Terça-feira, Junho 15, 2010

Mestre & Aprendiz


Tenho uma teoria sobre todas as mazelas que afligem o globo. Se Deus tivesse uma TV LED LCD 47” Full HD 1080p 120Hz 3 HDMI e um bom pacote de canais por assinatura, em algum momento ele deixaria o discurso Ex Machina de lado e indubitavelmente cessaria com o laboratório humano e todas as conseqüentes atividades vouyeristas implicadas na manutenção do maior reality show privado já concebido.

Certa feita, o próprio desceu dos céus e fez uma ponta em uma de suas produções independentes, interpretando o engenheiro aeroespacial Edward Murphy. A repercussão dessa cena deveria ser apenas uma piada interna, mas tomou proporções, digamos, bíblicas.

Blasfêmias à parte, o fato é que, das duas, uma, ou o Criador é pão duro demais para dispor de algumas maravilhas do mundo e comprar o equipamento supracitado, ou está muito comprometido com o ventriloquismo como forma de entretenimento. Certo é que, na maioria das vezes, mesmo não crendo na linha pontilhada que o hábito nos impele a chamar de “destino”, uma miríade de circunstâncias imotivadas nos faz cogitar que um amigo/inimigo imaginário mexeu uns pauzinhos ali ou puxou um tapete acolá.

Comigo acontece direto. Semana passada, por exemplo, meu carro estava ok, revisado, com óleo e filtro trocados, motor em perfeito funcionamento, sem processo de carbonização, correia dentada checada, velas novinhas em folha, enfim, tudo como manda o figurino para fazer uma viagem tranqüila de 120 km. O que aconteceu? O inimaginável, a luz vermelha de alerta de lubrificação se acendeu e cinco segundo depois, cinco rombos no bloco do motor. Resultado, após muitas andanças e muita, muita barganha, de um orçamento inicial de R$ 6 mil, os reparos chegaram à ainda angustiantes R$ 2,5 mil. Moral da história?

Faço minhas as palavras de um sábio pugilista ítalo-americano: quando as coisas vão mal, você procura alguém para culpar, como se fosse uma sombra. O mundo não é um arco-íris e um amanhecer, na verdade é um lugar ruim e asqueroso. E não importa o quão durão você seja, apanhará e ficará de joelhos, se assim permitir. Nem você e nem ninguém baterá tão forte quanto à vida. Não importa o quão forte golpeia, mas sim, quantos golpes você agüenta levar e continuar em frente, o muito que você possa aceitar e seguir adiante. Assim é a vida.

Portanto, se ainda não esteve por lá, deveria. É na fossa que você se revela, conhece seu potencial e, acima de tudo, descobre o que será dali em diante. Foi assim com pessoas melhores que este que vos fala escreve, e foi assim com Walter White (Bryan Cranston), pai de um filho portador de necessidades especiais, marido de uma dona de casa grávida, vencedor do prêmio Nobel de química em 1985, professor secundarista, auxiliar de lava-jato e possuidor de uma conta bancária de $ 9 mil.

Walt vivia sua vida no piloto-automático, num cotidiano mundano de chefe de família e educador, sem qualquer anseio de ascensão profissional, fazendo apenas o bastante para fechar as contas no final do mês. Seria apenas mais um aniversário (de 50), não fosse um súbito desmaio enquanto engolia mais uma de tantas humilhações no segundo emprego. O diagnóstico? Câncer pulmonar inoperável. A ironia? O Sr. White nunca tocou num cigarro.

Poderia dizer que o tumor seria o gatilho de transição de Walter, mas estaria mentindo. O autor de 'Breaking Bad', Vince Gilligan, é um sádico, dos piores que já vi, daqueles que te deixam com os nervos à flor da pele, transferindo para o córtex, com a eficiência de um Intel 386, todas as sensações e inversões de paradigmas sofridas pelo protagonista. E isso, acredite, não é nada edificante, pelo contrário, é assustador, doloroso e ao mesmo tempo libertador o que a total ausência de esperança faz com o ser humano.



O vídeo acima se dá num momento (S01E06) em que “Heisenberg” sai da toca e se mostra para Tuco.

De repente, não se ter nada a perder é se despir de todas as convenções pré-estabelecidas pela sociedade, e fugir completamente a ética e a moral pode ser um caminho poderoso, sedutor e sem volta. Walt viu isso com o distanciamento de cientista que lhe permite analisar as propriedades dos elementos químicos. Se ainda resta algum respeito a regras, só às que pode manipular a partir da tabela periódica.

A vida bandida de Walt começa no dia em que bate a porta de um ex-aluno, Jesse Pinkman (Aaron Paul), um marginal pé-de-chinelo que subverte todas as leis da química produzindo metanfetamina. Mas a visita ao contrário do que se possa imaginar não era a de um professor obstinado a corrigir os desvios de conduta daquele estudante, e sim de um químico disposto a entrar para o ramo da produção de psicoestimulantes. Não havia escolha, se Jesse rejeitasse a proposta, Walt o entregaria ao cunhado, Hank (Dean Norris), um agente do DEA.

No princípio, o negócio apesar dos riscos era rentável, o problema era a enorme quantidade de variáveis em jogo: (1) a duplicidade de Walt comprometia a relação com a esposa, Skyler (Anna Gunn); (2) os critérios rigorosos de qualidade passavam a ser reconhecidos como uma assinatura – a do folclórico “Heisenberg –, tanto para os cartéis e usuários, quanto para as forças mantenedoras da lei; (3) Pinkman, por mais que conhecesse a fundo os negócios, ainda assim não passava de um amador, sem mencionar o perigo que o vício na própria droga representava para a operação.


O vídeo acima se dá num momento (S02E10) em que Walt já tinha o bastante para custear seu tratamento e garantir o sustento dos parentes. Foi ali que ele fez as pazes com o diabo.

E é a partir da volatilidade desses três cenários que todos os personagens da trama têm a faculdade de te fazer perder o controle do corpo no sofá que está acomodado. A metáfora que poderia usar seria a da transição inédita e espasmódica de um joystick de Atari para um de Master System*.

* Caso tenha vivido esse período, deve lembrar que era impossível não direcionar o Alex Kidd para a direita sem acertar o nariz do amigo que estava exatamente a sua direita.

Estávamos atualmente no terceiro ano do programa, que acaba de ser encerrado (13 de junho). Foi uma temporada nervosa que deixou muito caboclo insone, com a devida permissão do Sandro, um verdadeiro “barril de pólvora” prestes a explodir à menor animosidade. Amplos destaques para o “profissionalismo” de Gustavo Fring (Giancarlo Esposito), o flerte de Skyler com o lado sombrio, a descida ao inferno de Hank enfrentando os “Irmãos Loco” e, é claro, o estreitamento de laços entre Walt, cada vez mais pai, e Jesse, cada vez mais filho.

Se o Vince não mudar de idéia, a próxima safra de episódios deve ser a última. E a julgar pelo aumento exponencial das apostas, o clímax deve alcançar o ápice em duas trilhas sombrias: ou (1) o Walt terá um encerramento similar ao de Vic Mackey*; ou (2) tomará o lugar de Gus em Albuquerque.

Portanto, à parsecs de distância de qualquer templo new age com todo o elenco reunido e de mãos dadas celebrando a vida.

* Só para registro, ainda hoje o proprietário do Series Finale mais visceral que estes globos oculares já testemunharam.

Escrito por LUWIG

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