Ressuscitar um personagem de quadrinhos é como fazer um filme de Indiana Jones, você precisa ter um belo de um “McGuffin” para fazê-lo. Se o tem, é provável que alcance o mesmo êxito das manobras (de RCP) de Kevin Smith em Oliver Queen, de Joss Whedon em Piotr Rasputin e de Geoff Johns em Hal Jordan e, mais recentemente, naqueles doze. Caso não o tenha e ainda assim se habilita a trazê-lo de volta, é bom que esteja preparado para ser alvo intermitentemente de chacotas. Judd Winick preferiu a segunda trilha ao conceber as estapafúrdias “pancadas nas paredes da realidade”. Abrindo um parêntese, a idéia em si é ridícula, isso ninguém discute, todavia o enredo de ‘Sob o Capuz’ só se torna de fato intragável quando o autor leva nada menos que quatorze capítulos para desenvolver um argumento que, se muito, tinha o suficiente para encher seis. O problema que vejo em Judd é que ele simplesmente não sabe quando parar. Explico.
Veja, por exemplo, sua passagem pelo Arqueiro Verde. O título vinha num ritmo insano com ‘O Espírito da Flecha’ (#1-10) e ‘Os Sons da Violência’ (#11-15) de Kevin Smith, seguiu com ‘A Busca’ (#16-22) de Brad Meltzer e a partir de ‘Mira Certeira’ (#26-31), ‘Os Muros da Cidade’ (#34-39) e ‘Sangue Novo’ (#40-45), Judd Winick e o mesmo Phil Hester dos arcos predecessores também fizeram bonito, forçando ao máximo todas as auto-sabotagens de Ollie desde a fuga da tumba.
Conte comigo, foram dezoito números com roteiros de alto nível, sem dever nada aos demais, mantendo inclusive a identidade da revista com as composições eficientes de Hester. Sabe quando foi que a porca torceu o rabo? Nas quarenta e duas e supérfluas outras edições em que esteve à frente da Família Queen.
Um verdadeiro absurdo que, a propósito, me remete a um trecho de uma entrevista de Brad Meltzer à Wizard Magazine em que era questionado se teria mais histórias da Liga da Justiça além das treze prometidas. Na resposta, além da negativa, lembro-me que ele deliberadamente dava um cutucão nos outros profissionais da área, se dizendo surpreso como conseguiam permanecer anos a fio num mesmo personagem e, em muitos casos, até em vários títulos paralelos.
J. M. Straczynski foi ainda mais contundente quando abandonou a Marvel e soltou: “há um fator de conforto em permanecer com um universo por tanto tempo” e concluiu “penso que precisamos nos desafiar de tempos em tempos a sair dos limites seguros do nosso playground e entrar em outro”.
Certo é que ‘Under the Hood’ nasceu torto, mas para a surpresa geral da nação quiróptera se endireitou em ‘Under the Red Hood’, principalmente porque na adaptação animada abriu mão de tudo que era arrastado e irrelevante no original, inclusive o aberrante “McGuffin” oriundo do sparring de Superboy Prime em 'Crise Infinita'. E o melhor de tudo, sem forçar a barra, ao privilegiar a própria mitologia gothamita para dar sentido ao regresso de Jason Todd. Para tanto, fez-se uso das atribuições milagrosas de um retcon, acrescendo Ra’s Al Ghul na trama internacional na qual o Líbano/Etiópia dá lugar a Bósnia. Nesta versão, a Cabeça do Demônio tinha interesses escusos na região e para desviar a atenção de Batman, usa o Coringa como distração. O plano deu certo, tanto que mesmo cinco anos depois o detetive sequer suspeitava da presença do ex-sogro em Sarajevo. Só que o preço cobrado havia sido alto demais: o brutal assassinato de um garoto pesando na consciência.
Os requintes de crueldade de Jim Starlin & Jim Aparo do clássico ‘Morte em Família’ se mesclam a um deadline inquietante de tragédia anunciada, passíveis de comparação até mesmo com as piores horas da vida de Jack Bauer. E assim como em ‘24 Horas’, nos deparamos com variáveis alheias ao protagonista que ora contribuem (raramente), ora obstam seus anseios. No caso aqui, os nervos do espectador ficam a mil em três cenários que vão da velocidade de escape ao estático em meros cinco minutos de cena: (1) Batman dirigindo-se em alta velocidade para o armazém; (2) Coringa, sem pressa alguma, se divertindo com o pé-de-cabra em Jason; e (3) Ra’s, petrificado, dando-se conta do que acabava de desencadear.
Mas havia uma chance de retificar aquele erro, e tinha que aproveitá-la, afinal, o morcego* estava em sua identidade civil e, de certa forma, vulnerável com todo o incidente. Era a ocasião perfeita para agir à surdina e trocar o corpo de Jason por outro em idênticas condições. O objeto da troca derrubaria dois coelhos com uma só cajadada, melhor dizendo, testaria uma teoria antiga, e se correta, redimir-se-ia com o rival. Nobreza demais para um genocida? Sim, contudo não chega a ser incoerente com o perfil do personagem nos quadrinhos. * Verificando se os Poços de Lázaro teriam além das propriedades rejuvenescedoras, a capacidade de trazer os mortos à vida.
A imersão teve êxito em reanimar Jason, mas o ímpeto de fúria do despertar, comum a todo contato com aquelas águas foi severo demais. Tanto que elimina um destacamento da Liga dos Assassinos num mero espasmo de memória muscular, saltando em seguida de um precipício, desaparecendo sem deixar vestígios. Durante muito tempo, Ra’s acreditou que naquela mesma noite o rapaz tinha retornado aos braços da morte, e como punição, daquele dia em diante, por não se considerar à altura do adversário, deixou de lado qualquer hostilidade contra o Cavaleiro das Trevas.
Foram-se cinco anos e surgia no presente um novo jogador em Gotham, jogando pelos dois times, diminuindo os índices de criminalidade a patamares controláveis, quer dizer, patamares que o próprio pudesse controlar, usurpando gradativamente todos os territórios Roman Sionis (Máscara Negra). Se auto-intitulava “Capuz Vermelho”, uma alcunha recorrente entre a bandidagem local, muito embora soasse como uma afronta direta ao mais notório dos outrora possuidores: o Coringa.À beira de um ataque de nervos, Sionis coloca o elmo escarlate daquele homem a preço e envia mercenários super-humanos ao seu encalço. Em vão, é claro, e é a partir daí que o caldo entorna, quando o mafioso recorre* ao Coringa para fazer o que ninguém conseguia. E diga-se, uma das seqüências mais inusitadas do filme, mostrando que mesmo um pacote de batatinhas fritas e um copo d’água são perigosos nas mãos do maníaco albino. Santa imprevisibilidade, Batman!
A partir daí, os caminhos dos três se cruzam numa “reunião familiar” memorável, com direito a combates coreograficamente impecáveis e um ritmo dramático que Winick nem nos melhores dias poderia conceber. Méritos à intervenção salutar de Bruce Timm que, aqui, em ‘Under the Red Hood’, teve as “bolas” que o editor original, Bob Schreck, não teve para conter os excessos do autor.Se fosse fazer uma analogia de formatos, eu diria que ‘Under the Red Hood’ é a bela minissérie em seis fascículos que Judd Winick & Doug Mahnke deixaram se esvair pelo ralo. Vou mais além, ‘Under the Red Hood’ poderia ter sido o “Soldado Invernal” da DC.
Pau que Renasce Torto Nunca se Endireita
Infelizmente, isso de nada vale para o que realmente importa, ou seja, os quadrinhos. Porque no lado de cá, a coisa anda bastante feia para o Jason, a prova revivida do que uma só laranja podre pode fazer com o seu suco. Do traumatismo craniano na realidade até aqui, o “Robin II” parece que ainda não voltou a si, singrando o Multiverso, usando e usurpando identidades* e por aí vai.Mesmo a abordagem de Grant Morrison beirou ao absurdo quando, em dado momento, Jason revela a Sasha que estava ficando careca por conta das tinturas que Bruce o obrigava a usar no cabelo, visto que era ruivo e precisava ter a mesma aparência de Dick. Um “esqueleto” bisonho que deveria ter permanecido no armário de esquisitices do pré-crise.
* Foi o Capuz Vermelho em Batman #635-641, #645-650 e Anual #1; quis ser o Asa Noturna em Nightwing #118-122; deu uma de Robin Vermelho em Robin #175-183; brigou pra ser o Batman em Battle for the Cowl #1-3; e voltou com o rabo entre as pernas para o Capuz Vermelho em Batman & Robin #4-6.
No mais, Judd Winick está atualmente comprometido com a minissérie 'The Lost Days' que revela o que aconteceu durante os anos em que Jason perambulou no anonimato, refazendo seus passos do cemitério à primeira aparição pública como Capuz Vermelho. Por enquanto, não tenho muito do que me queixar, mas é como o próprio Bruce disse...
Escrito por LUWIG





É o único da Brigada que instila alguma confiança perante terceiros, uma vez que sempre tomou a dianteira em causas justas, o que por sinal lhe confere uma voz de liderança entre os mesmos. Em contrapartida, é o mais enigmático do grupo, empilhando múltiplas versões de sua origem secreta. Há quem diga que é um judeu errante, ou um anjo que nem caiu com Lúcifer, nem lutou ao lado de Miguel. Alguns têm a convicção que se trata de um servo imortal da Ordem, outros do Caos, ou mesmo de um meio-termo, o Equilíbrio. 
Este ocultista de Liverpool dispensa qualquer apresentação. Em vários aspectos, é a voz da razão 
De longe a mais aprazível de todas as incursões, é ‘No Crepúsculo do Verão’ 
Eric, o Mister Io, é o vértice mais problemático deste quadrilátero. Portador de um severo transtorno dissociativo de identidade advindo de uma educação rígida na infância, conduzida por um pai rancoroso e abalado pelo abandono da esposa. Sua história, assim como a dos demais, é deveras controversa e inclui até mesmo sugestões de que sofrera abusos sexuais, o que não se discute é o dado que informa o motivo de sua cegueira: ao ser flagrado espiando uma revista erótica, teve os olhos arrancados com uma colher afiada pelo próprio genitor.
