Segunda-feira, Janeiro 31, 2011

Por Cima da Carne Podre

Regressando do mais longevo período supostamente sabático desta caserna, ocasião esta em que me diverti horrores num confronto espartano cuja demanda não era mais de que 733 por vaga* e, muito embora, ainda esteja convalescendo de experiências suicidas de privação do sono em 2010, eis alguns pontos que ficaram para trás e devem ser examinados sem mais delongas:

Minha contagem regressiva extra-oficial para com a adaptação seriada de ‘The Walking Dead’ por Frank Darabont começou logo após o término daquele maldito concurso. À época, o destrinchar da coisa foi, digamos assim, cruel, visto que, uma vez incorporado o espírito romeriano dogg-style, meio que fico bitolado tentando emular um estado necrófilo de Nirvana que só deveria vir à tona a partir de 31 de outubro. Na verdade, veio um pouquinho antes por conta do vazamento do piloto.

Até o fechamento desta edição, já havia relido as quatro compilações iniciais publicadas pela HQ Maniacs, e adentrei novamente na versão underground do bom samaritano Von Dews com ‘The Best Defense (#25-30)**’. Certamente um dos arcos mais angustiantes vividos pelos sobreviventes do holocausto zumbi de Robert Kirkman, aliás, aí vai uma confissão, só de relembrar a figura nada aprazível do “Governador” e algumas de suas travessuras, o processo acaba sendo instantâneo, acabo fazendo um link psico-sadista que corresponderia a 1/20 do testemunhado em Martyrs (2008). Pouco? Dadas as devidas proporções, seria como meu nobre amigo uma vez disse: “não leia”.

Se existe nos quadrinhos um vilão mais amoral e perverso quanto este, faz favor, nos apresente. Mesmo os saudosos Barracuda (Punisher Max) e Herr Starr (Preacher) ficariam envergonhados de suas malvadezas se comparadas com as de Philip***. Mas o que era dele, estava guardado.

* Faça as contas: 46 vagas para Analista Processual do MPU (Brasília) e 33.721 na disputa. Foi insano.

** Reza a lenda que este volume está prestes a ser lançado, agorinha mesmo em fevereiro.

*** Há uma corrente minoritária em ascendência, na qual estou afiliado, que aponta que Philip e o muito citado, embora nunca visto Alexander Davidson, seja a mesma pessoa. Um dado que à primeira vista só funcionaria como uma sórdida coincidência, contudo teria cacife para ser um divisor de águas na relação conturbada entre Douglas e Rick.

Nesses dias também revi ‘O Nevoeiro (The Mist, 2007)’ de Frank Darabont. Antes, porém, outra confissão, aí está um sujeito que me transmite segurança e serenidade para tocar para frente uma transposição entre mídias tão densa quanto a que se imaginaria que seria a de ‘The Walking Dead’. Se no meu imaginário cinzento, ele já despontava com uma das reputações mais ilibadas da indústria do entretenimento, após aquele desfecho corajoso (do filme supra), diga-se, o mais miserável que vi em toda minha vida, sei agora que tudo que já vi naqueles quadrinhos cruentos de Robert Kirkman & Charlie Adlard poderiam ser na telinha, senão mantidos, superados.

É interessante notar também que vários colaboradores usuais do Frank foram aproveitados neste seriado, dentre os quais se destacam Laurie Holden (Andrea) que esteve em Cine Majestic e O Nevoeiro e o veterano Jeffrey DeMunn (Dale) de Um Sonho de Liberdade, Cine Majestic, À Espera de um Milagre e O Nevoeiro. Outro fator decisivo desse sucesso de crítica e público foi a liberdade total de criação disponibilizada pelo canal AMCquer dizer, a praxe nos programas da casa, vide Mad Men, Breaking Bad e do já saudoso (e injustiçado) Rubicon.

Fator este que tranqüilizou a esmagadora maioria da comunidade necrófila, e fez com que pensássemos que Rick Grimes & Cia. estavam seguros, pelo menos aqui, no mundo em três dimensões. Some-se a isto a intensa participação de Kirkman como produtor executivo e um marketing agressivo que incensou a Comic Con do ano passado e seguiu firme e forte até a estréia do show.

Contudo, nem tudo foi tão azul quanto se pintou entre o hype chapado e os números divulgados, principalmente quando optaram pelo caminho sinuoso das discrepâncias a partir do clímax de ‘Wildfire(S01E05) e a passagem desnecessária pelo CDC em ‘TS-19(S01E06). Não que a apresentação do Dr. Edwin Jenner tenha sido um fiasco, claro que não, na verdade, a abordagem do bom (?) doutor sobre a atividade cerebral de um vivo e de um morto acabou se tornando um novo adendo a mitologia zumbi.

O problema que vi – e, honestamente, não sei se vós vistes também – é que naquele momento não estava mais assistindo ao The Walking Dead de Robert Kirkman, mas sim uma vertente hollywoodiana de extrema-esquerda, e o simples fato de Shane continuar respirando enquanto o grupo cai na estrada, me dá náuseas só de pensar que essa temporada de debute poderia ter concluído o ciclo de ‘Days Gone Bye (#1-6)’ e pelo menos iniciado ‘Miles Behind Us (#7-12)’ com a passagem pelo condomínio de Wiltshire Estates.

Claro que algo se perderia na transposição de mídias, e o ganho até aqui foi maior que as perdas, principalmente quando aumentadas as apostas no episódio piloto (antológico!) e sua seqüência, ‘Guts (S01E02), contudo mudar apenas por mudar é um caminho perigoso, uma linha bastante tênue, uma vez que se trata de um quadrinho com propostas muito bem resolvidas, sedimentadas em celulose no que seria propriamente uma estrutura celulóide (live-action). Portanto, mexer com detalhes é uma coisa, como o acréscimo de personagens instigantes como os irmãos Dixon ou supervalorizar a densidade das circunstâncias (vide a despedida de Andrea à Amy), mas estabelecer rotas diversas das definidas nos quadrinhos, ainda mais quando fogem a temática caótica de Kirkman, admitindo-se a ciência dos “porquês” num mundo onde a única ciência que se permite é a do “salve-se quem puder”.

No mais, curti, ainda que com ressalvas xiitas*, mas sim, curti.

* Contudo, aguardo com vibrações positivas uma correção de curso no nosso segundo encontro.

Não tanto quanto ‘Justified’, western moderno com tiradas de efeito e rico em saraivadas de bala; ‘Spartacus – Blood and Sand’, um mix constrangedor entre ‘300’ e ‘Roma’ que, quem diria, deu certo e com ou sem Andy Whitfield deve ter sua 2ª temporada em 2012; ou o supracitado ‘Rubicon’, indubitavelmente o thriller de espionagem mais inteligente que a telinha já teve (e já vi), e sem sombra de dúvida a maior injustiça do ano passado; e, o que é para muitos a redenção de George Lucas perante seu público – após os incidentes ‘Ameaça Fantasma’ e ‘Ataque do Clones –, ‘Star Wars – The Clone Wars’ é uma série que vem testando os limites de sua audiência, se atendo corajosamente aos pormenores do universo expandido, colocando em evidência personagens secundários e conferindo um tratamento tão sombrio quanto possível a uma animação oriunda do Cartoon Network.

Aliás, os quinze capítulos desse terceiro ano, exibidos até o momento, são tudo aquilo que um fã de Star Wars queria ver e jamais havia visto ou sequer sonhado que viveria para ver. São revelações pontuais como os dos tons cinzentos da guerra entre República e Aliança Separatista, seja pelo ineditismo ao desmitificar o “inimigo” – o que equivale dizer, também é sabotado internamente por Darth Sidious –, seja por apresentar a outra face da moeda, delimitando os caminhos do Lado Sombrio da Força.

Pra posteridade fica o mais recente episódio, ‘Overlords (S03E15), que cuida de desvendar um dos mais debatidos dogmas da franquia, que seria sobre a natureza profética de “Chosen One” de Anakin, o “manipulador” que traria o equilíbrio à Força. O que procede, haja vista que é ele, em dois momentos distintos, o responsável pela destruição de ambas as Ordens, tanto dos Jedis quanto dos Sith. Se não é uma forma de equilíbrio, não sei o que mais é.

Ainda sobre este episódio, dois dados interessantes: (1) senti baforadas criogênicas na espinha com a precognição que Ahsoka teve de si própria mais velha. Vivendo ou morrendo o que é certo é que sua história não deve acabar nada bem; (2) Qui-Gon Jinn lives in Force!

Bem, é isso. Que a Força esteja com vocês e até a próximae espero que seja mais próxima do que a última.

Escrito por LUWIG

11 comentários:

Rodrigo Maia disse...

E o pulso ainda pulsa!
Sempre apreciei seu estilo narrativo nos posts, tomara que o próximo seja mais próximo mesmo, heheheh.
Estou aguardando para assistir Walking Dead de uma tacada só, mas eu também não tenho muita expectativa; prefiro assim para não me frustrar depois.
Nunca tive muita vontade de ver essas animações de Star Wars, sempre imaginava serem só encheção de linguiça, bom saber que tem conteúdo nesses 15 episódios que vc citou.
Abraço

Do Vale disse...

Tava sumido, hein? Sei bem como são esses confrontos espartanos, cara... =)

Anônimo disse...

sucesso cara,
sempre venho ler os seus posts, pois a sua narração é sempre convidativa para conhecer material bom.

Marlo de Sousa disse...

Você me animou muito mais para as HQs do Kirkman do que para a série. Você sabe, não sou exatamente afeito a baixar filmes ou séries (talvez eu pensasse diferente se minha conexão fosse minimamente digna), então, para ver The Walking Dead, ou assino TV a cabo ou espero os boxes em DVD.

Quanto a Star Wars, já se sabe que muito do melhor da mitologia se desenvolve em Clone Wars. Fico pensando se teremos que esperar que George Lucas morra para que tenhamos um nova série de cinema desse universo que poderia expandir-se indefinidamente.

É bom tê-lo de volta. Volte sempre!

Eduardo de Assis disse...

Welcome back! Mas... cadê o Guia Undergrounde de Leitura do Homem-Morcego? Não consegui achá-lo mais no blog!

Luwig disse...

Rodrigo: parece pulsar em estado terminal, mas ainda assim é uma pulsação. Se serve de alguma coisa - e se é que tenho alguma credibilidade no que diz respeito a isso -, pretendo aumentar a regularidade do blog em 2011. Bom, vamos lá. Por mais que torça o nariz para algumas balbúrdias presentes no seriado, faz sentido o que Robert Kirkman uma vez disse: é Walking Dead para as massas, e as massas apreciam alguns "porquês". Sobre Clone Wars, vou mais longe, esse desenho supera em ação e dramaticidade qualquer dos seis filmes.

Do Vale: sumido é pouco, 2010 não foi lá um ano muito camarada para mim e os meus. Mas, enfim, sobrevivemos as Termópilas da década de 2000, que venham as próximas.

Anônimo: Obrigado pela preferência.

Marlo: internet digna? Meu bom e velho amigo, você precisa de mais cabelo, uma GVT e alguns novos paradigmas, isso sim. Se consegui atiçar só um pouco sua curiosidade sobre o quadrinho de The Walking Dead, como diria o velho capitão (Beto Nascimento): missão dada, é missão cumprida. Quanto a SW, se o seriado em live-action que pretence cobrir o invervalo entre o Episódio III e o IV seguir a linha de The Clone Wars, acredito que essa geração terá sérias ressalvas sobre a hexalogia (e digo, com toda a razão).

Eduardo: por trás da história do meu sumiço, aconteceu algo que me fez frear a produção aqui no blog, que foi o fechamento do site (Acelayouts) em que armazenava todas as imagens e tirinhas que editava. Como meus textos de alguma forma sempre são pautados no que mostro, perdi muita coisa e muita coisa ficou sem sentido, daí o bonitão aqui que, claro, não tem o hábito de salvar suas postagens, não viu outra saída a não ser deletar tudo aquilo que ficou sem pé e nem cabeça. Entretanto, minha incompetência não foi completa, tinha ainda em HD algumas sequências do que era mais recente e o Guia, acredite se quiser, salvo em sua primeira versão salvo por completo. Portanto, logo mais devo republicar o Guia com várias atualizações.

Grato pelos comentários.
Vida longa e próspera.

Hiroshi disse...

Puxa... Sentimos sua falta... Longos e longos meses sem seu brilhante texto... São duas séries que tenho vontade de ver... só simplesmente ainda não vi: Walking Dead e Clone Wars. Agora com seu aval então... huahuauhahua...

JoaoFPR disse...

Garoto
Bom te ter de volta.

Queiroz disse...

Eu não tenho muito o que dizer sobre os dois temas, pois nunca li e assisti Walking Dead, e quanto a Clone Wars e assisti num cinema quase vazio, enquanto no cinema ao lado lotado estava passando TDK, vale dizer que já tinha visto o filme do morcegão pelomenos umas 3 vezes já nessa época.

Valeu Luwig, esperando aqui sua resenha baseado nas notícias que já temas sobre The Dark Knight Rises, o ponto final na inédita trilogia do Morcego.

EdsonZ disse...

Grande retorno!
Desde julho venho esperando periodicamente por atualizações do blog.
Espero que as próximas análises sejam sobre quadrinhos.
E no fim das contas, qual o resultado da peleja? Aprovado? Se sim, tudo valeu a pena. Se não, não foi em vão.
Aquele abraço,
EZ!

Luwig disse...

Hiroshi e João FPR: Obrigado pelo comitê de recepções. Vocês são dos nossos.

Queiroz: não tem muito que se teorizar quando se trata de filme de Chris Nolan. E é melhor que seja assim, lembra de ‘A Origem’? Passou-se quase um ano entre pré-produção, produção e pós-produção sem ao menos o diretor liberar uma sinopse. E olha o resultado? Gosto do silêncio dele, muita gente fala demais (e inventa demais). Creio que o personagem de Tom Hardy em DKR deve seguir a linha de Bronson (2008) que, pelo menos em tese, é o próprio Bane. Quanto a Anne Hathaway, não tenho a mesma opinião que a maioria, acredito sim que ela pode vir a interpretar uma ótima Selina Kyle. Quem assistiu O Amor e Outras Drogas (2010) de cabeça aberta viu que ela tem potencial para viver uma fêmea fatal espirituosa do porte da Mulher-Gato e no mesmo compasso impor a sensibilidade inerente a ladra. Mas isso são só conjecturas e assim será até a estréia.

EdsonZ: a peleja? Tombei em combate, meu nobre. Contudo, é aquela coisa, água mole e pedra dura...

Grato pela participação.
Midi-chlorians positivos.