Um dos maiores pecados que a cultura ficcional de nosso tempo, ou melhor, a que costumo ter acesso, é a reiterada confusão entre referência e reverência. O jargão do “nada se cria/tudo se copia” é definitivamente um trocadilho que saiu pela culatra e hoje é levado tão a sério quanto possível, pode inclusive ser entendido como uma política de metas ecologicamente correta em Hollywood, a maior indústria de reciclagem do mundo.Embora deteste admitir, na última década, a partir da aproximação radical que a 9ª arte teve da 7ª, principalmente na parcela mainstream (super-heróica) daquele mercado, os velhos clichês foram amenizados de tal forma que hoje a escassez de originalidade ganha um “revigorante” status de releituras. Isso fica cada vez mais inconteste nas premiações anuais do seguimento, aliás, ocasiões em que, ao contrário do que muitos possam imaginar, os jurados não seguem as tendências* ditadas pelas listas da distribuidora norte-americana Diamond Comics, e habitualmente são recompensados os trabalhos que de fato se diferenciam por aquelas bandas.
Claro que vez ou outra existem rompantes, como por exemplo, a estapafúrdia indicação de James Robinson ao Eisner Awards de melhor roteirista pela tenebrosa ‘JLA: Cry for Justice’. Felizmente não levou, em favor de Ed Brubaker que, enquanto fizer quadrinhos decentes como ‘Criminal’ e ‘Incognito’, deve seguir abocanhando troféus nesta categoria que, aliás, já são três em três edições (2007, 2008 e 2010). O que, não estranhe, deve se repetir enquanto DC e Marvel viverem às turras com suas crises, guerras, invasões, mortes, possessões, realidades e ressurreições. O autor que se destaca é aquele que das duas, uma: ou (1) faz uso de alguma dessas temáticas surradas a partir de storytellings inovadores; ou (2) é tão original quanto possível, partindo de um nada criativo que em verdade representa, metaforicamente, a separação do joio do trigo.
* Parece ingenuidade de minha parte, mas a justiça dos números geralmente não é a mesma que se vê no Eisner ou no Harvey Awards.
Jeff Lemire, nova aposta da DC/Vertigo, é um cartunista canadense egresso do cenário indie daquele país, criador da elogiada Essex County (Top Shelf, 2009), que se sobressai diante de premissas como as primeiras (supracitadas). No que toca a estética de suas páginas internas, tem uma afeição incomum a experimentações diagramáticas e de perspectivas, distinção essa que lhe confere um domínio narrativo invejável, muito embora não tenha um traço palatável à primeira vista. Lembra o que seria um “Paul Pope” em estágio embrionário.Sweet Tooth, série mensal que lhe deu notoriedade, lida com conjunturas pós-apocalípticas na esteira de hits como Filhos da Esperança (Children of Men, 2006) ou A Estrada (The Road, 2009), ou, quiçá, aspirações literárias como as de H.G. Wells em A Ilha do Dr. Moreau. Se vacilar, vale um parêntese no inimitável (e já saudoso) Y: The Last Man de Brian K. Vaughan & Pia Guerra. Enfim, uma colcha de retalhos muito familiar que a princípio não convence ninguém, mas ganha substância ao se insistir na virada de páginas, especialmente quando chegamos ao segundo livro, ‘In Captivity’ (Em Cativeiro, edições #6-11).
Mas antes, em ‘Out of the Woods’ (Fora dos Bosques, #1-5), conhecemos um pouco da história de Gus, uma criança de nove anos de idade que viveu até aqui de forma reclusa, numa cabana no interior da Floresta Nacional de Nebraska, sem nunca ter visto outro ser humano que não o próprio pai, Richard Fox, que por trás da fachada de pai amoroso, protetor e temente a Deus, se esconde um misterioso passado que deve coincidir com o princípio da praga que devastou aquele mundo.
Tamanho isolamento se justifica, haja vista que Gus é um híbrido de homo sapiens com cervídeos, uma provável conseqüência da doença que se alastrou há oito anos e dizimou parte da população global, estabelecendo uma anomalia nos fetos que fossem concebidos dali em diante, ou seja, mestiços provenientes da fusão entre homem e a fauna terrestre.
Alvos de milícias, essas crianças têm peso de ouro, por serem imunes são vistas como a chave para a sonhada* cura da H5-69. * Falando em sonhos, em um deles Gus se depara com seu eu mais velho. Tudo indica que os anos que virão não devem ser generosos para o garoto cervo. Que Déjà vu, hã?
Quando o Sr. Fox falece, vítima da moléstia em tela, o garoto se vê tentado a deixar os limites da floresta e é aí que seus problemas começam. O primeiro deles chama-se Tommy Jepperd, um ex-jogador de hóquei e sobrevivente nato, que promete conduzi-lo a “Reserva”, um mítico abrigo de “crianças-animais”. Detalhe, tal personagem foi inspirado no Frank Castle de ‘Punisher, The End’ de Garth Ennis & Richard Corben. Muito justo, mesmo sem seu conhecimento prévio, a referência vai ficando evidente a cada avanço da leitura. Sobre esta última, uma dica: sugiro que leiam as coletâneas ininterruptamente*, mesmo que para tanto tenham que aguardar o término de cada ciclo (livro), fazendo isso, você garante no mínimo uma imersão um pouquinho mais miserável no mundo de Gus. E se não for uma experiência agradável, pense comigo, é porque foi bom.
* Livro 1: Out of the Woods (#1-5); Livro 2: In Captivity (#6-11); Livro 3: Animal Armies (#12-17). Obs. A série foi imaginada para durar 40 edições.
The Nobody (O Ninguém)
É isso, Lemire ganhou minha atenção e ganhou também a da DC Comics. Com o ótimo desempenho de Sweet Tooth, sobremaneira nos encadernados, ganhou sinal verde para produzir ‘The Nobody’, destaque na recente leva de graphic novels do selo Vertigo, conquistou também o posto de roteirista na nova revista de Conner Kent, o ‘Superboy’ e vem respondendo pelo relançamento do pequenino Ray Palmer, ‘The Atom: Nucleus’.Ainda não posso avaliar seu desempenho à frente dos dois últimos, mas esse The Nobody é praticamente a materialização da zona de conforto do autor, vista pela primeira vez no já citado Essex County, que seria a primazia nas crônicas familiares em cidades de pouca densidade populacional. Some-se a fórmula consagrada (mais) alguns miligramas de H. G. Wells, e temos um conto moderno sobre o Homem Invisível. Brilhante e translúcido como deveria ser.
Novas Regressões em Pisa-Brite
Pensou mesmo que a decimação de minha gibiteca cessaria por ali? Jamais, enquanto houver revistas com mix chulos por aí, sempre será um trabalho em progresso. Vejamos o que andei aprontando:
Justiceiro Max, Livro 2 → Punisher Max #31-60.
E tenho dito, longe do cotidiano marvete, Punisher Max de Garth Ennis é um reduto lúgubre e irrepreensível tanto para ótimos contos policiais quanto para temas mais complexos como escravidão sexual, fraudes corporativas, guerra fria, terrorismo e, claro, o Vietnã, todas com estruturas bastante concisas e uma notável (des)construção de coadjuvantes, dentre os quais restam eternizados os ex-agentes da CIA, Kathryn O'Brien e William Rawlins, o General Nikolai “Homem de Pedra” Alexandrovich Zakharov, e o mercenário (e força da natureza) Barracuda.Wolverine por Jason Aaron, Livro 1 → Wolverine #56, 62-65, 73-74; Wolverine - Manifest Destiny #1-4; & Wolverine – Weapon X #1-5.
De todo o desperdício de celulose que vem sendo impresso entre numerosas séries e derivados de James Howlett, é justo dizer que as que carregam consigo a assinatura de Jason Aaron (Scalped) são as que valem algumas árvores. O conto de Wolverine #56, ‘O Homem no Poço’, é seguramente uma das melhores histórias já produzidas para o baixinho onipresente. Wolverine: O Velho Logan → Wolverine #66-72; & Giant-Size Old Man Logan.
Era só questão de tempo até alguma alma sebosa bolar um future pós-apocalíptico com um Logan amargurado. Felizmente não foi nenhum Kaare Andrews a fazê-lo, mas sim uma dupla que despensa apresentações, Mark Millar & Steve McNiven. O enredo não mudará o curso de rios, tão pouco acrescentará algo a 9ª arte ou mesmo a sua vida, o lance aqui é fechar os olhos e imaginar-se cruzando uma terrinha do Tio Sam, dividida e possuída por tudo quanto é vilão, em um Buggy Aranha tunado, com um Clint Barton cego ao volante e um Wolverine pacifista como navegador.Quarteto Fantástico por Mark Millar & Bryan Hitch → Fantastic Four #554-569.
Existe o mito entre os leitores brasileiros de que o Demolidor e o Quarteto Fantástico são títulos agourentos que independentemente de suas respectivas fases, de uma maneira ou de outra, sempre abreviam as revistas nas quais são hospedadas. Normalmente eu diria que isso é bobagem de fanboy, só que, analisando a dança das cadeiras na década passada, dá pra constatar que é muita sorte que ainda possamos acompanhar Matt Murdock, Reed Richards e Cia. por essas bandas. O que claro, é um pensamento reconfortante, mas a verdade é que esses dois teriam cacife de sobra para veicularem nas bancas como carros-chefe, afinal, foram donos de uma regularidade ímpar durante esses primeiros anos do século XXI, com nomes consagrados como Brian M. Bendis e Ed Brubaker à frente do Demolidor e o Quarteto sob a chancela de Mark Waid, J. M. Straczynski, Mark Millar e Jonathan Hickman. Subestimados? Sempre.
Demolidor: Mercenária & O Retorno do Rei → Daredevil #111-119 & 500.
Última compilação da monumental fase de Ed Brubaker & Michael Lark. Um clímax conciso, redondinho, daqueles desconstruídos com precisão, como a fileira alinhada de dominós e o abraço gélido do destino, realocando nosso deficiente visual preferido num círculo do inferno mais adequado as suas recentes façanhas.Thor por J. M. Straczynski → Thor #1-12, 600-603; & Giant-Size Finale.
Não vejo com bons olhos o futuro de Straczynski, mas seu passado é qualquer coisa próxima do genial. Parte dele nutrido à base de Midnight Nation #1-12, Supreme Power #1-18 e as histórias que fez com J. Romita Jr. em Amazing Spider-Man #30-58 & 500-508, período este, vale frisar, imediatamente antes de Gwen Stacy aprimorar o corte de cabelo de Peter. Seu Thor faz parte desse passado, mas quem roubou a cena aqui foi o Loki.Os Supremos 2 → The Ultimates 2 #1-13; & Annual #1.
Teve um início arrebatador, uma metade apoteótica e um desfecho balbuciante. Até hoje não entendi o comportamento pimpão do Thor naquela edição #13, tendo em vista tudo aquilo que sofreu na #5. Esperava mais som e fúria de uma deidade viking, num (baixo) nível estilo “salvei vossa pátria, agora lambeis todos, meu Mjolnir”.Lanterna Verde: Sem Medo, Hal Jordan - Procurado → Green Lantern #1-9; & Secret Files #1.
Lanterna Verde: Hal Jordan, Procurado → Green Lantern #10-20.
Tropa dos Lanternas Verdes: Recarregar → Green Lantern Corps #1-13; & Recharge #1-5.
E aí, alguém acredita mesmo que irei desembolsar R$ 79,00 pelo encadernado da Panini? Resposta logo abaixo.Liga da Justiça por Morrison, Waid & Porter: Nova Ordem Mundial → JLA - A Midsummer's Nightmare #1-3; & JLA #1-9.
Liga da Justiça por Morrison, Waid & Porter: A Pedra da Eternidade → JLA #10-23.
Liga da Justiça por Morrison & Semeiks: Um Milhão, Livro 1 → DC One Million #1-2; JLA #1000000; & Spin-Offs.
Liga da Justiça por Morrison & Semeiks: Um Milhão, Livro 2 → DC One Million #3-4; Spin-Offs; & JLA #24-26.
Liga da Justiça por Morrison, Waid, Quitely & Porter: Terra Dois → Earth 2; JLA #27-31 & 33.
Liga da Justiça por Morrison & Porter: Terceira Guerra Mundial → JLA #34 & 36-41.
Liga da Justiça por Waid, Porter & Hitch: Torre de Babel → JLA #43-54.
Dessa coleção só faltam mesmo as edições #55-58 e a minissérie JLA: Year One #1-12. Logo mais devo compilá-los também. Ok, pra fechar, lembram que o primeiro fascículo da ‘Liga da Justiça por Grant Morrison’ da Panini saiu em novembro de 2008? Pois é, esperei...Escrito por LUWIG
9 comentários:
E mais uma vez você me causa inveja com esses encardenados...
Vêm cá, quanto custa mais ou menos pra fazer um encardenado?
Por exemplo, o Velho Logan foi quanto?
Não sei se você se lembra, mas fiz algumas questões sobre isso no post "Terapia de Regressão em Pise Brite".
Abraço.
Renato: o preço não mudou muito daquela postagem pra cá. Gasto em média R$ 10,00 por encadernado, dependendo é claro do número de páginas de cada compilado. Os do Justiceiro Max, por exemplo, que são dois tijolos, ficou cada um por R$ 15,00. Como tem apenas oito capítulos, O Velho Logan ficou fininho e, portanto, mais barato, por R$ 10,00 mesmo. Os intermediários, como o do Quarteto ou do Thor costumam ficar por R$ 12,00.
Abração.
Acho fantástico seus encadernados homemade. Qualquer hora dessas eu tomo coragem e faço igual... Acho que minhas DC Um milhão são possíveis candidatas...
Meu velho, se eu ainda comprasse algum mix enviava enviava pra ti pelo correio pra ajeitar as porqueira... =D
Legal! Até que não fica caro se for levar em conta as encardenações lançadas ultimamente.
Um dia tomo coragem pra fazer com algumas aqui.
Abraço.
Back (in black) at full throttle!
Tenho a mesma opinião sobre a reta final de The Walking Dead. Talvez um pouco menos otimista quanto ao futuro. A pressão arterial caiu gradativamente após o brilhante piloto, escolhas duvidosas pipocaram sob supervisão do próprio Kirkman e o prédio do CDC me soou como um belíssimo mamute branco na sala de estar... WD não precisa dessas pirotecnias, apenas do total e irrestrito massacre do espírito humano. E vou fundar a comunidade "MORRA, Shane!".
SW - Clone Wars, bom assim? Quem diria. Tenho que conferir isso. Aquela jedi parece muito a Shaak Ti... ótimas lembranças dela na série do Tartakovsky. Aliás, tem assistido Young Justice? Até agora, uma boa surpresa!
Criminal foi foda demais. Tenho que caçar o vol. 2.
heh... nesse primeiro quadro do Sweet Tooth, achei que se tratasse de alguma HQ-manifesto vegan ou algo que o valha. O review instigou, verei na banquinha do seu Decê Plus da Silva.
E continua a carnificina Panínica, né? Tenho que admitir... esses seus encardenados dão água na minha boca putrefacta.
Welcome back, motherf*cker!
Hiroshi, Do Vale e Renato: Meus nobres, vamos lá, estilete na caveira!
Doggma Meu chapa, a honra é toda minha por vê-lo de volta a minha bodega. Vejamos, outro ponto (negativo) que constatei no tour ao CDC, menos grave eu diria, mas mesmo assim incômodo, foi a repetição desnecessária do que vimos na estação do xerife no piloto, ou seja, o deslumbramento dos sobreviventes por pequenos luxos como a água encanada. Sobre o Shane, se duvidar, sua azeitona só será deflagrada lá pras tantas da segundona e olhe, olhe.
Eu é que não canso de me surpreender com a regularidade de Clone Wars. O último episódio, ‘Altar of Mortis’ (S03E16), brincou bonito com a sina de Ahsoka. De minha parte, o baixo calão imperou quando a vi sucumbindo ao Lado Sombrio. E quanto à semelhança com Shaak Ti, isso se deve ao fato de pertencerem a mesma espécie que seria a dos Togruta do planeta Shili. Bem, só um aviso se pretende mesmo começar a assistir, não se deixe enganar pelo episódio piloto (ou filme), a máscara começa a cair bonito em ‘Rookies’ (S01E05) – chegando lá, lembre-se da frase “não faço prisioneiros”. Por um instante aquilo poderia ser tudo menos Star Wars.
Young Justice é tudo aquilo que os Novos Titãs e congêneres não são na própria DC Comics há muito, muito tempo. Na minha ótica, já superou fácil os Vingadores de Josh Fine e Chris Yost.
Criminal é foda demais³. Nem fiz muito esforço para esperar pela seqüência tupiniquim e segui em frente com ‘Lawless’ e ‘The Dead and The Dying’ (e não devo custar a entrar de cabeça em ‘Bad Night’). Não tem o que se discutir com a Panini quando o assunto é critério, mas Criminal – assim como DMZ, Freqüência Global e Transmetropolitan – deveria ser mais acessível e sair por aqui nos mesmos moldes que 100 Balas e os outros TPBs.
Sweet Tooth custa um pouco a engrenar, mas quando o faz, vá por mim, se torna uma leitura agradabilíssima. Das melhores dessa nova safra do selo Vertigo.
Cara, esses encadernados “caseiros” com o tempo passam a ser perigosos. Dia desses, meio que involuntariamente, tive olhares estranhos para com minha coleção do Batman. Rapidamente as tirei do meu raio de visão. Eheheh...
Abração.
Muito legal as dicas de leitura Luis, saudades de ler isso por aqui. e os encadernados nem falo mais, coisa fina! kkk
Bom revê-lo por aqui também, meu chapa. Só pra constar, sua birosca vem seguindo de vento em popa. Parabéns!
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