvi: “Emprestada? Ah, é minha, sempre foi, você nunca a mereceu”. Rimos juntos, e ficou por isso mesmo. Simbolicamente ‘Um Poema de Guerra’ representou um pequeno passo para um colecionador, mas um grande salto como leitor de quadrinhos. Isso porque foi a partir dali que me dei conta que aquele hobby poderia tanto entreter como agregar conhecimentos, e, quem sabe, despertar algum senso crítico. Em muitos aspectos, esse foi o 1° item da Estante Encantada®*.
* Logo mais devo revisitar o tema, trazendo à tona alguns de seus mais expressivos ocupantes.
Escrito por LUWIG
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