Creio que ninguém precisa ser categórico quanto ao que o ‘All-Star Superman’ de Grant Morrison & Frank Quitely significa para o maior ícone super-heróico de todos os tempos: é indubitavelmente a melhor e mais ousada história do homem de aço desde que Jerry & Joe, de comum acordo, deram vazão àquelas lâmpadas que circundavam suas cabeças em 1938. Sem o aval agridoce do que chamamos de “continuidade” e a compleição por prazos que a DC Comics lamentavelmente habituou-se a interferir sobre o trabalho de seus artistas, temos aqui uma experiência genuína sobre tudo aquilo que Clark Kent foi, é ou seria daqui a mil anos. Se adaptado corretamente em live-action, provavelmente teria cacife para se tornar um marco tão representativo para o personagem quanto o que O Cavaleiro das Trevas de Chris Nolan foi para Batman em 2008. E é exatamente este sentimento, de dever cumprido, quase tão tocante quanto à última vez que vi o Andy, que persiste após o primeiro contato com os créditos finais da animação homônima dirigida por Sam Liu, produzida pelo ás do desenho em movimento, Bruce Timm e com roteiro do esculachado, Dwayne McDuffie.
E méritos para este último que teve o trabalho ingrato de converter uma minissérie irretocável em um script redondinho, editando o disposto nos quadrinhos das edições #1-3, 5 e 9-12. Basicamente, o que seria de mais relevante para o mote principal da trama, ou seja, os últimos passos que Kal-El trilhou após o diagnóstico do Dr. Leo Quintum de que estaria sofrendo de uma severa deterioração celular devido à superexposição solar do princípio da saga.
No que diz respeito à direção de arte do filme, a cargo da coreana Moi Animation Studios, igualmente responsável pelos recentes (e excelentes) DC Showcase (Espectro, Jonah Hex, Arqueiro Verde e Superman/Shazam), Liga da Justiça: Crise em Duas Terras e Justiça Jovem, fica mantida a regularidade de praxe e mimetiza com algum sucesso a assinatura do Mestre Quitely. E não são poucos os trechos em que a transposição de quadros tem traduções ipsis litteris – um deleite para os mais familiarizados com a série. Aliás, tanta qualidade e aparentemente visão alguma por parte dos executivos da Warner que vêm despejando produções deste porte diretamente no mercado de Home Video. Vale dizer, um verdadeiro pecado, All-Star Superman não faria feio nos cinemas. Na verdade, no meu mundinho perfeito e guardada as devidas proporções, julgo que superaria facilmente o montante gasto pelo emo de aço de Singer. Mas, vá lá, me parece que não há mais espaço nas telonas para animações convencionais em 2D desde o traumático* Titan A.E.
* Ou é duro demais para este que vos fala escreve admitir que o Clark não faça mais o tipo admirado pelos Escoteiros-Mirins. Hoje, definitivamente, quem dita regras de etiqueta¹ são gente que faz como o Gru ou o Megamind. No final das contas, o Joe Kelly parece que estava certo. ¹ Acredite, até no Action Comics de Paul Cornell & Pete Woods as andanças do Lex soam melhor que as demais revistas do kryptoniano.
O que poderia ser um entrave e tanto para o corajoso clímax que, diga-se de passagem, reprisa o apoteótico desfecho da versão original, revela-se contundente dentro do que Grant Morrison se propôs, mesmo que para tanto tenha redimido Luthor ao final. Falo da discrepância entre o que se estabelece na edição #10 e o epílogo do filme, trocando em miúdos, no quadrinho o próprio Super-Homem decifrou seu genoma confiando a Quintum a seqüência inteira de oito bilhões de letras num livro, junto com instruções sobre como combinar fitas humanas e kryptonianas*; e no vídeo (abaixo), é Lex quem o faz, fruto daquela epifania e, de certa forma, um desdobramento deste pensamento.* Percebe a diferença entre o “S” de cada frasco? O da mão direita continha o material genético de Clark e enquanto o da esquerda possuía o de Lois. Fiz a mesma pergunta retórica à época que li essa edição #10: se ele já havia encontrado a solução para o dilema do “nunca teríamos mais do que isto”, por que diabo não deu um trato na mulher antes do fim iminente?
No mais, não fiquei tão incomodado com isto quanto daquela vez, tal feito inclusive me remeteu a sensatez diante da troca da lula gigante alienígena pela bomba no Watchmen de Snyder. É verdade, são casos distintos, mas ambos fizeram todo sentido para as narrativas. Meu receio mesmo era que Clark fosse vítima de algum subterfúgio criativo e não alcançasse seu destino no centro do sistema solar, mas felizmente não aconteceu. E aqui cabe um parêntese, esta é a segunda vez que McDuffie tem êxito em adaptar uma obra de Morrison, se em All-Star Superman o que esteve em pauta era a fidelidade sobre o texto do escocês, em Crise em Duas Terras o que sobrou foi vivacidade ao justapor conceitos de ‘Terra 2’ e ‘Crise Final’, chegando a um denominador comum irrepreensível (vide o vídeo acima).
Se fosse para acrescentar algo, certamente chamaria à baila: (1) a solução do Super-Homem para o câncer; (2) a tocante intervenção perante uma garota suicida; (3) e a insólita passagem da edição #12 em que o mesmo, desacordado, tem um encontro extra-sensorial com Jor-El. Essa última foi Grant Morrison em estado lisérgico bruto. Enfim, nada de novo saiu destas linhas. Minha voz é apenas mais uma que se soma ao coro de fãs que há muito apregoa sobre a vanguarda da DC Comics em matéria de animação. E tenho dito, num universo em que Dan Didio ainda respira...
[ATUALIZADO]
Notícia triste. Acabo de saber do falecimento de Dwayne McDuffie. A morte repentina não o tornará um gênio da 9ª arte, tão pouco o eximirá da notória carência de originalidade naquele meio, mas uma coisa é indiscutível: quando seus roteiros ganhavam movimento, não havia fronteiras. Poderia vir aqui e simplesmente citar vários episódios maravilhosos em que seu nome é creditado na saudosa série animada da Liga da Justiça (e Sem Limites) e sequer conseguiria qualificar a reputação que este homem construiu na telinha ao longo dos anos. Meus queridos 'Hereafter' e 'Epilogue' falam por si. Muitas crianças adultas ficaram e ficarão órfãs hoje. Escrito por LUWIG

5 comentários:
Fala, Luwig! Rapaz, esse final "apesar do Didio" fechou com chave de ouro (ou de material-superdenso-de-uma-estrela-anã-branca - ha ha).
Adaptar algo com All Star Clark já começa de um patamar naturalmente desvantajoso, dado ao que se perde na transição, mas muito mais, logicamente, pelo status de obra clássica que já possui. Isso posto, em termos gerais, concordo contigo: os trabalhos foram bem sucedidos, a essência está lá e num baixo nível de diluição.
Assino embaixo também sobre a ausência da sequência com a suicida. Era representativa demais pra ser cortada (embora eu entenda que invoque sentimentos mais densos do que um censura PG normalmente teria).Uma pena.
Sobre o dilema Clark/Lois, talvez aquela última fala dele para o Quintum (complementada pelo recordatório para a Lois) seja uma boa pista. E ganha um peso absurdo se pensarmos nela dessa forma.
No mais, também acho que uma obra dessas merecia mais que um direct-to-BluRay-DVD. Mas pra isso, a qualidade da animação (movimentos, cenários) deveria ser bem maior também. Imagina se fosse uma produção de Akira por trás...
Ps: cuidado com o Vimeo. É bem mais enjoado que o YouTube nesse negócio de copyright. Deletam sem dó.
Quando se aproxima do fim de All-Star Superman, a animação, minha mente entoava um mantra unico: "que não tenha o epilogo no futuro, qu enão tenha o epilogo do futuro". Apesar dessa partizinha final ser importante para fechar a idéia do Morrison, não cabia na animação. Bom que não teve.
de resto gostei muito do que vi, o traço buscanod se aproximar o máximo do original, as adaptações necessárias (Luthro decodificar o DNA do Super foi para provar de vez como se ele não fosse obsesssivo poderia ser melhor do que é).
E concordo contigo, merecia uma mega produção para cinema, mesmo que não fosse live-action.
Doggma: Pois é, meu amigo. É tanta frustração se amontoando por conta de alguns contornos que a DC vem assumindo que a do “Timm Saves” meio que saiu como desabafo. Mas isso aí fica pra outro dia.
Aquela seqüência da suicida tem um contraponto pra lá de interessante, que põe em evidência a maneira como olhamos para nossos heróis. Tente substituir o Clark por qualquer outro irmão de armas e a cena perde completamente seu sentido. Só alguém com a sensibilidade do Super-Homem teria envergadura moral para amparar aquela garota.
Nem faço mais questão de entender esses critérios gringos de censura. Espancar um garoto com pé-de-cabra e, em seguida, explodi-lo é bem possível, salvar uma suicida, não?
Sobre o “futuro” de Clark & Lois, creio que Morrison um dia voltará a esta questão, tanto quanto o fez com ‘All-Star Superman’ a partir do arquivo de idéias de ‘DC: Um Milhão’. Afinal, o legado da Tropa Superman (vista na edição #6) merece ter sua história contada.
Infelizmente, Akira é um capricho que pertence aos mistérios da década de 1980*. Creio que pra fazer sucesso nas telonas e, principalmente, entre os Escoteiros-Mirins, All-Star teria que possuir uma vibe gráfica idêntica ao do empolgante trailer de DC Universe Online.
Até o Vimeo? Foi o único que não apagou meus arquivos em 24hs. Esse aí até que está durando, mas vai saber.
* Bons anos. Até os refrigerantes pareciam melhores do que são hoje.
Marcelo: Como disse no texto, minha apreensão residiu exatamente na dúvida se iriam ou não reprisar o desfecho original. É, até que não seria má idéia um epílogo com a Tropa Superman, e creio que isto inclusive deve ter sido analisado pela produção, mas no final deve ter pesado a favor o clima gostoso de despedida. Ainda bem.
Abração.
Não é possível medir qual seria a duração fiel das 12 edições de All Star Superman para o cinema, mas creio que poderia dar uma boa trilogia. Para mim seria o ideal, apesar do ótimo trabalho de Richard Donner, nunca foi realizada uma adaptação tão fiel como a visão de Morrison e Quitely para o cinema, com citação de tantos arcos.
Minha dúvida seria na escolha dos atores, jovens ou veteranos? Na revista eles tem a aparencia muito jovem para aquele que parece a despedida do Superman ou mesmo vale destacar a conversa do Super com Lois na Fortaleza da Solidão sobre tanto artifícios ele usou para cobrir sua identidade secreta, isso indica um certa longevidade.
Eu gostaria de ver Tarantino apresentando sua versão do Superman, como fica claro em Kill Bill seu Super Herói preferido. =)
Enfim, ao lado da série Justiça, All Star Superman é a melhor coisa que li com a presença do "Último" Filho de Kripton
Valeu Luwig
Eu não li a HQ e o Doggma sempre a enaltece pra mim. Repararei o erro. Mas essa animação é dificil de engolir, não no mau sentido, mas da forma sensivel e introspectiva que é desenvolvida. Apesar do apuro técnico/narrativo das animações da DC, essa aí me pegou direto no coração. Sério.
Belo texto, man.
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