Sábado, Julho 31, 2010

Síndrome de Bucky

Ressuscitar um personagem de quadrinhos é como fazer um filme de Indiana Jones, você precisa ter um belo de um “McGuffin” para fazê-lo. Se o tem, é provável que alcance o mesmo êxito das manobras (de RCP) de Kevin Smith em Oliver Queen, de Joss Whedon em Piotr Rasputin e de Geoff Johns em Hal Jordan e, mais recentemente, naqueles doze. Caso não o tenha e ainda assim se habilita a trazê-lo de volta, é bom que esteja preparado para ser alvo intermitentemente de chacotas.

Judd Winick preferiu a segunda trilha ao conceber as estapafúrdias “pancadas nas paredes da realidade”. Abrindo um parêntese, a idéia em si é ridícula, isso ninguém discute, todavia o enredo de ‘Sob o Capuz’ só se torna de fato intragável quando o autor leva nada menos que quatorze capítulos para desenvolver um argumento que, se muito, tinha o suficiente para encher seis. O problema que vejo em Judd é que ele simplesmente não sabe quando parar. Explico.

Veja, por exemplo, sua passagem pelo Arqueiro Verde. O título vinha num ritmo insano com ‘O Espírito da Flecha(#1-10) e ‘Os Sons da Violência(#11-15) de Kevin Smith, seguiu com ‘A Busca(#16-22) de Brad Meltzer e a partir de ‘Mira Certeira(#26-31), ‘Os Muros da Cidade(#34-39) e ‘Sangue Novo(#40-45), Judd Winick e o mesmo Phil Hester dos arcos predecessores também fizeram bonito, forçando ao máximo todas as auto-sabotagens de Ollie desde a fuga da tumba.

Conte comigo, foram dezoito números com roteiros de alto nível, sem dever nada aos demais, mantendo inclusive a identidade da revista com as composições eficientes de Hester. Sabe quando foi que a porca torceu o rabo? Nas quarenta e duas e supérfluas outras edições em que esteve à frente da Família Queen.

Um verdadeiro absurdo que, a propósito, me remete a um trecho de uma entrevista de Brad Meltzer à Wizard Magazine em que era questionado se teria mais histórias da Liga da Justiça além das treze prometidas. Na resposta, além da negativa, lembro-me que ele deliberadamente dava um cutucão nos outros profissionais da área, se dizendo surpreso como conseguiam permanecer anos a fio num mesmo personagem e, em muitos casos, até em vários títulos paralelos.

J. M. Straczynski foi ainda mais contundente quando abandonou a Marvel e soltou: “há um fator de conforto em permanecer com um universo por tanto tempo” e concluiu “penso que precisamos nos desafiar de tempos em tempos a sair dos limites seguros do nosso playground e entrar em outro”.

Certo é que ‘Under the Hood’ nasceu torto, mas para a surpresa geral da nação quiróptera se endireitou em ‘Under the Red Hood’, principalmente porque na adaptação animada abriu mão de tudo que era arrastado e irrelevante no original, inclusive o aberrante “McGuffin” oriundo do sparring de Superboy Prime em 'Crise Infinita'. E o melhor de tudo, sem forçar a barra, ao privilegiar a própria mitologia gothamita para dar sentido ao regresso de Jason Todd.

Para tanto, fez-se uso das atribuições milagrosas de um retcon, acrescendo Ra’s Al Ghul na trama internacional na qual o Líbano/Etiópia dá lugar a Bósnia. Nesta versão, a Cabeça do Demônio tinha interesses escusos na região e para desviar a atenção de Batman, usa o Coringa como distração. O plano deu certo, tanto que mesmo cinco anos depois o detetive sequer suspeitava da presença do ex-sogro em Sarajevo. Só que o preço cobrado havia sido alto demais: o brutal assassinato de um garoto pesando na consciência.

Os requintes de crueldade de Jim Starlin & Jim Aparo do clássico ‘Morte em Família’ se mesclam a um deadline inquietante de tragédia anunciada, passíveis de comparação até mesmo com as piores horas da vida de Jack Bauer. E assim como em ‘24 Horas’, nos deparamos com variáveis alheias ao protagonista que ora contribuem (raramente), ora obstam seus anseios. No caso aqui, os nervos do espectador ficam a mil em três cenários que vão da velocidade de escape ao estático em meros cinco minutos de cena: (1) Batman dirigindo-se em alta velocidade para o armazém; (2) Coringa, sem pressa alguma, se divertindo com o pé-de-cabra em Jason; e (3) Ra’s, petrificado, dando-se conta do que acabava de desencadear.

Mas havia uma chance de retificar aquele erro, e tinha que aproveitá-la, afinal, o morcego* estava em sua identidade civil e, de certa forma, vulnerável com todo o incidente. Era a ocasião perfeita para agir à surdina e trocar o corpo de Jason por outro em idênticas condições. O objeto da troca derrubaria dois coelhos com uma só cajadada, melhor dizendo, testaria uma teoria antiga, e se correta, redimir-se-ia com o rival. Nobreza demais para um genocida? Sim, contudo não chega a ser incoerente com o perfil do personagem nos quadrinhos.

* Verificando se os Poços de Lázaro teriam além das propriedades rejuvenescedoras, a capacidade de trazer os mortos à vida.

A imersão teve êxito em reanimar Jason, mas o ímpeto de fúria do despertar, comum a todo contato com aquelas águas foi severo demais. Tanto que elimina um destacamento da Liga dos Assassinos num mero espasmo de memória muscular, saltando em seguida de um precipício, desaparecendo sem deixar vestígios. Durante muito tempo, Ra’s acreditou que naquela mesma noite o rapaz tinha retornado aos braços da morte, e como punição, daquele dia em diante, por não se considerar à altura do adversário, deixou de lado qualquer hostilidade contra o Cavaleiro das Trevas.

Foram-se cinco anos e surgia no presente um novo jogador em Gotham, jogando pelos dois times, diminuindo os índices de criminalidade a patamares controláveis, quer dizer, patamares que o próprio pudesse controlar, usurpando gradativamente todos os territórios Roman Sionis (Máscara Negra). Se auto-intitulava “Capuz Vermelho”, uma alcunha recorrente entre a bandidagem local, muito embora soasse como uma afronta direta ao mais notório dos outrora possuidores: o Coringa.



À beira de um ataque de nervos, Sionis coloca o elmo escarlate daquele homem a preço e envia mercenários super-humanos ao seu encalço. Em vão, é claro, e é a partir daí que o caldo entorna, quando o mafioso recorre* ao Coringa para fazer o que ninguém conseguia. E diga-se, uma das seqüências mais inusitadas do filme, mostrando que mesmo um pacote de batatinhas fritas e um copo d’água são perigosos nas mãos do maníaco albino. Santa imprevisibilidade, Batman!


A partir daí, os caminhos dos três se cruzam numa “reunião familiar” memorável, com direito a combates coreograficamente impecáveis e um ritmo dramático que Winick nem nos melhores dias poderia conceber. Méritos à intervenção salutar de Bruce Timm que, aqui, em ‘Under the Red Hood’, teve as “bolas” que o editor original, Bob Schreck, não teve para conter os excessos do autor.

Se fosse fazer uma analogia de formatos, eu diria que ‘Under the Red Hood’ é a bela minissérie em seis fascículos que Judd Winick & Doug Mahnke deixaram se esvair pelo ralo. Vou mais além, ‘Under the Red Hood’ poderia ter sido o “Soldado Invernal” da DC.

Pau que Renasce Torto Nunca se Endireita

Infelizmente, isso de nada vale para o que realmente importa, ou seja, os quadrinhos. Porque no lado de cá, a coisa anda bastante feia para o Jason, a prova revivida do que uma só laranja podre pode fazer com o seu suco. Do traumatismo craniano na realidade até aqui, o “Robin II” parece que ainda não voltou a si, singrando o Multiverso, usando e usurpando identidades* e por aí vai.

Mesmo a abordagem de Grant Morrison beirou ao absurdo quando, em dado momento, Jason revela a Sasha que estava ficando careca por conta das tinturas que Bruce o obrigava a usar no cabelo, visto que era ruivo e precisava ter a mesma aparência de Dick. Um “esqueleto” bisonho que deveria ter permanecido no armário de esquisitices do pré-crise.

* Foi o Capuz Vermelho em Batman #635-641, #645-650 e Anual #1; quis ser o Asa Noturna em Nightwing #118-122; deu uma de Robin Vermelho em Robin #175-183; brigou pra ser o Batman em Battle for the Cowl #1-3; e voltou com o rabo entre as pernas para o Capuz Vermelho em Batman & Robin #4-6.

No mais, Judd Winick está atualmente comprometido com a minissérie 'The Lost Days' que revela o que aconteceu durante os anos em que Jason perambulou no anonimato, refazendo seus passos do cemitério à primeira aparição pública como Capuz Vermelho. Por enquanto, não tenho muito do que me queixar, mas é como o próprio Bruce disse...


Escrito por LUWIG

Segunda-feira, Julho 12, 2010

Os Bons Filhos à Casa Tornam

A julgar pelas reações afetadas, é justo dizer que 11 em cada 10 leitores abominaram o mero cogitar da idéia. Algo, portanto, deveras compreensível, haja vista que à primeira impressão dá-se a entender que ocorrerá de fato uma regressão de temáticas a partir da cessação das famigeradas recomendações de leitura adulta. Mas cá entre nós, o que vem a ser nos dias de hoje uma leitura auto-intitulada adulta?

Se for pela marcante presença de impropérios em detrimento de tabuísmos grafados como cobras e lagartos, bombas, ou caracteres como a tralha, arrobas, além das nuvens de chuva, crânios, ossos, punhais com lâminas retorcidas, espirais e outros permitidos pela imaginação do roteirista, lhe garanto que não vou perder meu dia por ter limitado o linguajarculto” de Garth Ennis.

Outro item polêmico seria a existência de seqüências de nudez e pornô soft, que de tão tímidas nem sei se adéquam aos patamares mínimos de sacanagem permitidos de um sacerdote mundano. Se a coisa geralmente descambasse diante de critérios de obscenidades, digamos assim, mais altos (leia-se baixos) como os de um Howard Chaykin em tempos idos, aí sim.

Contudo, a questão não se limita ao que é permitido/proibido, o ponto é que a DC Comics, imaginada como um todo, com a criação do selo Vertigo e a aquisição da Wildstorm, de certa forma viabilizou um apartheid criativo no que se entende como Universo DC. Seja na produção ou no que se deixa de produzir, o resultado são quadrinhos essencialmente nivelados por baixos para um público que praticamente só envelhece. Aliás, chega a ser um paradoxo imaginar na atualidade segmentos voltados especificamente para nichos que, no frigir dos ovos, só se confundem (são os mesmos).

Por mais que seja bastante tentador culpar Paul Levitz e Dan Didio por engessar o potencial da DC na última década, é preciso que façamos em uníssono uma mea culpa. A verdade é que o debate entre leitores e entre estes e os realizadores, intermediado por ferramentas como o blog e o twitter, se dá num plano intelectual tão ridículo, que é bem possível que quem faz acontecer imagine que categorizar quadrinhos seja a única forma segura de aumentar o nível da discussão. Sim, somos subestimados, e com toda razão, quer prova disso?

Pois bem, sem julgamentos de mérito aqui, pergunto (retoricamente), será que alguém se deu conta da quantidade assustadora de abobrinhas que veicularam mundo a fora por conta de uma indumentária? Sério, se o retcon de Straczynski, por sinal mais drástico do que a recauchutagem cosmética, mantivesse apenas o maiô clássico, era capaz de passar despercebido tanto pela mídia, quanto pelos supostos “fãs”.

“Companheiros de Capote”

Sem desviarmos do foco, a real motivação desse texto veio mesmo daquela info lá do começo, com o regresso dos filhos pródigos* do Universo DC que deixaram sua zona de conforto rumo a paragens mais exóticas há 17 anos. Em especial, aquele quarteto de ocultistas trajados de sobretudos, que esbanja até hoje um imenso potencial que nunca sequer fora utilizado.


Falo da ‘Brigada dos Encapotados’, uma espécie de “Illuminati” de místicos cuja primeira aparição foi vista na antológica minissérie (em 4 fascículos)Livros da Magia’ de Neil Gaiman, John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess & Paul Johnson. Na ocasião, a finalidade da reunião era decidir se deveriam ou não intervir na eventual decisão de Tim Hunter, um menino de 12 anos, predestinado a se tornar o maior mago daquela era, em optar por uma vida cotidiana ou uma que convergisse com a magia.

Para tanto, o Vingador Fantasma, John Constantine, Dr. Oculto e Mister Io resolveram que a melhor maneira de influenciá-lo de modo que não viesse a representar um risco para a comunidade mística num futuro próximo, seria apresentar-lhe o caminho do encantamento, da arte, do oculto e do feitiço. Seguindo uma estrutura de “road comic”, cada um dos encapotados ao seu modo (e em cada um dos capítulos) trilha os alicerces, vai ao encontro dos competidores, percorre fronteiras inimagináveis e por fim, vai ao fim da magia em amanhãs hipotéticos.

Trocando em miúdos, poderia ser um compêndio de A-Z do seguimento mágico da DC, mas foi além quando se desdobrou em interpretações ousadas sobre as estruturas e hierarquias de poder daquele Universo, numa riqueza de detalhes sem igual até hoje. Se me perguntasse, diria que é a obra super-heróica mais intrigante da realidade em que Bruce, Clark e Diana* são peças chave, e a segunda em ordem de relevância na biografia de Neil Gaiman na 9ª arte.

* Perdendo, se é que podemos colocar dessa forma, apenas para a inigualável Sandman.

Vejamos agora quem é quem nesse Tabuleiro Ouija:

Vingador Fantasma

É o único da Brigada que instila alguma confiança perante terceiros, uma vez que sempre tomou a dianteira em causas justas, o que por sinal lhe confere uma voz de liderança entre os mesmos. Em contrapartida, é o mais enigmático do grupo, empilhando múltiplas versões de sua origem secreta. Há quem diga que é um judeu errante, ou um anjo que nem caiu com Lúcifer, nem lutou ao lado de Miguel. Alguns têm a convicção que se trata de um servo imortal da Ordem, outros do Caos, ou mesmo de um meio-termo, o Equilíbrio.

Em ‘O Labirinto Invisível(Livros da Magia #1 de 4), ele dá início a excursão pedagógica levando Tim aos primórdios do tempo e da magia. Partindo da própria criação; sendo testemunhas do primeiro desatino e a primeira rebelião que culminaria na queda do portador da luz e seus sectários; presenciando o desaparecimento do último arquipélago do continente perdido, bem como toda e qualquer manifestação periódica que evidenciasse tentativas de burlar as leis naturais.

John Constantine

Este ocultista de Liverpool dispensa qualquer apresentação. Em vários aspectos, é a voz da razão (ou do povo) na diminuta agremiação e também seu único alívio cômico, sendo dele, inclusive, a autoria do apelido “Brigada dos Encapotados”. Se utilizado com apuro e um tantinho de esmero, Constantine seria uma adição e tanto ao vasto elenco da Terra-0.

Não? Duvido que o mais pessimista não deixe escapar um sorriso de Mona Lisa vendo o John ridicularizar a turma da malha justa. De todo modo, em ‘O Mundo das Sombras(Livros da Magia #2 de 4), o aprendiz de feiticeiro é levado ao Novo Mundo para conhecer o grande circuito e seus competidores. O intuito seria lhe dar uma idéia do preço inicial. Dentre os vários rostos de famosos que vêm e vão durante este passeio, destaque para as participações mais que especiais de Nimue Inwudu (Madame Xanadu), Boston Brand (Desafiador), Jim Corrigan (Espectro), Kent Nelson (Senhor Destino) e Zatanna Zatara.

Dr. Oculto

De longe a mais aprazível de todas as incursões, é ‘No Crepúsculo do Verão(Livros da Magia #3 de 4) sob a chancela de Richard Occult, o Dr. Oculto, que adentramos no Reino Encantado. Um reduto à parte da realidade que dá passagem para mundos além da razão e, portanto, fora dos limites do Multiverso. E não são poucos, praticamente impossíveis de quantificar e apenas relanceadas nesta jornada, tais como Skartaris, Myrra, Gema do Mundo, Inferno* e o Sonhar.

* Seguindo uma ideologia idêntica ao que se viu em o Monstro do Pântano (Anual #2) de Alan Moore, e anos mais tarde – a reiterando – em Sandman (Estação das Brumas, #21-28).

Mas falemos um pouco desse personagem fascinante, criado pela dupla kryptoniana Jerry Siegel & Joe Shuster em 1935. Sua história tem início em 31 de dezembro de 1899, precisamente no Meio-Oeste dos Estados Unidos, quando um culto demonista tenta conjurar o Satã na soleira do novo milênio. Para tanto, tinham de oferecer o sacrifício de dois inocentes, um menino e uma menina. O chamado é atendido, mas não por quem clamavam e sim por Koth, uma criatura tão ameaçadora quanto, que preferia espíritos espúrios a almas imaculadas.

Salvos durante o festim diabólico por um homem chamado Zator, Richard e Rose são levados a uma proeminente organização de místicos conhecida por “Cidadela dos Sete”. E lá foram criados e instruídos nas artes ocultas. Anos mais tarde mudar-se-iam para Nova York, inaugurando uma agência de detetives especializada em mistérios sobrenaturais. O que desperta curiosidade em Oculto é a duplicidade de anima e animus, uma espécie de fusão entre as personas de Richard e Rose. Talvez resida nessa relação o cúmulo do amor platônico.

Mister Io

Eric, o Mister Io, é o vértice mais problemático deste quadrilátero. Portador de um severo transtorno dissociativo de identidade advindo de uma educação rígida na infância, conduzida por um pai rancoroso e abalado pelo abandono da esposa. Sua história, assim como a dos demais, é deveras controversa e inclui até mesmo sugestões de que sofrera abusos sexuais, o que não se discute é o dado que informa o motivo de sua cegueira: ao ser flagrado espiando uma revista erótica, teve os olhos arrancados com uma colher afiada pelo próprio genitor.

Tantos traumas transformaram-no numa pessoa errática, repleta de opiniões que destoam do moralismo comum, muitas das quais esculpidas a partir do fundamentalismo cristão. Pior, vangloria-se das atitudes do velho, afirmando que as órbitas vazias lhe deram outra perspectiva sobre a natureza humana. Na ‘Estrada para Lugar Nenhum(Livros da Magia #4 de 4), é dele a condução de Tim ao(s) futuro(s) da magia. Dizer mais seria estragar várias surpresas do clímax desse conto, então me reservo ao direito de imaginar que estás nesse momento se roendo para lê-lo.

Repercussões

Ao fim dessa minissérie, a DC voltou suas atenções para Tim Hunter e deixou de lado a Brigada, investindo numa série mensal de ‘Os Livros da Magia’ com John Ney Rieber & Peter Gross, agora à frente da busca do garoto por aprendizado. A revista fez sucesso durando 75 edições, sendo que as 50 iniciais contaram com o próprio Neil Gaiman como consultor criativo. No Brasil, nunca vimos seu desfecho, na verdade sequer era possível acompanhá-la com alguma dignidade, sendo publicada a trancos e barrancos entre 1995-1999 até a #25 pela Editora Abril, Metal Pesado, Tudo em Quadrinhos e Atitude.

Portanto, um material com chances ínfimas de ser finalizado em celulose. Não fosse a intervenção do Santo das Causas Perdidas dos Quadrinhos, o Von Dews do Vertigem, encabeçando o esforço conjunto de disponibilizar o que resta de inédito, seríamos órfãos de um dos títulos mais inventivos do selo Vertigo. Vibrações positivas para o amigo: foram-se 51, faltam 24!

A 10ª Era da Magia

Dentro da cabeça de Bill Willingham deve haver alguma explicação muito razoável para justificar o que fez com a ala ocultista da DC a partir de ‘Dia de Vingança’. Fechando o balanço, o Espectro riscou praticamente todos os nomes de sua hit list: (1) transformou o Vingador Fantasma em um camundongo; (2) extraiu os globos oculares da Madame Xanadu de tal forma que ela nunca poderia restaurá-los através de magia, impedindo-a de ler as cartas de tarô; (3) desmantelou toda a família Marvel ao abater o Mago Shazam; e (4) aprisionou o Senhor Destino na dimensão interna do elmo e pouco tempo depois eliminou o próprio Nabu, sepultando o último Lorde da Ordem e com ele, a 9ª Era da Magia.

É bem verdade que de certa forma há um vislumbre do ocorrido em ‘Livros da Magia #4’, mas daí empregar um grupo tão tacanho quanto este e logo na linha de frente da resistência à campanha do Espectro? Sem falar que o supra-sumo do ocultismo funcionou praticamente como figuração durante toda ação. Não que seja no todo um desperdício de papel, mas que ficou a impressão de que o Bill urinou naquele jardim arrumadinho em que Alan Moore cuidou das sementes (em o Monstro do Pântano) e Neil Gaiman da manutenção, isso ficou.

Como pode ver, a 10ª Era da Magia não começou com o pé direito, mas aos poucos as coisas vão se ajustando e, por que não, seguindo seu curso natural. Se o Paul Dini não me decepcionar (e raramente o faz), Zatanna tem um futuro promissor na nova revista mensal; Matt Wagner vem mantendo uma regularidade invejável em Madame Xanadu, indicada três vezes ao Eisner Awards 2009 (nas categorias melhor escritor, capista e série nova); e se depender da minha torcida, que venha por aí uma nova carga para a Brigada dos Encapotados.

Escrito por LUWIG